Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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fora um 
talento ou uma malandragem, em Maharishi era uma arte disciplinada.
Maharishi conversou com a menina com problemas mentais, pedindo-me para 
ficar no quarto. Para minha surpresa, ele a iniciou. Em alguns minutos, ela estava 
silenciosamente sentada com os outros, aparentemente livre de todos os demônios, 
repetindo seu mantra em paz.
Os novos iniciados eram trazidos 'de volta' da meditação para que sua 
experiência fosse 'conferida' após meia hora. Pedi que Volkurt Knudsen, um jovem 
alemão muito sensível, anotasse os nomes e horários em que cada um começou a 
meditar, para que fossem postos em fila na ordem de saída. Depois de Maharishi 
conversar com cada um, mandava-os para casa ou de volta à meditação, de acordo 
com o resultado individual. Naturalmente, eu ainda era muito inexperiente na ocasião 
para pessoalmente avaliar a experiência de cada um. Mal entendia a minha.
Eu pensei em cobrar algum dinheiro de todos eles. Logo percebi que pouco 
surgiria. A renda de uma semana significava uma semana de bolsa universitária para 
muitos deles; do que iriam viver se dessem tal soma? Consultei Maharishi. "Que 
paguem o que puderem", disse. Um rapaz disse que só tinha alguns centavos, e deixei 
por isso mesmo.
Usando apenas meias, para evitar ter de tirar e pôr meus sapatos toda hora, 
subi e desci escadas, fui de um lado para outro, e, por milagre, consegui manter tudo 
em ordem numa velocidade razoável. Lá pelas quatro e meia da tarde, perguntei-lhe 
se queria almoçar, pois não fizéramos qualquer pausa desde o café da manhã.
\u2014 Não \u2014 disse ele. \u2014 Agora vamos falar do Congresso Mundial. Telefone para 
o Albert Hall e marque a data.
\u2014 Sim, Maharishi. Mas, e os rapazes? Ainda há muitos esperando. Ele 
aparentou aborrecimento novamente.
\u2014 Estou cansado dos rapazes. Eles fazem perguntas só por fazer. Traga todos 
de uma vez e vamos acabar com isso.
Hesitei, pensando na melhor maneira de resolver o impasse. Surgiu uma 
distração oportuna. Um dos recepcionistas apareceu levando um exemplar do Oxford 
Mail, que comprou para nós sem que tivéssemos pedido. Uma grande e atraente foto 
de Maharishi em meio-perfil, sorridente, adornava a primeira página. Havia um texto 
longo e bem redigido.
\u2014 Leia-o para mim \u2014 pediu.
Tentando não me sentir ansiosa com os movimentos e filas do lado de fora, 
sentei-me e li. O repórter fizera um relato fiel e honesto. Tudo estava bem até que li a 
última frase. De modo comovente, ele finalizou sua entrevista com esse extraordinário 
mestre indiano que iria "regenerar o mundo em três anos" com as palavras: "De minha 
parte, vou meditar sobre a estranha inocência do Maharishi".
\u2014 O que significa isso? \u2014 disse Maharishi, arregalando muito os olhos.
Lá fora, com grande alarido, batiam fortemente na porta. Levantei-me e olhei o 
corredor. Os estudantes se comprimiram à porta, todos falando ao mesmo tempo.
\u2014 Quando ele irá nos atender?
\u2014 Tenho um jantar na faculdade.
\u2014 Preciso ir a um palestra.
\u2014 Meu tutor está me esperando e já estou atrasado.
\u2014 Estamos esperando há horas.
\u2014 Muito bem \u2014 disse Maharishi \u2014 , vamos continuar com eles. 
Por volta das onze da noite, ele terminara as iniciações, e todas as avaliações 
e instruções adicionais para o primeiro dia foram dadas. Todos, isto é, exceto para dois 
rapazes que chegaram para a primeira consulta depois que as lojas haviam fechado, 
razão pela qual não conseguiram comprar suas oferendas de flores e frutas. Perguntei 
se poderiam partilhar a oferenda de outras pessoas ou pegar alguma que já tivesse 
sido usada, pois todos os quartos estavam cheios de frutas e flores.
\u2014 Não, não. Eles devem trazer as oferendas deles. Aquelas que já foram 
postas no altar não são usadas novamente.
Disse aos jovens candidatos para saírem e tentarem conseguir alguma coisa 
com alguém, nas faculdades ou em algum dos hotéis. Eles voltaram quase 
desesperados, dizendo que não conseguiram absolutamente nada, exceto duas 
maçãs. Estavam determinados a receber a iniciação. Imploraram-me. Transmiti suas 
súplicas a Maharishi. Ele foi categórico.
\u2014 Se não trouxerem os presentes conforme a tradição, não os iniciarei. \u2014 
Disse-lhe que tinham tentado. \u2014 Que voltem amanhã.
Eles disseram que teriam exames o dia todo. Será que Maharishi não faria uma 
concessão? Ele ficou calado, olhando para um ponto qualquer à sua frente.
Os jovens esperaram toda a noite, sem falar nada, sentados uma ao lado do 
outro num sofá do corredor. Pela manhã, tinham ido embora.
Às onze e meia da noite, perguntei-lhe se tinha comido alguma coisa. Eu não 
fizera uma pausa sequer desde a manhã, e, naturalmente, nem ele.
\u2014 Posso pedir alguma coisa para o senhor, Maharishi?
Ele recusara seu curry antes. Queria iogurte, disse. Apesar de meus arranjos 
com o porteiro da noite, aconteceu alguma coisa errada na cozinha e não havia iogurte 
no hotel.
\u2014 Não faz mal \u2014 disse. Deitou-se de lado, apoiando a cabeça nas mãos. \u2014 
Vá comer.
Apesar de saber que ele não precisava de muito alimento, senti-me ansiosa 
pelo fato de ele passar o dia inteiro sem comer nada e sem conseguir aquilo que 
pediu. Saí do hotel e percorri todos os restaurantes da cidade até encontrar um 
restaurante indiano aberto na rua Walton, apesar de ser quase meia-noite. Jantei 
rapidamente e os convenci a me darem duas garrafas de iogurte, levando-as 
orgulhosamente para o Hotel Randolph.
Entrei silenciosamente em seu quarto para não acordá-lo caso estivesse 
dormindo. Seus grandes olhos negros apontaram para mim. Ele viu o iogurte, sentou-
se contente e feliz, e pus um prato diante dele.
\u2014 Estava deitado aqui pensando que, se o corpo precisasse de alimento, 
haveria alimento \u2014 disse. Ele riu enquanto comia. \u2014 Você comeu também?
\u2014 Sim, obrigada, já comi.
Quando terminou, trouxe-lhe água num prato e uma toalha, à maneira como 
estava acostumado. Ele molhou os dedos e os secou.
Então, disse:
\u2014 O que ele quis dizer? "A estranha inocência do Maharishi"? 
Não respondi. Retirei o prato, lavei-o, pendurei a toalha e comecei a limpar o 
arroz, os restos de incenso e as flores caídas em redor do altar. Às minhas costas, ele 
repetiu:
\u2014 O que ele quis dizer? Hum? Hum?
Não conseguia imaginar algo apropriado para dizer. Quando ele insistiu, 
observei que nossa Bíblia diz que, a menos que você seja como uma criancinha, não 
pode entrar no reino do Céu.
\u2014 Ele acha que você é como a criancinha, Maharishi. Na verdade, foi bonito o 
que ele disse.
Maharishi ficou me observando. Não quis olhar em seus olhos, pois sabia que 
era uma meia-verdade. Senti-me incapaz de dizer algo que pudesse parecer áspero 
ou cruel, ou de fazer algum julgamento dele. Olhei para ele e afastei meu olhar 
novamente enquanto andava pelo quarto.
\u2014 Ele pensa que eu não posso regenerar o mundo? \u2014 disse a voz de 
Maharishi às minhas costas. Concordei, hesitante.
\u2014 Ele pensa que você não pode regenerar o mundo, Maharishi. Fez-se um 
longo silêncio.
\u2014 Não quer dormir, Maharishi?
Ele me deu a impressão de ter envelhecido de uma hora para outra. 
Confessou-me que estava um pouco cansado. Deitou-se. Aparentemente, não sentia 
nem frio, nem calor. De qualquer modo, cobri-o suavemente com seu cobertor marrom. 
Depois, abri um pouco a janela. Ele não olhou para mim, mas ficou contemplando o 
infinito. Quando saí do quarto, disse-me:
\u2014 Vou meditar sobre essas palavras: "a estranha inocência do Maharishi". 
Tivemos problemas com a menina mentalmente perturbada logo no começo do 
dia seguinte. Fiquei surpresa por ele não ter percebido que esse caso poderia
Jessica
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