Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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a me preocupar muito. Ela 
dava a impressão de ter ficado quase que permanentemente doente desde que 
começou a prática do latihan, e um problema atrás do outro a afligiam. Com profunda 
humildade, disse-me:
\u2014 É uma catarse, como sabe. Preciso suportar tudo isso. As impurezas estão 
trabalhando em mim. Devo melhorar logo.
Mas ela parecia cansada, exausta. Finalmente, ocorreu-me que a vida 
cotidiana trazia contínuas 'impurezas' a todos. Um desgosto ou aborrecimento 
momentâneo, um lampejo de impaciência com a estupidez alheia, qualquer 
preconceito ou crítica interior ante a vida ao nosso redor, podem se manifestar como 
'impurezas'. A doença pode ser psicossomática no verdadeiro sentido dessa palavra 
tão abusada. Até os pecados ou defeitos de outras pessoas, se observados e 
assumidos, estavam sendo 'digeridos' pelo sistema de Madame K., em vez de 
passarem inofensivamente por ela. Tudo estava sendo afetado por sua diligente 
prática do latihan. Como ninguém é perfeito, obviamente ninguém conseguiria evitar 
as 'impurezas' cotidianas que provêm do fato de estarmos vivos no mundo.
Em casa, praticava por minha conta, conforme me instruíram. Interessava-me 
descobrir a maneira espontânea pela qual meu corpo, apesar de longo e não mais 
jovem, ainda conservava a flexibilidade, movendo-se em posturas semelhantes a 
danças orientais. Quadris, pescoço, braços, mãos e pés adotavam posições estranhas 
à minha experiência anterior. Às vezes, o quarto parecia se encher de incenso 
enquanto praticava. Parecia haver alguma conexão entre os movimentos de dança e o 
incenso, a tentativa espontânea de assumir a posição do lótus com Reggie Carroll 
quando criança e o quarto escuro e cheio de incenso que, momentaneamente, sentia 
naquela época. Deveria ser algo de natureza igual à experiência tibetana que tive 
quando corria pela estrada Banbury em Oxford, quando me senti coberta de roupas 
pesadamente acolchoadas, ficando tão desorientada durante alguns segundos que 
tive de ir até o parque da universidade e me sentar, enquanto redescobria minha 
presente identidade.
Certa vez, minha filha, já adolescente, surpreendeu-me ao comentar que sentia 
o aroma de incenso na casa de Westerham em que morávamos. Ela começou a 
procurar por toda parte e aparentemente localizou sua fonte num quartinho debaixo 
das escadas. Nessa ocasião, eu mesma nada senti. Mas foi interessante ver que era 
algo que podia ser captado por outro ser humano, que nada tinha a ver com a prática 
do Subud. Não lhe dei nenhuma explicação sobre o problema, e logo ela esqueceu o 
incidente.
As mulheres só viam Bapak ocasionalmente, quando dava palestras na 
Inglaterra. Sempre me sentei a certa distância dele. Percebi que gostava cada vez 
menos dele e de Ibu. Meus sentimentos se fortaleceram quando uma amiga me 
contou, muito envergonhada, que levara Ibu para fazer compras na rua Oxford, a 
pedido desta, e que a indonésia furtou bijuterias, lenços de seda e ouros pequenos 
itens, escondendo-os na bolsa. Quando minha amiga comentou polidamente que 
tínhamos em nosso país o hábito de pagar por aquilo que pegávamos nas lojas, a 
questão se solucionou informalmente. Ela era Ibu. Ela tinha o direito de ter o que 
queria.
Bapak estava viajando pelos Estados Unidos e outros lugares do mundo, 
fundando centros em toda parte. Hollywood o atraiu bastante, e diversos artistas de 
cinema, começando com Eva Bartok, que fora 'aberta' em Coombe Springs, 
declararam que seguiam seu método e expressaram sua satisfação com os 
resultados. Esses atores se sentiam mais enérgicos, mais vivos, melhores artistas \u2014 e 
de quebra, sem dúvida, bem mais sensuais. Na verdade, tinham-se transformado em 
versões ampliadas de seus eus anteriores.
Enquanto isso, Coombe Springs foi sacudida por uma série de escândalos 
diferentes e acontecimentos inexplicados. Um recém-chegado, advertido de que não 
deveria praticar o latihan com muita freqüência ou sozinho enquanto não fosse 
autorizado, ficou tão afetado por ele que entrou numa espécie de dança catatônica e 
acabou morrendo. A imprensa fez um estardalhaço com essa história. Não quiseram 
ouvir a explicação de que descobriu-se que o iniciado tinha um histórico de 
instabilidade física e mental, e que na verdade poderia ter sofrido um ataque cardíaco 
a qualquer momento. O episódio chocou a todos. As pessoas mais próximas do caso 
foram postas de forma vociferante na defensiva. O que é que um sujeito com um 
histórico de saúde como aquele estava fazendo em Coombe Springs, perguntavam as 
pessoas. Elas não sabiam. Achavam que ele estava bem. Só descobriram depois, 
disseram.
De repente, a gruta no jardim de Coombe Springs foi abalada por uma série de 
explosões completamente inexplicáveis. Não se descobriu nenhuma causa. As 
pessoas que viviam na casa ficaram bastante assustadas. Dava a impressão de ter 
sido um fenômeno do tipo poltergeist. John Bennett parou de lidar com o Subud logo 
depois disso. Dr. Roles deve ter murmurado "eu sabia". Mas a verdade é que Bennett 
estava ficando interessado no mestre sufi Idries Shah, a quem cedeu mais tarde toda 
a propriedade de Coombe Springs. Contudo, seus livros Concerning Subud (Com 
relação ao Subud) e Christian mysticism and Subud (Misticismo cristão e o Subud) 
mostraram que ele dava valor à prática e que achava que ela era realmente capaz de 
ajudar a abrir as portas interiores do conhecimento.
Enquanto isso, o grupo da escola de balé continuou, mais restrito, mais 
controlado, observado por pessoas dotadas de senso comum muito maior do que o 
bando de berradores que Bennett aparentemente admitira. Aquele grupo continuou a 
praticar por muitos anos depois de minha saída.
Apesar de receber menos divulgação pela mídia, a prática do Subud continua 
ativa até hoje, pelo mundo todo, mesmo depois da morte de Bapak em junho de 1987, 
com oitenta e poucos anos, e de Ibu um pouco antes dele. Na Casa Subud em 
Norwich, próxima da minha residência atual, um grupo de pessoas medianamente 
criativas vive em perfeita harmonia, praticando o latihan diariamente. Essa é uma 
dentre numerosas pequenas comunidades semelhantes. São pessoas satisfeitas com 
seu trabalho. Mas quando perguntei a um artista e escritor bastante talentoso de uns 
quarenta e poucos anos a razão pela qual se limitava às possibilidades inerentes 
àquela prática, ele respondeu, revelador:
\u2014 Não posso viver sem ela. Já tentei uma ou duas vezes. Mas quando saio e 
me afasto dos demais, começo a me desintegrar. Tudo desmorona. Sabe, Subud é 
essencial para mim.
Olhei para ele. Seu rosto era inteligente e aberto. Ele era um ilustrado. Enviara-
me poesias muito bonitas. Mas era incapaz de usar seu próprio centro criativo sem 
ajuda externa. Com sua idade, tinha por trás de si uma série de relacionamentos e 
casamentos desfeitos, e o espírito juvenil da comunidade ainda o comandava. Achei 
que ele ainda não se encontrara. Além disso, há tempos não conseguia uma fonte 
regular de sustento. Anteriormente, ensinara inglês no exterior.
Para mim, dois anos foram suficientes. Decidi me desligar discretamente dos 
Hoare, dos Kadleigh e de Basil Fenwick, trabalhando por conta própria por algum 
tempo. Para mim, a importância do Subud está na possibilidade que nos oferece de 
vislumbrar os diversos níveis de onde podemos extrair forças, e em perceber como é 
fácil nos tornarmos alvo de influências sobre as quais não temos nenhum controle.
Mas a prática do latihan ainda ficou em mim, assim
Jessica
Jessica fez um comentário
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