Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
261 pág.

Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


DisciplinaLivros15.732 materiais91.435 seguidores
Pré-visualização50 páginas
visitá-los 
regularmente \u2014 para depois 'se lembrar' a tempo de me afastar com tamanha 
violência que quase caí na rua. Ela saiu galopando pela entrada da Colet House e 
fechou a porta com um estrondo.
Afastei-me de Francis Roles sem rancor de parte a parte, e ele gentilmente me 
disse que devia manter contato pessoal com ele, comunicando-lhe qualquer 
acontecimento interessante em minha vida. Devia escrever para sua casa, não por 
intermédio de sua secretária na Obra \u2014 um privilégio raro, pois os demais só podiam 
se comunicar com ele por meio de Helen. Na verdade, porém, nossa correspondência 
logo se tornou agressiva, cessando a seguir.
Pak Subuh era um homem muito sensual. Percebi isto logo que assisti à sua 
primeira palestra. Suas mãos acariciavam constantemente o interior de suas coxas, e 
havia algo em sua expressão e postura que me dava certas idéias.
Seu tema básico dizia que o homem precisa da ajuda do nível superior se 
deseja progredir e ocupar sua posição no mundo, cumprindo seu verdadeiro destino. 
Seu livro, Susila Budhi Dharma, escrito sob seu verdadeiro nome, Muhammad Subuh 
Sumohadiwidjojo, significa Caminho da submissão à vontade de Deus. Sugere que o 
intelecto e a imaginação formam um obstáculo ao caminho da 'submissão', e que é 
necessária a completa entrega do 'eu'. Boa parte do livro é dedicada a uma discussão 
das relações sexuais como modo de liberar e realizar a natureza divina no ser 
humano.
Sua história pessoal, que geralmente contava em suas palestras, dizia que ele 
fora escolhido para 'abrir' as pessoas ao poder de Deus. Quando jovem, procurou um 
mestre em seu país. Em todo lugar que ia, era rejeitado com as palavras "Não sou seu 
mestre. Seu mestre irá até você". Um dia, em sua casa, ele experimentou uma hora de 
iluminação. Percebeu que seu mestre entrara nele. Agora, podia abrir o caminho para 
sua mulher, sua família e os outros que viessem.
A 'abertura' era um processo bastante nebuloso. Inicialmente, parecia tão 
inócua quanto a 'escuta de Deus' ou a auto-recordação. Contudo, os efeitos eram bem 
diferentes. Diziam-nos de antemão que era essencial separar homens e mulheres para 
essa prática. Ambos não deviam ficar no mesmo cômodo, sequer no mesmo prédio ao 
mesmo tempo. O latihan dos homens, com Bapak, ocorreria num certo horário; o das 
mulheres, com Ibu, bem antes ou depois, para evitar qualquer encontro fortuito no 
caminho ou na escola de bale.
Fui com Madame K. e Lesbia, que já estava em condições de ser uma das 
'abridoras'. Contudo, foi Ibu quem me 'abriu'.
Quando saímos do vestíbulo onde deixamos nossos casacos e seguimos por 
um corredor até o longo salão dotado de barra para as alunas de balé, um forte aroma 
de incenso tomou de assalto meu nariz. Presumi que deveria haver bastões 
queimando em algum lugar. Mas não vi nenhum.
Havia umas 30 mulheres reunidas no salão vazio. As que seriam 'abertas' 
foram levadas a Ibu. As outras ficaram caminhando à vontade ou se sentaram no 
chão, esperando. Ao comando 'início', as mulheres começaram a se concentrar em 
seus próprios sentidos. Isso logo levou o grupo a movimentos ondulatórios ou a 
perambulações pelo salão, algumas com os braços erguidos ou esticados. Começou 
um canto em voz baixa e desordenada, formando um som curioso mas não de todo 
desarmônico, cujo tom foi aumentando gradualmente, sem que fosse possível 
identificar alguma melodia. Era algo claramente espontâneo e agradável de se ouvir. 
Durante uns dez minutos, o canto sem palavras continuou a subir e baixar. O 
movimento de algumas alunas se assemelhava ao das danças do templo de Kathakali; 
em outras, a danças gregas ou ao balé russo. Algumas ficaram sentadas, de pernas 
cruzadas, olhos fechados, apenas movendo os ombros, braços e mãos.
Todas pareciam contentes, exceto uma senhora de meia-idade que começou a 
soluçar e depois a chorar ruidosamente. Uma das 'abridoras' foi consolá-la, 
acalmando-a e evitando perturbações indevidas.
Enquanto isso, aguardei minha vez, até ficar diante da senhora indonésia. Ela 
estava trajando uma roupa oriental; era grande, de feições algo rudes, cujo interesse 
pelas alunas parecia um pouco superficial. Não recebi qualquer instrução, exceto a de 
ficar de pé à sua frente, aberta e submissa ao poder. Ela começou a respirar depressa, 
seus grandes seios subindo e descendo.
Sem saber muito bem o que esperar, fiquei apenas pronta. Na verdade, depois, 
tive a impressão de que não aconteceu nada. Não senti poder ou presença alguma, 
nada fora do normal. Pouco depois, disseram-me que havia sido 'aberta', e sugeriram 
que circulasse com as outras.
Os cantos e danças tinham efeito levemente hipnótico. A única instrução que 
Lesbia me dera de antemão foi para que eu procurasse não me empolgar. Em 
Coombe Springs, onde não se exercia qualquer restrição, as pessoas se atiraram pela 
sala, gritando e berrando, batendo com as mãos ou até com a cabeça nas paredes e 
no chão, na aparente tentativa de se livrarem de mil demônios. Com certeza, o 
'exercício' era uma espécie de processo de liberação ou limpeza. A violência ou não da 
reação dependeria da natureza do indivíduo.
Basil Fenwick, os Hoare e os Kadleigh achavam que o efeito 'liberador' do 
latihan era enormemente benéfico, produzindo um efeito de catarse quase imediato. 
Mas podia ser usado com muito mais proveito por aqueles que tinham experiência 
com a 'auto-recordação' e que já estavam adquirindo autoconhecimento, do que pelos 
recém-chegados às práticas esotéricas ou espirituais, e que ficavam 'doidões'.
Tinham-me aconselhado a não fazer o latihan sozinha no início. Os novos 
iniciados deviam comparecer à reunião comunitária apenas uma ou duas vezes por 
semana. Este número seria aumentado, e a prática solitária seria permitida, quando a 
pessoa já estivesse adequadamente estabelecida na arte. Durante várias semanas, a 
única coisa que experimentei foi um relaxamento agradável, a gostosa sensação de 
ser capaz de dançar e cantar como uma criança desinibida, sem me fazer de tola.
Isso, e o aroma de incenso. Descobri que não havia incenso. Apesar de sentir 
seu forte odor em quase todas as ocasiões, não havia uma só vareta de incenso 
queimando.
Ao discutir o problema com os outros, fiz uma descoberta curiosa. Alguns 
sentiam o aroma do incenso num dia, não sentiam no outro; alguns o sentiam quando 
eu mesma nada detectava. Além disso, algumas pessoas sentiam outros odores. 
Essência de rosas era comum; também mimosa, lírio e outros aromas florais. Uma 
mulher descobriu que sempre sentia o aroma do perfume L'Aimant, da Coty. Estranho 
foi uma moça gorda e grande, que me disse que normalmente sentia o cheiro de 
bacon com ovos fritos! A partir disso, cheguei à conclusão experimental de que as 
pessoas sentiam o cheiro que queriam. Se o alimento para o corpo era mais 
importante do que o alimento para a mente, o coração, o espírito, era isso que o nariz 
parecia receber.
Este curioso fenômeno me levou de volta em pensamento ao livro de Mallory, 
Morte D 'Arthur (Morte de Artur). As lendas arturianas associam o Cálice Sagrado a 
aromas e a comidas. As moças levavam o Santo Graal até o salão onde os cavaleiros 
se reuniam. Ele era acompanhado por 'suaves aromas'. E, em pelo menos um relato, 
cada cavaleiro descobriu à sua frente o prato que mais gostava.
Mais tarde, quando estava com o iogue Maharishi Mahesh, aprendi muito mais 
a respeito das chamadas 'camadas sutis' dos sentidos. Assim como o ouvido humano 
só consegue detectar uma gama relativamente pequena
Jessica
Jessica fez um comentário
Todos deveriam ler!
0 aprovações
Carregar mais