Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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de Konya, na Turquia. Francis adotara essa 
prática, além de sua versão pessoal da MT e dos 'movimentos' \u2014 complexos 
exercícios físicos \u2014 de dança de Gurdjieff, usando-os como complementos para 
auxiliar na expansão da consciência de seu grupo. Portanto, usavam continuamente 
uma variedade de disciplinas diferentes com a mesma finalidade.
O ritual me impressionou não só por ser extraordinariamente belo de se ver, 
exigindo um nível muito grande de atenção para ser corretamente realizado, como 
também por se poder observar nos rostos familiares dos dançarinos a mesma limpeza 
e frescor inocente, despojado e infantil que víamos nas pessoas em meditação 
profunda.
Não tinha dúvidas de que os dervixes girantes e seus seguidores ingleses 
atingiam exatamente o mesmo estado que os praticantes da MT \u2014 e que esse estado 
poderia ser atingido por outros meios. Mas essa percepção não me ajudou a saber o 
que esse estranho estado, que parecia um sono acordado, poderia ser. Uma pista 
importante é que dava a impressão de estar associado ao estado de ausência de 
pensamento. Os ensinamentos de Maharishi costumavam afirmar a importância de 
não termos fluxos contínuos de pensamento, "como a patinação na superfície gelada 
de um lago". "Mantenha a mente imóvel", dizia, ''vamos mergulhar bem no fundo do 
lago de nosso ser. Vamos até a fonte da Existência."
Em seu livro Experiment with tinte (Experiência com o tempo), J. W. Dunne fala 
dessa mesma idéia de manter a mente parada como maneira de entrar em outras 
dimensões do tempo. No entanto, ele acha que só experimentamos as três dimensões 
da existência comum porque nossas mentes estão condicionadas a esse fluxo 
contínuo de pensamentos e idéias. Tudo aquilo que vemos, ouvimos ou 
experimentamos com os sentidos provoca um pequeno pensamento que, por sua vez, 
provoca uma série de pequenos pensamentos associados, um dos quais nós 
seguimos até topar com outra rede de pensamentos, ao longo de todas as nossas 
horas de vigília. No sono, segundo Dunne, essa compulsão que temos para ''ficar na 
superfície do lago'' se afrouxa, o que pode explicar a estranheza e abrangência de 
nossa vida onírica.
Ele começou pela experiência de manter sua mente levemente fixada em 
qualquer objeto ou idéia, sem permitir que ela tocasse em pensamentos associativos. 
Com o tempo, começou a ter experiências onde mergulhava nas profundezas do 
tempo, onde ora vislumbrava o futuro, ora mergulhava no passado, compreendendo-o 
melhor, observando-se e à sua vida como se estivesse numa quarta, talvez quinta 
dimensão do tempo. Além disso, suspeitava da existência de outras dimensões, as 
quais sua mente não poderia atingir sem que entrasse num estado não só de não-
pensamento, mas de não-experiência.
Comecei a pensar que a meditação de Maharishi, e possivelmente todas as 
formas de meditação mântrica, eram de natureza similar. Contudo, no caso de 
Maharishi, o grande impulso dado no início pelo poder que ele parecia ser capaz de 
invocar através da tradição de Shankara, era quase como a cauda de um foguete: o 
míssil decolava a grande velocidade, depois caía ao solo enquanto a cápsula iniciava 
sua propulsão. Daí a facilidade e satisfação com que as pessoas meditavam durante a 
sua iniciação e mais alguns dias depois. Mais tarde, porém, tinham de fazê-lo por 
conta própria, e aí já não era tão fácil. É por isso que Maharishi estava percebendo 
que disciplinas, regras, regulamentos, encontros e cursos eram necessários para 
manter as pessoas firmes em sua intenção de meditar.
Num dos cursos, conheci um jovem norueguês, Kjell Kolflaath, que era 
intérprete dos participantes escandinavos. Trocamos correspondências e trabalhamos 
juntos na preparação de um longo poema que Maharishi escreveu e nos enviou com o 
pedido para ser "convertido em inglês apropriado". Kjell o converteu em inglês 
escandinavo apropriado e eu fiz a correção para a prova, mas quando ele finalmente 
surgiu num livro, voltara ao estilo florido e vitoriano que o Mestre preferia!
Um dia, recebi de Kjell uma gravação feita na Noruega quando Maharishi 
conversava à noite com alguns devotos. Ele falava de suas viagens anteriores, depois 
de ter deixado seus irmãos espirituais em Uttar Kashi, quando seu guru 'deixou o 
corpo'. Quanto mais pensava nessa fita, mais me sentia aflita. A julgar pelos artigos 
em jornais e revistas que estavam aparecendo com freqüência cada vez maior, eu não 
era a única que estava começando a sentir certas dúvidas a respeito de suas origens 
e de seu verdadeiro propósito.
Ele sempre deu a entender que era um discípulo especialmente amado e o 
favorito de Guru Dev, o antigo Shankaracharya de Yotir Math. Contudo, ficou aparente 
que, favorito ou não, quando Guru Dev desapareceu não foi ele quem se tomou o 
próximo Shankaracharya. Ele sugerira por implicação que isso se devia ao fato de ter 
uma tarefa maior.
A longa palestra informal que eu estava recebendo não devia existir. Nela, ele 
dizia que saíra do vale de Uttar Kashi, no Himalaia, após a indicação do sucessor de 
Guru Dev, indo depois para Madras, no sul da Índia, onde visitou mosteiros e templos 
sem qualquer meta estabelecida. Naquela época, não estava em missão. Não tinha 
instruções. Dava a impressão de que queria apenas sair do vale. A dedução por trás 
de suas palavras, nesse momento, era a de que estava deprimido.
Ele já dissera a alguns de nós que tivera experiências espirituais em Madras, 
no templo da deusa Lila Lakshmi, que é, na verdade, a deusa hindu da riqueza. Na fita 
norueguesa, ficou claro que a idéia de 'regenerar o mundo' se originou lá, e não antes.
\u2014 Pensei \u2014 dizia a voz familiar na fita \u2014 por que não oferecer parte dessa 
glória divina a essas pessoas pobres do sul da Índia? Depois eu pensei, por que não 
regenerar o mundo inteiro?
Seria impossível deixar de ter com essa narrativa a impressão de que ele teria 
deixado Uttar Kashi desapontado ou furioso por não ter sido o sucessor de seu 
mestre. A experiência de ter sido guiado por Lakshmi pusera em marcha toda a série 
de eventos que se seguiu. Se não pôde ser Shankaracharya, por que não fazer 
melhor? Por que não criar fama pessoal, algo que todo o mundo exterior conhecesse?
Ele começou a ensinar nas aldeias de Madras. As pessoas sempre gostam de 
ouvir um homem santo. Como todos os povos em todos os tempos, elas queriam 
saber como atingir as 'glórias divinas' de que ele falava. Pensou nisso e lhes disse que 
poderia apresentar uma técnica simples de meditação que seria adequada para elas. 
Escolheu mantras da tradição 'doméstica'. São mantras de efeitos mais suaves do que 
os mantras mais usados, adequados para reclusos. O termo 'doméstico' se aplica a 
toda pessoa que tem compromissos com a vida, que precisa arar o solo, plantar, criar 
os filhos. A fita deixou claro que a indicação de mantras domésticos foi, no início, uma 
simples experiência. Aparentemente, funcionou. Os aldeões gostaram da meditação e 
ficaram mais felizes. Tanto essa técnica como os mantras específicos que, mais tarde, 
formaram a base da prática da MT, foram desenvolvidos no decorrer de algumas 
semanas em Madras. A variação entre essa história e a versão que normalmente dava 
era bem grande em alguns trechos \u2014 apesar de estar claro que ele se convenceu de 
Guru Dev teria, do além, guiado e orientado o desenrolar dos acontecimentos de 
algum modo. Mais aparente ainda ficou que seu Mestre não lhe teria confiado essa 
tarefa em pessoa, como ele deixara implícito antes. Deve ter havido um intervalo muito
Jessica
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