A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
108 pág.

A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral - Vol. 3


DisciplinaLivros16.997 materiais92.319 seguidores
Pré-visualização29 páginas
Memória 
O ESTUDO das leis da memória humana constitui um dos capítulos centrais e mais importantes 
da ciência psicológica. É sabido que cada deslocamento, impressão ou movimento nosso deixa 
certo vestígio e este se mantém durante um tempo bastante longo e em determinadas condições 
reaparece e se torna objeto de consciência. Por isto entendemos por memória o registro, a 
conservação e a reprodução dos vestígios da experiência anterior, registro esse que dá ao 
homem a possibilidade de acumular informação e operar com os vestígios da experiência 
anterior após o desaparecimento dos fenômenos que provocaram tais vestígios. 
Os fenômenos da memória podem pertencer igualmente ao campo das emoções e ao campo das 
percepções, ao reforço dos processos motores e da experiência intelectual. Todo o reforço dos 
conhecimentos e habilidades e a capacidade de aproveitá-los pertencem à área da memória. 
De acordo com isto, impõe-se à Psicologia uma série de problemas complexos, que fazem parte 
da área de estudos dos processos da memória. A Psicologia se propõe estudar 
39 
a maneira pela qual se registram os vestígios, os mecanismos fisiológicos desse registro, as 
condições que contribuem para ele, os seus limites e os procedimentos que permitem ampliar o 
volume do material registrado. 
A Psicologia se propõe responder qual a duração que pode ter a conservação desses vestígios, 
quais os mecanismos de sua conservação em lapsos de tempo breves e longos, quais as 
mudanças que sofrem os vestígios da memória que se encontram em estado latente e qual a 
influência que eles podem exercer na ocorrência dos processos cognitivos do homem. 
Entre as questões do capítulo dedicado à psicologia da memória, situam-se os problemas dos 
mecanismos de reprodução dos vestígios latentes, que em certas condições podem tornar-se 
objeto da atividade consciente. Esse capítulo estuda as condições que levam à reprodução dos 
vestígios da memória, estudando também as principais formas que incluem tanto a reprodução 
não arbitrária dos vestígios quanto . a arbitrária, intencional. 
Por último, esse capítulo inclui a descrição de diversas formas de processos da memória, 
começando pelos tipos mais simples de registro não arbitrário e aparição dos vestígios e 
terminando pelas formas complexas de atividade mnemônica que permite ao homem voltar 
arbitrariamente à experiência passada, adotando uma série de procedimentos sociais, e ampliar 
substancialmente o volume de informação retida e os prazos de sua conservação. 
O capítulo dedicado à psicologia da memória, é de grande importância para a interpretação dos 
mais importantes processos de atividade cognitiva e para a doutrina do desenvolvimento dos 
processos psíquicos na idade infantil e da perturbação dos processos psíquicos nos estados 
patológicos do cérebro. 
História do estudo da memória 
O estudo da memória foi uma das primeiras partes da Psicologia à qual se aplicou o método 
experimental: fizeram-se tentativas de medir os processos estudados e descrever as leis a que 
eles se subordinam. 
40 
Na década de 80 do século passado, o psicólogo alemão H. Ebbinghaus propôs o método através 
do qual, supunha ele, era possível estudar as leis da memória pura, noutros termos, as leis dos 
processos de registro dos indícios independentes da atividade do pensamento. Esses 
procedimentos, que consistiam em decorar sílabas sem sentido, que não geravam quaisquer 
associações, permitiram a Ebbinghaus encontrar as curvas básicas da decoração (ou 
memorização) do material, descrever as suas leis básicas, estudar a atividade da conservação 
dos vestígios na memória e o processo de sua extinção paulatina. 
As pesquisas clássicas de Ebbinghaus foram acompanhadas dos trabalhos do psiquiatra alemão 
Kraepelin, que através desses procedimentos estudou a ocorrência do processo de decoração dos 
doentes com alterações psíquicas; foram acompanhadas também dos trabalhos do psicólogo 
alemão H. E. Müller, que deixou um estudo fundamental dedicado às leis básicas de reforço de 
reprodução dos vestígios' dã memória no homem. 
Nas primeiras etapas, o estudo dos processos da memória limitava-se a examiná-la no homem e 
era antes um estudo da atividade mnéstica consciente (o estudo do processo de decoração 
premeditada e reprodução dos vestígios) que um processo' de ampla análise dos mecanismos 
naturais e registro dos vestígios que se manifestam igualmente no homem e no animal. 
Com o desenvolvimento das pesquisas objetivas do comportamento do animal, especialmente 
com os primeiros passos no sentido do estudo das leis da atividade nervosa superior, ampliou-se 
substancialmente a área de estudos da memória. 
Em fins do século xix e começo do século xx, surgiram as pesquisas do conhecido psicólogo 
americano E. L. Thorndike, o primeiro psicólogo a transformar em objeto de estudo o processo 
de formação das habilidades no animal, aplicando para este fim a análise da maneira pela qual o 
animal aprendia a encontrar saída em um labirinto e como reforçava paulatinamente as 
habilidades obtidas. 
No primeiro decênio do século xx, os estudos desses processos adquiriram uma forma científica 
quando Pavlov propôs o método de estudos dos reflexos condicionados, através do qual 
conseguiu examinar os principais mecanis- 
41 
mos fisiológicos de formação e reforço de novas ligações, Foram descritas as condições sob as 
quais essas ligações surgem e permanecem, bem como as condições que influenciam essa 
permanência. A doutrina da atividade nervosa superior e suas leis básicas tornou-se 
posteriormente a fonte básica dos nossos conhecimentos acerca dos mecanismos fisiológicos da 
memória, enquanto a elaboração e conservação das habilidades e do processo de 
"aprendizagem" (learning) nos animais constituíam o conteúdo básico da ciência americana do 
comportamento, que englobava os célebres pesquisadores J. Watson, B. F. Skinner, D. Hebb e 
outros. 
O estudo clássico das leis básicas da memória no homem e as pesquisas posteriores do processo 
de formação das habilidades dos animais limitaram-se igualmente ao estudo dos processos mais 
elementares de memória. O estudo das formas arbitrárias e conscientes superiores de memória 
que permitiram ao homem aplicar determinados procedimentos de atividade mnemônica e 
voltar-se arbitrariamente para quaisquer lapsos do seu passado foi apenas descrito pelos 
filósofos que os contrapunham às formas naturais de memória (ou de "memória do corpo") e os 
consideravam manifestação da memória consciente superior (ou "memória do espírito"). No 
entanto essas indicações de alguns filósofos idealistas (por exemplo, o filósofo francês H. 
Bergson) não se converteram em objeto de um estudo especial rigoroso e científico e os 
psicólogos falavam do papel desempenhado na memorização pelas associações ou indicavam 
que as leis da memorização das idéias diferem essencialmente das leis elementares da 
memorização. Praticamente não se colocava o problema da origem e muito menos do 
desenvolvimento das formas superiores de memória no homem. 
O mérito do primeiro estudo sistemático das formas superiores de memória na criança cabe a 
Vigotsky, que em fins dos anos vinte tornou pela primeira vez objeto de um estudo especial o 
problema do desenvolvimento das formas superiores de memória e, juntamente com seus alunos 
A. N. Leôntyev e L. V. Zamkov, mostrou que as formas superiores de memória constituem uma 
forma complexa de atividade psíquica social por origem e mediata por estrutura e estudou as 
etapas fundamentais de desenvolvimento da memorização mediata mais complexa. 
42 
As pesquisas das formas mais complexas de atividade rnnésica arbitrária, nas quais os processos da 
memória se ligavam aos processos do pensamento,