A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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de sinal, que se manteve sob a 
forma de vestígios durante um período bastante longo. 
O fato de que o sistema nervoso pode conservar com uma sutileza impressionante os vestígios 
dos estímulos anteriores pode ser ilustrado por toda uma série de observações posteriores, das 
quais citaremos apenas duas. 
É sabido que quanto mais freqüente é o sinal determinado quanto mais o sujeito se acostuma a 
ele e tanto mais rapidamente ele apresenta reação motora diante do sinal (e tanto mais breve é o 
período latente dessa reação). O estudo minucioso mostrou que nas condições mais simples essa 
lei permanece e a rapidez da reação ao sinal é diretamente proporcional à freqüência com que 
ele se apresenta. 
O cérebro registra não apenas o próprio jato da apresentação do sinal mas também a freqüência 
com que este se apresenta, registrando ainda que a "decoração" da freqüência da apresentação 
do sinal e a regulação da rapidez da 
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resposta ao grau de probabilidade do aparecimento do sina! é uma das funções essenciais do 
funcionamento do cérebro. Fatos e pesquisas posteriores mostraram que o sistema nervoso do homem 
pode manter vestígios de sinais isolados com grau muito elevado de precisão e conservá-lo durante muito 
tempo. Pode servir de ilustração disto o teste de laboratório realizado por E. N. Sokolov. 
Apresentou-se uma só vez ao sujeito um sinal sonoro de determinada altura (500Hz) e intensidade (2C 
decibéis). Em resposta a esse sinal o sujeito devia apertar as mãos, devendo responder com movimento 
somente a esse sinal, mantendo as mãos imóveis ante o aparecimento de qualquer sinal distintivo. Em 
seguida foram sugeridos desordenadamente ao sujeito sons diferentes de altura idêntica mas que variavam 
por intensidade (de 5 a 30 decibéis). Foram registrados eletro-encefalograma, eletromiograma e reação 
galvânica da pele. 
O mesmo teste foi repetido nos 2.°, 4.° e 25.° dias. e o padrão mostrado uma vez (som de 500Hz e 
intensidade de 20 decibéis) não foi apresentado nenhuma vez mais. 
Os resultados do teste indicaram que o padrão uma ve: mostrado foi mantido pelo sujeito durante um 
período longe e após longos intervalos (de 2 a 25 dias) o sujeito continuou a apresentar respostas 
eletrofisiológicas e motoras precisas somente aos sinais correspondentes ao padrão dado. omitindo-se 
diante de todos os outros sinais. 
O teste citado mostra que o cérebro humano é capa; de manter vestígios precisos, durante muito tempo, de 
urr estímulo apresentado uma vez, e a precisão desses vestígio? não só não desaparece com o tempo como 
ainda pode aumentar. 
Citamos alguns fatos segundo os quais o sistema nervoso é dotado da capacidade de preservar por muito 
tempe os vestígios de um estímulo apresentado uma vez, de avaliar a freqüência com que este se 
apresentou e conservou-se na memória com grande precisão os padrões de estímulos que foram 
apresentados pelo menos uma vez. 
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Isto torna o cérebro humano o instrumento mais sutil não apenas para captar os estímulos e distingui-los 
entre os outros que lhe chegam mas também para conservar na memória os vestígios das influências 
antes percebidas por ele. 
Processo de "consolidação" dos vestígios 
O fato do registro dos vestígios dos estímulos que atuaram sobre o cérebro do homem nos leva a levantar 
uma importante questão: como ocorre o processo de consolidação desses vestígios? Consolidam-se 
imediatamente ou necessitam de algum tempo para a consolidação? 
Esta questão foi objeto de toda uma série de pesquisas. 
Antes já fora observado que nos casos em que o homem sofre um trauma craniano, desaparecem os 
vestígios dos estímulos que atuaram sobre o homem algum tempo antes do trauma e algum tempo após. A 
pessoa que recebe um trauma maciço do crânio ou desmaia não costuma conservar quaisquer lembranças 
do que antecedeu imediatamente ao trauma e do que ocorreu logo após. Esse fato é amplamente 
conhecido sob a denominação de amnésia ante-rógrada e retrógrada. Indica que um choque forte, 
experimentado pelo sistema nervoso, torna o cérebro incapaz de registrar durante algum tempo os 
vestígios das excitações que lhe chegam. 
O fato da amnésia anterógrada e retrógrada permitiu algumas tentativas no sentido de medir o tempo a 
que se estende a incapacidade provisória do cérebro de registrar vestígios. É conhecida uma observação 
segundo a qual desapareceram da memória de um motociclista acidentado na estrada número 78 todas as 
lembranças que começavam na estrada número 64. Se considerarmos que ele desenvolvia uma velocidade 
de 60 quilômetros por hora, verificaremos que o trauma levou a que a memória do motociclista não 
consolidasse os vestígios das impressões surgidas 10-15 minutos antes do trauma e, conseqüentemente, a 
pessoa necessita de 10-15 minutos para consolidar definitivamente os vestígios da memória e o efeito 
traumático que durante esse período ocòr-:reu sobre o cérebro impede essa consolidação. 
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Os fatos descritos se constituíram num impulso para experimentos especiais, nos quais uma 
pessoa recebeu choque elétrico artificial e fraco, ocasião em que se observou o lapso de tempo 
que desaparecia da memória do sujeito. 
Podem servir de exemplo os testes do psicofisiologisía soviético F. D. Gorbov. 
O sujeito foi colocado diante de uma janelinha através da qual passavam em cadência números 
simples com sinais aritméticos (+ 4, \u2014 1, -f- 5, etc). O sujeito devia realizar operações 
aritméticas correspondentes, acrescentando um dado número ao resultado das operações antes 
obtidas ou subtraindo dele um número correspondente. Era natural que para o cumprimento 
dessa tarefa o sujeito tivesse de manter solidamente na memória os vestígios do resultado 
anteriormente obtido. 
De repente o sujeito recebia um "choque" em forma de uma fulguração brusca. 
O teste mostrou que, nestes casos, o sujeito costumava "esquecer" o resultado que acabara de 
obter e começava a operar não a partir do último número mas do antecedente. Esse experimento 
mostra que até um choque tão insignificante afasta as condições indispensáveis à "consolidação" 
dos sinais. 
As observações aqui expostas sugeriram a hipótese de que, para a consolidação dos números na 
memória, é necessário algum tempo; elas suscitaram várias pesquisas voltadas para a 
verificação dessa hipótese. 
Os experimentos de alguns autores (predominantemente americanos) se basearam no seguinte 
esquema: o animal adquiria uma habilidade e algum tempo após essa aquisição ele recebia um 
choque elétrico. Verificou-se que se o choque era aplicado 10-15 minutos após a aquisição da 
habilidade, esta desaparecia; se o choque era aplicado de 45 minutos a uma hora após a 
aquisição, a habilidade se conservava. Esses experimentos mostraram que deve ser considerado 
de 10-15 minutos o tempo necessário para a consolidação dos vestígios. 
Um experimento posterior mostrou que o choque exerce a mesma influência obliterante nas 
habilidades que come- 
çaram a ser adquiridas pouco tempo antes ou depois do choque: em ambos os casos não havia 
aquisição de habilidade, Conseqüentemente, o choque podia não só impedir a "consolidação" 
dos vestígios mas também criar o estado do cérebro no qual era impossível a aquisição de novas 
habilidades. 
Verificou-se, em seguida, que o mesmo efeito pode ser obtido não através do choque elétrico 
mas da aplicação de alguns agentes farmacológicos, que ora provocavam estado inibitório do 
córtex (por exemplo, barbituratos) ora levavam a um estado elevado de excitação do córtex e 
provocavam câimbras (por exemplo, metrazol). Verificou-se que a aplicação de barbituratos um 
minuto após a formação da habilidade levava ao desaparecimento de seu vestígio, ao passo que 
a aplicação da mesma dose de barbituratos trinta minutos