Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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de sons (o grito de um 
morcego, por exemplo, ou esses apitos supersônicos para chamar cães, são 
inaudíveis para a maioria das pessoas), estamos restritos, segundo Maharishi, no 
alcance dos outros sentidos também. Só através da meditação é que conseguimos 
encontrar aromas, sons, visões, sabores e sensações táteis além do que o ser 
humano normal consegue atingir. Mas seus ensinamentos diziam categoricamente que 
tudo isso era uma perda de tempo \u2014 apenas uma estação intermediária antes do 
estado transcendental.
Naquele momento, porém, achei que era uma curiosidade interessante. Fiz 
algumas pesquisas sobre a história e o uso do incenso. Descobri, no Antigo 
Testamento, que os judeus receberam instruções exatas e detalhadas sobre a 
fabricação de incenso devocional. E se a intenção para o uso da mistura desses 
ingredientes específicos \u2014 especiarias, ervas etc. \u2014 fosse a abertura das portas 
internas da mente, focalizando as camadas sutis com um fim específico?
Mais tarde, descobri o trabalho de Enid Case, uma interessante senhora de 
idade que vivia em Devon, cujo livro The odour of sanctity (O odor da santidade) 
contém uma coletânea variada de experiências pessoais e de terceiros a respeito do 
que chama 'aromações'. Sua conclusão foi a de que o aroma de flores, fumo, incenso 
etc, sem a presença física dessas coisas, costuma estar associado a algum tipo de 
experiência emocional. As pessoas sentem o aroma de flores quando se sentem 
emocionadas por uma separação ou perda. Talvez seja por isso que os lírios de Nossa 
Senhora e outras flores fortemente aromáticas costumavam ser levadas a igrejas para 
os funerais e velórios.
Tabaco era freqüentemente descrito em palavras como "Senti o cheiro do 
cachimbo de papai, e por isso entendi que ele ainda estava por perto''. "Senti o 
perfume favorito de minha mãe depois que minha filhinha morreu, e por isso soube 
que ela viria me consolar.'' Apesar dessas explicações parecerem um pouco ingênuas, 
a realidade das experiências parecia indubitável.
Pensei que todas as aparições poderiam ser dessa natureza: o toque das 
penas das asas dos anjos sobre a pirâmide de Teotihuacán e as vozes. Podem ser 
reais, mas será que, em si, indicariam avanço espiritual? Muito possivelmente, viriam 
de um nível interno inferior ao que estava acostumada.
Logo ficou claro o motivo de se separar tão severamente os homens e as 
mulheres para a prática do Subud. Primeiro uma amiga, depois outra, choraram 
durante o latihan, confessando depois que se apaixonaram por maridos alheios. 
Naquela época, o estímulo sexual atingira um ponto tão elevado entre os jovens, que 
estavam acabando com seus casamentos ou relacionamentos estáveis e se 
associando com outras pessoas, com outras e outras, numa versão permanente da 
antiga tradição do 'com licença' nos bailes.
Havia um homem no grupo de Francis Roles, bem mais moço do que eu, por 
quem sempre me senti um tanto atraída. Achei que a atração fosse recíproca. 
Disciplinara-me para não pensar nele, pois não haveria futuro num caso assim. Além 
de meu estado conjugal definido há muito tempo, sabia que Jim era charmoso, sedutor 
e promíscuo, e minha inteligência há muito me advertia para tomar cuidado com ele.
Nessa época, o trajeto até Colet Gardens se tornara uma ridícula história do 
tipo ''será que vou vê-lo? Será que ele vai aparecer numa janela? Será que vai sair por 
aquela porta justo quando eu estiver chegando?" Meu coração batia como o de uma 
colegial, e à noite sofria o tormento dos condenados por causa do intenso desejo 
sexual que sentia por ele! Ao mesmo tempo, a razão e a vontade me impediram de dar 
qualquer passo, mesmo quando soube, um pouco depois, que ele saíra do grupo de 
Francis Roles e que estaria presumivelmente livre para se encontrar com quem 
quisesse, além de estar disponível (ele foi um dos 'homens de confiança' que 
abandonou Roles após a experiência do Subud.)
Em minha mente, a grande pergunta era: por que todos nós, até mulheres de 
meia-idade e homens bem ajustados e casados, estávamos ficando tão sensuais? 
Gurdjieff descrevera a energia sexual como a matéria-prima de onde formas mais finas 
de energia poderiam, no devido momento, brotar. Dividindo a mente humana em 
compartimentos artificiais para demonstrar o que dizia, ele indicou a necessidade de 
se transformar ou transmutar os níveis básicos de energia em algo que pudesse servir 
ao homem superior. Dentre estas coisas, a energia procriativa convertida em 
expressão artística seria claramente uma meta compreensível. Comecei a direcionar 
para aí aquela matéria-prima inútil, sentando-me à escrivaninha durante horas quando 
não conseguia dormir. Minha produção de romances ainda era fluente e tinha recebido 
boas críticas. Fiquei me perguntando se minha capacidade criativa estaria 
melhorando. Estava produzindo muitas notas filosóficas entre um livro e outro, além de 
bastante poesia. Mesmo estando mais prolífica do que antes, porém, não achei que 
meu material seria capaz de pôr fogo no mundo. De toda forma, a maior parte dele era 
pessoal demais, e portanto inadequada para publicação.
Certo dia, uma mulher meio mexeriqueira, que normalmente se comportava 
com um grau minimamente razoável de boas maneiras, passou a se dirigir a todo 
mundo no vestiário, submetendo-nos a insultos tão violentos e injustificáveis por causa 
de algum erro banal, que fiquei pasma. Na mesma noite, chamaram-me a atenção o 
comportamento exagerado e as roupas bizarras de uma jovem executiva, antes muito 
discreta. Ocorreu-me que aquilo com que estávamos lidando no latihan era uma fonte 
de energia pura, mas absolutamente neutra. Portanto, ela realçaria e desenvolveria as 
tendências ou intenções das pessoas que estavam 'abertas' a ela. As pessoas 
criativas ficariam mais criativas e ocupadas, mas as de temperamento irascível 
ficariam ainda mais irascíveis, e as fúteis ambicionariam o auto-engrandecimento. 
Seria uma liberação, de fato. Mas, no final, poderia captar se revelando uma versão da 
Caixa de Pandora.
Não seria capaz de dar um palpite a respeito da fonte disso tudo. Como ela não 
vinha acompanhada de conhecimentos superiores, presume-se que não seria de 
ordem superior. Talvez fosse uma entidade desencarnada que desejasse ajudar o 
mundo, mas sem dispor de um nível capaz de fazer algo muito útil. Talvez fosse do 
nível dos elementos. A teoria da existência dos elementares, seres associados ao ar, à 
água, ao fogo e à própria terra, era algo que estava estudando na ocasião. Sílfides, 
ondinas, salamandras e elfos são um campo de estudo bastante interessante!
Madame K. era a única pessoa com quem podia falar abertamente sobre o 
problema do Subud. Elsie Abercrombie estava 'aberta', mas sua saúde estava se 
deteriorando rapidamente, e ela não podia mais prosseguir; além disso, não se 
encantara desde o início. Quase todos os demais estavam eufóricos e dispostos a 
continuar com Bapak de qualquer maneira, ou tinham abandonado o grupo 
descontentes quando o lado sexual e outras manifestações desagradáveis passaram a 
ser predominantes. Apesar de que o processo de infiltração no próprio ser não seja 
muito rápido nem violento em suas manifestações iniciais, com certeza estava se 
aprofundando e se tornando menos controlável ao longo do tempo.
A princípio, a velha senhora russa estava disposta a discutir o processo tão 
franca e friamente quanto eu. Depois, porém, começou
Jessica
Jessica fez um comentário
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