Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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tanto impacto. Era bem diferente da 'abertura' Subud, que na ocasião nada me 
causou, trazendo resultados graduais posteriormente. Após ter-me dito exatamente 
como devia repetir meu mantra, notei que ele passava rapidamente por minha mente, 
de modo quase automático, como se algum poder diferente da minha vontade 
estivesse operando os mecanismos do meu cérebro. Maharishi me disse para "ficar 
em meditação", e disse que voltaria depois "para ver como você está se saindo".
Passaram-se duas ou três horas. O tempo não me pareceu longo, e, para falar 
a verdade, mal percebi sua passagem. Não me ocorreu que ele não voltou. Não 
pensei em nada além de me sentar, relaxada e feliz, de pernas cruzadas sobre uma 
almofada, sentindo uma curiosa mescla de satisfação e alegria.
O trânsito da hora do rush começou a passar ao lado da casa. O dia de 
trabalho havia acabado. As pessoas que saíam de seus escritórios começavam a 
entrar na sala onde eu estava meditando. Podia ouvi-las sentando-se no chão 
sozinhas ou aos pares, silenciosamente. Não me mexi, nem abri os olhos. Sabia que 
elas também estavam meditando.
Finalmente, voltei a ficar totalmente consciente de minha localização. Abri os 
olhos e olhei para meu relógio. Notei os rostos tranqüilos ao meu redor, olhos 
fechados, feições imóveis e relaxadas. Levantei-me em silêncio e desci as escadas 
até a recepção. Apesar de não ter comido nada naquele dia, não sentia fome ou sede. 
Uma sensação de prazer, leveza e satisfação me preenchia. Percebi que estava me 
sentindo tal como me senti durante um feliz relacionamento afetivo de muitos anos 
antes: satisfeita e despreocupada quando saía da cama, e cheia de simples e inocente 
alegria devido a todas as coisas do dia e da noite. Senti-me como se tivessem feito 
amor comigo com grande perícia e ternura, e tivesse dormido, descansado e 
despertado novamente. Como se tivesse sido lavada e renovada, como uma criança. 
Como se eu fosse completamente inocente.
Antes de voltar para casa, conversei rapidamente com Johnson Bates, que me 
disse que Maharishi gostaria de saber no dia seguinte como me sentira.
\u2014 Ele já saiu. Esqueceu-se completamente de voltar para falar com você. Volte 
pela manhã.
Disseram-me para meditar durante meia hora, de manhã e de noite. Na manhã 
seguinte, tomei um banho, sentei-me e comecei. O mantra fluiu de modo fácil e natural 
em minha mente, e novamente a sensação alegre e limpa me invadiu. Imagens claras 
começaram a surgir na mente, a maioria de crianças sorridentes. O familiar e amado 
rosto de Rodney brotou sorrindo das brumas da memória e sua voz ressoou em mim. 
Tive a impressão de que estávamos novamente juntos no alto da pirâmide, em alegre 
e confiante amizade. Aquele fora um ano feliz... Gradualmente, percebi que estava 
pensando, em vez de meditar. Não estava mais repetindo o mantra. Comecei a repeti-
lo novamente.
Então a meia hora se passou, apesar de ter tido a impressão de que me 
sentara e começara apenas alguns instantes antes. Vesti-me, dei cabo de algumas 
tarefas domésticas essenciais, engoli torradas com café e me enfiei no trânsito matinal 
de Londres.
Nessa época, quando sua organização não era muito grande, Maharishi 
costumava observar e supervisionar de perto os novos iniciados, instruindo-os e 
usando seus serviços de diversas maneiras. Com o tempo, isso mudou, e milhares de 
pessoas foram iniciadas sem sequer conhecer o mestre. Tive a impressão de ter tido a 
sorte de chegar no começo. Quando soube que eu era escritora, pôs-me a compor 
folhetos, a organizar os cartazes para encontros que faria nos salões Caxtom e 
Conway e a rascunhar outros documentos.
Logo descobri que ele tinha uma mente altamente inteligente, uma memória 
retentiva e que mantinha em mente uma dezena de projetos ao mesmo tempo, 
estando sempre em movimento. Enquanto lia para ele em voz alta o que escrevera, 
interrompia-me para telefonar para Estocolmo pedindo uma reserva num hotel, 
telefonava para alguém em Atenas para falar de alguma proposta de visita, mandava 
uma mensagem para a baronesa Fulana de Tal em Hamburgo. Ou para perguntar:
\u2014 Qual o maior auditório de Londres?
\u2014 O Albert Hall, Maharishi.
\u2014 Quanto custa? Quantas pessoas cabem lá? Ligue para eles! Diga-lhes que 
vamos usá-lo para um congresso mundial em breve.
Apesar de trabalhar e pensar com grande rapidez, seu método consistia em pôr 
meia dúzia de pessoas a fazer planos, descartando-os em preferência às idéias mais 
claras e desenvolvidas que lhe ocorressem. Seu método de trabalho e sua forma de 
lidar com os seguidores era bem oriental \u2014 gregário, falador, nada pontual e, com seu 
sorriso charmoso e riso solto, era perdoado por pegar os trabalhos prontos, pô-los de 
lado, mandar que outras pessoas os refizessem e depois juntar tudo após horas ou 
dias de esforço.
As pessoas iam e vinham o dia todo. Ele gostava de ter pessoas à sua volta, 
fazendo-lhe perguntas, sentadas a seus pés, tal como os alunos tradicionalmente se 
reúnem perto do mestre na Índia. Escrevíamos de pernas cruzadas sobre o chão, 
interrompidos pelo telefone que tocava sem parar, pela chegada de visitantes ou para 
irmos à cozinha mexer o curry de verduras que fervia ao fogo. Ele comia uma vez por 
dia, e todos que estivessem na casa naquele momento comiam com ele. Ele era 
completamente vegetariano, e vivia principalmente dos curries que os devotos 
indianos cozinhavam, além de frutas, iogurte e leite.
No primeiro dia, trabalhei 18 horas com ele. Não percebi o horário. Ele mesmo 
parecia incansável. Quando ele disse:
\u2014 Telefone para senhora X. Ela vai me dar algum dinheiro para um circuito de 
palestras.
Alguém respondeu:
\u2014 Ela deve estar na cama, Maharishi. Estamos no meio da noite. Meu relógio 
marcava três da manhã.
\u2014 No meio da noite? Então todos devem ir para casa \u2014 disse, olhando 
curioso à sua volta. \u2014 Vocês não querem ir para casa?
Respondemos com um gesto, e ninguém se mexeu. Como se estivesse 
combinado, recomeçamos a trabalhar e a planejar, pois via-se claramente que ele 
mesmo não desejava dormir.
Cochilei sobre algumas almofadas na sala do andar de baixo por algumas 
horas. Desse dia em diante, ia e vinha quase diariamente, oferecendo ajuda para 
quase toda tarefa que se apresentasse: aspirar o tapete, lavar os pratos, escrever 
rascunhos de folhetos que impeliam o mundo ocidental a praticar meditação. Tudo que 
escrevia no objetivo estilo jornalístico era alterado para uma florida linguagem oriental 
antes de ser publicado.
Quando havia tempo, sentávamos e repetíamos nossos mantras meditando. A 
maioria de nós ficava fascinada, de início, com visões, vozes e sutis percepções 
sensoriais que eram agradáveis, interessantes ou inexplicavelmente curiosas. Nada 
disso era novidade para mim, claro. Mas nunca conseguira entender plenamente 
essas coisas.
Maharishi dizia que essas experiências pertencem ao 'meio-mundo' com que 
os espíritas e clarividentes costumam lidar. Atualmente, eu diria que pertence ao nível 
psíquico, não espiritual.
\u2014 Isso não vale nada. Deixem essas coisas de lado. Vamos além disso.
A teoria simples de Maharishi dizia que a mente se voltará naturalmente para a 
fonte de sua própria existência caso disponha de uma técnica fácil para isso. Esse é o 
"reino do Deus interior", e a fonte de toda existência. "Grande felicidade, energia, 
criatividade e amor podem ser encontrados por esse meio simples", disse, "pois a 
mente transcende facilmente este mundo e entra no campo do Ser."
Jessica
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