Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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ter 
repercussões, mas creio que fazia parte da estranha inocência. Ela chegou mancando, 
chorando, com um jeito estranho. Dizia coisas incoerentes e atraiu muita atenção. Fiz 
com que passasse na frente de todos e levei-a rapidamente à presença de Maharishi. 
Fiquei maravilhada com o modo como ele a acalmou, a rapidez com que ela recuperou 
a normalidade e a serenidade. De olhos límpidos e feliz, ela saiu do hotel com um ar 
saudável, com equilíbrio mental e físico. No meu íntimo, achei que esse milagre não 
iria durar muito. Por ora, no entanto, estava preocupada apenas em fazer com que não 
atrapalhasse os demais.
Quando entrei em seu quarto, Maharishi disse:
\u2014 Deveríamos nomear um líder para cuidar deste novo centro de meditação 
de Oxford. Quem poderia ser?
Sugeri um dos indianos, pois ele estava me ajudando com habilidade e bom 
senso. Ele descartou a hipótese imediatamente. Ocorreram-me duas ou três 
alternativas \u2014 pessoas mais velhas que, em meu entender, pareciam responsáveis e 
sensatas. Ele não aceitou nenhuma delas. Pensou um pouco e disse:
\u2014 Vou nomear aquele rapaz alemão. Será que está por aí? 
Volkurt Knudsen estava no hotel, tendo sido um dos primeiros a chegar, apesar 
de lhe termos dito que saíra bem e que não precisaria voltar. Mesmo assim, apareceu 
logo cedo, trazendo três crisântemos enormes para Maharishi. Ele estava sentado 
quietinho com as flores nos braços, embora eu lhe tivesse dito que talvez não pudesse 
ver Maharishi. Evidentemente, este deve ter sentido a presença do rapaz, pois eu não 
o informara. Fui chamá-lo correndo. Vinte minutos depois, Maharishi me disse:
\u2014 Eis o líder do Centro de Oxford. Diga aos outros. 
Volkurt reuniu-se novamente ao grupo. Seu inglês era bem fraco. Ele estava no 
começo do primeiro semestre da faculdade. Seu pai era industrial em Hanover. Ouvi-o 
quando dizia a Maharishi, naquela manhã, que se acostumara a rezar e a meditar 
sobre a Cruz, ficando ajoelhado durante uma hora a cada vez. Seu rosto franco e 
jovial ficou iluminado enquanto conversava com Maharishi. Via-se claramente que 
tinha mais consciência espiritual do que os outros, o que Maharishi percebeu 
rapidamente. Junto dos outros iniciados, parecia muito jovem. Esforçou-se para se 
fazer compreender, e continuou a me ajudar durante a manhã toda.
Por volta do meio-dia, Maharishi disse, de repente:
\u2014 Creio que devemos voltar para Londres agora. 
Lembrei-o de que ainda havia muitos compromissos agendados. Ele pareceu 
tristonho. \u2014 Eles falam tanto \u2014 disse. \u2014 Bem, vamos ficar mais uma hora.
Fui até os quartos onde as pessoas esperavam e 20 rostos se viraram 
esperançosos para mim. Seria impossível escolher aqueles que o veriam ou não, de 
modo que os selecionei ao acaso, esperando que minha escolha fosse aceita. Assim, 
alguns foram iniciados e avaliados, alguns não foram avaliados, alguns marcaram 
suas consultas e nunca foram iniciados.
Pedi para fecharem a conta. Peguei o dinheiro das iniciações e o somei ao 
montante da caixinha de latão do quarto de Maharishi. O dinheiro não era suficiente. 
Saquei de meu talão de cheques. O telefone tocou. A gerente, pedindo desculpas, 
disse que houvera um erro. A conta estava alta demais.
\u2014 Mas, e os outros quartos? \u2014 perguntei.
\u2014 Percebemos que o cavalheiro indiano foi perturbado por uma certa senhora. 
Nessas circunstâncias, não vamos cobrar o uso dos dois quartos adicionais.
Parecia extraordinário, mas comecei a achar que não havia mais nada de 
extraordinário com o Mestre por perto!
Enfiei minhas coisas na mala, pus seus poucos pertences na caixa de metal, 
reuni as melhores flores e frutos. Algumas pessoas prestativas ofereceram ajuda, e 
alguém trouxe o meu carro. Saímos em lenta procissão. Os funcionários do hotel, que 
acolheram friamente o pequeno indiano vestido de branco em sua chegada, vieram 
vê-lo sorridentes. Ele deu flores a todos que viu pelo corredor e pelo lobby.
Volkurt empilhou a bagagem no carro em vez de deixar a tarefa para os 
porteiros. No último instante, disse:
\u2014 Será que eu poderia ir a Londres com vocês? Por favor, peça a Maharishi 
por mim, caso ele diga não.
O jovem alemão sempre mostrou polidez. Maharishi sorriu para ele.
\u2014 Sim, sim, entre, há bastante lugar.
Volkurt entrou no carro e se acomodou no banco de trás entre as frutas e 
flores. Fomos saindo e nos afastamos do grupo sorridente de funcionários do hotel, 
que ficaram acenando. Volkurt fez algumas perguntas cuidadosamente formuladas 
enquanto viajávamos. Depois ele se reclinou, observando que esgotara sua cota de 
atenção dispensada por Maharishi, e que agora ficaria quieto. Pelo retrovisor, vi que 
seus olhos estavam fechados. A cabeça de Maharishi pendeu para a frente, e pensei 
que ele estava tirando um bom cochilo, mas meia hora depois já estava bem 
acordado.
Toquei num assunto que já estava me intrigando há algum tempo.
\u2014 Maharishi, nem todos os iniciados voltaram para sua avaliação esta manhã, 
conforme combinamos. Será que alguns dos novos iniciados param de meditar?
\u2014 Eles vão continuar. Todos querem ser felizes. Eles vão meditar e serão 
felizes.
\u2014 Maharishi, apesar da meditação parecer fácil se comparada com técnicas 
que exigem austeridade e disciplina, às vezes eu mesma não consigo meditar.
\u2014 Como? Você não consegue meditar? Basta sentar, fechar os olhos e 
começar.
Comecei a tentar explicar-lhe que, quando estava cansada ou ansiosa como 
ficara nessas três últimas noites, não conseguia manter estável minha mente. Ficava 
preocupada com minhas responsabilidades, com o que tinha de fazer, organizar, 
planejar e assim por diante.
\u2014 Nessas circunstâncias, alguma coisa na pessoa impede a meditação. 
Parece que estamos prestando atenção a algo que está numa direção bem diferente.
Pensei em John e Jane, descansando enquanto eu corria de lá para cá, 
arrumando tudo. Também percebera que outras pessoas, antes ocupadas, estavam 
ficando mais letárgicas e interiorizadas. Mesmo assim, parecia obviamente importante 
meditar.
\u2014 Qual o problema? \u2014 perguntei de uma vez.
Ele pensou um pouco no assunto, como se nunca tivesse encontrado esse 
problema antes.
\u2014 São seus pecados \u2014 disse sem rodeios.
Tive a impressão de que ele ficou pensando no problema. Quanto a mim, 
comecei a analisar qual seria o significado final da palavra 'pecado'.
Na verdade, apenas um pequeno número de pessoas iniciadas nessa época 
prosseguia em seus estudos. A maioria ia embora rápido. Este deveria ser o primeiro 
indicador da necessidade de uma mudança de táticas mais tarde, quando lidasse com 
o atarefado mundo ocidental.
Tarde da noite na estrada Prince Albert, sentávamo-nos no quarto de Maharishi 
para tomar um café e comer sanduíches enquanto ele tomava leite, e às vezes 
sobrava tempo para uma conversa. Geralmente, ouvíamos coisas extremamente 
interessantes. Ele nos falava de seu adorado Mestre, de cuja presença constante 
estava sempre consciente. Fazíamos perguntas sobre o hinduísmo, e às vezes ríamos 
e tagarelávamos sobre atualidades e sobre o mundo ocidental na visão de Maharishi.
Ele nos disse que a democracia era má, em essência, pois toda a criação 
funciona através de uma hierarquia. \u2014 Portanto, um reino com príncipes é melhor do 
que um sistema de governo eleitoral \u2014 disse.
Dava a impressão de saber de tudo o que acontecia no mundo, e ria das 
táticas e políticas absurdas dos governos. Entre esses momentos alegres, porém, 
podíamos notar que ele estava ficando cada vez mais sério. Mais tarde, não 
conversamos mais sobre atualidades ou trivialidades
Jessica
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