Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith
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Não Chame Ninguém de Mestre - Joyce Collin-Smith


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espectro desses poucos anos de jornalismo pré-guerra 
formaram o cascalho da estrada que percorri toda a minha vida desde então. As 
Parcas foram gentis comigo. Tive uma base muito boa para alguém que sempre 
ansiou interiormente encontrar um 'caminho'.
Eddie Armstrong, chefe de reportagem do Reading Standard, era membro do 
Grupo de Oxford \u2014 Rearmamento Moral, como esse grupo passou depois a ser 
chamado. Eu caçoava de seu desejo de confessar seus pecados aos quatro ventos, e 
não fiquei particularmente impressionada quando me levou para uma reunião onde o 
fundador, dr. Frank Buchman, iria falar, vindo dos Estados Unidos. Ele fora ministro 
luterano, rosto redondo, olhos redondos, óculos redondos, resplandecia de bonomia e 
tinha uma facilidade com as palavras que não me chamou muito a atenção. De súbito, 
porém, parece que todos os jovens dos círculos que freqüentava estavam sendo 
'mudados' \u2014 a terminologia buchmaniana para a conversão súbita à fé cristã.
No curso de meu trabalho, conheci o escultor Eric Kennington, mais tarde um 
dos artistas oficiais da guerra, conhecido também por sua amizade com T. E. 
Lawrence* e pelas ilustrações de chefes árabes que fez para Seven pillars of wisdon 
(Os sete pilares da sabedoria). Mandaram-me fazer uma entrevista com Eric sobre a 
efígie de T.E. Lawrence que seria instalada com uma cerimônia na igreja de St. Martin 
em Wareham, Dorset, perto do local da morte de Lawrence, e travei amizade com 
esse meigo e discreto artista; costumava ir visitá-lo em seu estúdio na Homer House, 
perto do Reading, enquanto desbastava a pedra e dava os toques finais na efígie. 
Creio que estava com uns quarenta e tanto.
*[Também conhecido como 'Lawrence da Arábia' (N. do T.)]*.
Celendine Kennington era uma mulher formidável. Apesar de aparentemente 
não opor objeções à presença da apalermada jovem que eu ainda era no estúdio do 
marido, costumava nos procurar, levando-me para tomar chá em sua casa. Lá, falava 
interminavelmente do Rearmamento Moral, com o qual também estava profundamente 
envolvida.
\u2014 Sobre o que você e Eric conversam? \u2014 perguntou-me irritada. \u2014 Ele não se 
interessa pelo RM ou qualquer outra coisa, a não ser por seu trabalho. Geralmente, 
detesta ter pessoas por perto enquanto trabalha.
Ela me dava a impressão de ser incapaz de manter qualquer conversa com o 
marido, provavelmente porque tinha tendência a dominar em excesso qualquer pessoa 
à sua volta.
Notei que eu não sabia sobre o que falávamos.
\u2014 Às vezes, sobre T.E., creio. \u2014 Ele estava obcecado por Lawrence. O 
respeito que nutria pela profundidade dos pensamentos de T.E. raiavam o amor 
reverenciai. \u2014 Na verdade, na maior parte do tempo nem chegamos a conversar.
Acostumei-me a visitá-lo porque ele sempre dizia "volte na quarta-feira", ou 
algo assim. Ele não parava de trabalhar. Geralmente, ficávamos em silêncio.
Um dia, porém, ele me levou para conhecer a sala Lawrence em sua casa, 
onde me mostrou os trajes árabes de T. E., a cimitarra curva que tinha recebido de 
presente do emir Faisal e vários de seus bens. Depois, colocou em minhas mãos o 
manuscrito de The mint, o qual esteve embargado por uns 25 anos após sua morte, 
antes de poder ser publicado.
Já havia lido e gostado de Os sete pilares quando meu pai, a pedido do irmão 
de Lawrence, preparou a edição inglesa a partir da limitada versão americana, 
adaptando suas diferenças ortográficas. Havia algo nas aventuras árabes que me 
atraía bastante, além da prosa perfeita com que expressava seus profundos 
pensamentos. No entanto, as distorções de sua mente, quando se alistou no exército 
como recruta Ross e depois na RAF como piloto Shaw, estavam muito além da minha 
mentalidade imatura daquela época. Via a mente atormentada, mas não sua causa. 
Virei as páginas do manuscrito sem entendê-las, coloquei-as de lado e voltei para o 
estúdio. A contínua tensão de Lawrence e a tranqüilidade de Eric Kennington, que o 
adorava, faziam forte contraste. Lembro-me de ter visualizado, por um instante, a 
diferença entre aqueles que lutam com a vida e aqueles que a levam com facilidade, 
fluindo com a corrente de modo profundo, e tenho ponderado sobre isso desde aquela 
época.
Sentava-me no peitoril da janela e observava as mãos do escultor em ação, 
com meus longos e pacíficos pensamentos. É por isto que ia lá, de certo modo: em 
busca desses longos e pacíficos pensamentos. Aqueles monumento já perdeu a cor, 
tornou-se brilhante pelo toque de dedos inquiridores ou reverenciais na pequena igreja 
de Dorset, onde os visitantes a vêem há mais de 50 anos. Na época, estava nova em 
folha.
Às vezes Eric ficava me olhando, e disse certa vez:
\u2014 Você ainda vai posar para mim um dia; farei uma estátua em argila e depois 
vamos fundi-la em bronze.
Mas veio a guerra, e isso nunca aconteceu. Enquanto isso, Celendine, por ser 
mais sofisticada que meus amigos, além de mais determinada, ficava conversando 
comigo e me levava lentamente a freqüentar o Grupo de Oxford. Ela era um dos 
membros mais velhos. Em sua maioria, era jovens que 'partilhavam' suas maluquices 
em contínua confissão pública.
Basicamente, não era mais do que cristianismo evangelista. Exortavam os 
membros do grupo a viver segundo os quatro ideais do comportamento: Honestidade 
Absoluta, Pureza Absoluta, Altruísmo Absoluto e Amor Absoluto. O fato dessa 
perfeição ser inatingível obrigava todos a se confessar continuamente e a 'partilhar' 
seus defeitos. Escolhi não participar disso tudo: era muito constrangedor e, já na 
época, pareceu-me juvenil demais.
O que me atraiu foi o conceito de 'Período de Quietude'. Ele era fundamental 
para as idéias de Buchman. Era um método de prece que devia ser cultivado durante 
uma hora e meia em intervalos ao longo do dia. Esta disciplina, muito mais exigente do 
que qualquer outra coisa que tivesse visto nos meios religiosos, tinha seus atrativos. 
Além disso, estranhas coisas aconteciam quando se começava a prática conhecida no 
RM como 'Escutando Deus'.
Primeiro, a mente devia ser esvaziada de qualquer pensamento. Devíamos ter 
papel e lápis à mão. Na quietude e no vazio, viriam mensagens. Seriam as palavras de 
Deus, devendo ser anotadas imediatamente e, quando apropriado, postas em prática.
Eddie Armstrong estava sempre entrando num 'PQ' em seu canto da redação; 
ironizavam-no ou ignoravam-no, dependendo de quem estivesse por perto. Ele sorria 
benignamente diante de reprovações ou desprezo, era amigável e ajudava todo 
mundo, vivendo uma vida útil e feliz.
Quando eu também peguei esta mania, a equipe achou que já era demais. 
Ninguém mais foi 'mudado'. Em Oxford, porém, os círculos jovens aumentavam cada 
vez mais depressa, animados e ansiosos como os restauradores do século XIX, 
francos como os puritanos, gentis como os quakers, alegres como escoteiros e 
bandeirantes ao fazerem suas boas ações do dia.
As grandes reuniões e confissões com Frank, como Bruchman gostava de ser 
chamado, abraçando sorridente as pessoas, foram o equivalente nos anos 30 ao 
fenômeno Billy Graham, suponho. Frank fazia bons e sinceros sermões proselitistas, 
cheio de americanismos.
\u2014 O que é a prece? \u2014 ele exortava. \u2014 Vou lhes dizer! 'Perfeitos Radiogramas, 
Exato Contato com Ele'. É isto o que acontece quando você ouve Deus.
Todos eram alegres, felizes. Havia acampamentos no verão e conferências no 
inverno. Como ele tinha certeza de que a guerra vindoura só poderia ser evitada se 
um número suficiente de pessoas ouvisse Deus e mudasse, pôs a todos num 
esquema
Jessica
Jessica fez um comentário
Todos deveriam ler!
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