Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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a objetos que não estão presentes naquele momento real. Notei 
os monges cantando, sorrindo, rubicundos, aliviando-se brevemente de seus deveres 
mais sérios.
"Ele gostaria disso", pensei subitamente, e quando fui completamente tomada 
pelo desolado anseio de ver o jovem alto e magro, agora visualizado como 
plenamente adulto e inatingível nesta vida, as lágrimas começaram a rolar por meu 
rosto, caindo sobre o pedestal envidraçado que abrigava a antiga partitura e suas 
palavras praticamente ilegíveis.
A hera farfalhava ao vento enquanto os grandes pássaros iam de lá para cá, 
ocupados com seus insondáveis afazeres. Por alguns minutos, o mundo me deu a 
impressão de ser um lugar assustadoramente solitário para se viver. Depois, tomei a 
decisão de largar aquilo tudo, de pôr de lado aquelas coisas da infância e de tentar me 
sentir mais à vontade, por necessidade, entre meus colegas humanos desta terra. 
 2
Knowledge of the higher worlds (Conhecimento dos mundos superiores), de 
Rudolf Steiner, foi o primeiro livro esotérico que li. Aos 16 anos, dando uma olhada nas 
estantes da Biblioteca Municipal, encontrei-o no título Religião e Filosofia, li-o numa 
sala silenciosa com intensa excitação, e finalmente levei-o para casa para continuar 
sua leitura em segredo, usando uma lanterna sob as cobertas depois que mandavam 
minha irmã e eu apagar as luzes para dormir.
Idéias como diferentes níveis de realidade, diferentes modos de consciência, 
seres superiores que sabiam mais do que homens comuns, não se encaixavam nem 
um pouco com os sermões do sacerdote na igreja de St. Peter le Bailey, que 
freqüentávamos nas manhãs de domingo. A idéia de seres desencarnados era tão 
nova e forte para mim que fui procurar o padre pessoalmente sob um pretexto 
qualquer e tentei questioná-lo.
O reverendo Christopher Chavasse, mais tarde bispo de Rochester, era amigo 
pessoal de meu pai, portanto abordável. Contudo, desapontou-me ao responder a 
minhas ansiosas questões como se lidasse com uma criança importuna, e finalizou 
dizendo-me para rezar como uma boa menina, pois Deus olharia por mim.
\u2014 Preces não fazem nada \u2014 protestei. \u2014 São apenas um punhado de 
palavras.
Ele sorriu de modo amigável.
\u2014 Bem, todos temos momentos em que nos flagramos rezando o "Pai nosso 
que estais no céu" enquanto pensamos no que teremos para o almoço. Às vezes, 
pilho-me soletrando o ABC ou contando até 20 de maneira errada, porque não estou 
prestando atenção. Até eu faço isso quando não estou pensando corretamente em 
Deus. Você precisa prestar atenção e pensar em Deus.
\u2014 E como é possível pensar corretamente em Deus? Ele é muito... \u2014 quis 
dizer "distante, desafiando as definições. Ou então pode haver muitos deuses, muitos 
níveis ou muitos modos de Deus". Mas não consegui expressar minhas idéias 
embrionárias.
Dr. Chavasse estava sentado ao lado da escrivaninha de seu escritório em St. 
Peter's Hall, cuja administração cabia ao reitor de St. Peter le Bailey. A seu lado, na 
parede, havia uma reprodução das mãos em prece, de Dürer. Meu olhar se deslocou 
de seu rosto e de suas palavras inúteis, e passei a contemplar a postura das mãos de 
ossos delicados, com a súbita sensação de ter compreendido a natureza da prece, 
mesmo que por um só instante. Decidi que Dürer sabia de algo que o reitor não sabia. 
ABC, francamente! Que confissão ridícula e vergonhosa!
Depois, tentei o reverendo Bryan Green, que posteriormente se tornou cônego 
e personalidade da televisão, mas que na época era outro reitor de Oxford e também 
amigo pessoal de minha família. Seu estilo era evangélico e emocional, e ele 
conseguia encher a igreja de St. Aldate de estudantes, pondo-os em fila nos 
corredores para entregar suas almas a Deus no altar. Seria fácil ser levada a fazer o 
mesmo. Contudo, minha alma ainda se parecia com um componente nebuloso, algo 
que não poderia dar ou manter. E Bryan, apesar de ouvir com atenção minhas 
perguntas confusas e mal formuladas, não deixava passar nada que não fosse seu 
apego emocional à imagem do Cristo crucificado. Este pensamento \u2014 o corpo 
agonizante na cruz \u2014 não causava efeito em mim. Nem o "meigo e doce Jesus". O 
"pálido galileu" do poema de Swinbume.
*["Tu conquistaste, Oh! Pálido galileu,/O mundo ficou cinzento com teu hálito." Hino a Prosérpina, A.C. Swinbume.]*
De qualquer forma, só algumas pessoas têm alma, pensei. Sabia disso desde 
criança, de algum modo, vendo a presença ou ausência em seus olhos.
Tio Reggie Carroll esteve no Tibete com sir Francis Younghusband. Ele foi a 
primeira pessoa que analisei nesse sentido. Ele nos visitou quando eu era bem 
pequena; não era um tio de verdade, mas um amigo de infância de meu pai. Ele trouxe 
seda da Índia para que meus pais fizessem vestidos para nós e presentes orientais 
para meu pai e minha mãe.
Rindo, ele me enrolou numa porção de pano azul reluzente, virando-o e 
prendendo-o sob um braço, como um sári. Encantada por sua frágil beleza, toquei o 
tecido e olhei para meu tio. Ele era um homem alto, sorridente e grisalho, com toque 
suave. Seus olhos eram luminosos e tinham certa qualidade que nunca mais 
encontrei. Olhei bem para o fundo deles e ele devolveu meu olhar com um ar firme e 
subitamente bem sério.
\u2014 Se você fosse uma menina indiana, você sempre vestiria um sári de seda 
destes.
\u2014 Eu já fui \u2014 disse, com uma segurança despretensiosa.
Ele imediatamente me olhou com seriedade, e eu o contemplei longa e 
espantadamente. Mais tarde, ficamos a sós na sala de visitas.
\u2014 De que você se lembra? \u2014 perguntou quando não havia ninguém por perto. 
\u2014 Você realmente se lembra de ter sido uma menininha indiana?
Não estava muito segura, e minha cabeça pendia em silêncio.
\u2014 Tente se lembrar! Você lembra de algum nome? Do lugar onde viveu? 
Quem sabe, há muito tempo?
Parada, com minhas mãos sobre seu joelho e suas mãos cobrindo as minhas, 
tive a impressão de sentir um odor forte, estranho e adocicado, de visualizar a fumaça 
perfumada subindo de um prato raso, de me sentir transportada para um lugar pouco 
iluminado onde todos estavam sentados no chão.
Sem nenhum pensamento consciente, sentei-me no chão com as pernas 
cruzadas, uma posição na qual normalmente me sentava para pensar, e depois peguei 
um dos meus pés com a mão e tentei colocá-lo sobre meu joelho. Ele não ficou ali 
facilmente, e deixei-o solto. Reggie Carroll me observava. Nesse momento, ele disse:
\u2014 Você se recorda da posição do lótus? \u2014 e sentando-se no chão com 
flexibilidade e suavidade, assumiu aquela que hoje conheço como a posição do meio-
lótus e depois a do lótus.
Na hora, pareceu-me estranha, mas ao mesmo tempo familiar. Tentei copiá-la e 
não consegui. Homem e menina se contemplaram num prolongado silêncio. Ninguém 
entrou na sala de visitas durante um bom tempo, e quando isso aconteceu ele se 
levantou com facilidade, tocou minha testa e me viu saltar e sair correndo.
Não me lembro de ter tido oportunidade de conversar com Reggie Carroll 
quando estava com idade suficiente para discutir reencarnação com certa 
compreensão. Pode ser que ele já tivesse falecido pois, apesar de ágil, aparentava 
certa idade. Contudo, muitas vezes pensava nele com a sensação de ter encontrado 
alguém que entendia de coisas estranhas e que tinha me reconhecido 'de alma para 
alma'. Quando os vestidos azuis de seda ficaram prontos, eram cheios de babados e 
de mangas bufantes sem qualquer significado real. Mas eu tocava o meu no guarda-
Jessica
Jessica fez um comentário
Todos deveriam ler!
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