A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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após não perturbava as habilidades 
que até então já haviam conseguido "consolidar-se". Dados análogos foram obtidos em testes 
com aplicação de metrazol: nestes casos, a aplicação de metrazol dez segundos após a aquisição 
da habilidade levava a uma violenta destruição dos vestígios, a aplicação do metrazol dez 
minutos após levava a uma conservação relativamente fraca dos vestígios e a aplicação vinte 
minutos após mantinha a habilidade conservada. 
No entanto substâncias diversas, que influenciam o estado de excitabilidade do cérebro, 
influenciam a conservação dos vestígios com "profundidade" variada. Algumas delas podem 
obliterar os vestígios que se formaram 3-4 dias antes da aplicação do metrazol, enquanto outras 
surtem efeito apenas nos vestígios que acabam de formar-se. 
Por último, verificou-se que existem substâncias que aceleram o processo de "consolidação" dos 
vestígios e os tornam estáveis. Um desses preparados é a estricnina, cuja injeção acelera 
consideravelmente a consolidação e torna os vestígios mais resistentes às influências 
destruidoras. 
D
»squisas realizadas nos dois últimos decênios mostraram ijue a consolidação de um vestígio 
requer certo tempo que pode ser medido, existindo diversos agentes que atuam com intensidade 
diferente sobre o processo de consolidação dos vestígios. Mas existem diferenças individuais 
nos animais, que consistem em que a consolidação dos vestígios apresenta velocidade variada 
em espécies diferentes. Deste modo, o pesquisador americano Mc Goy mostrou que se um 
choque aplicado a ratos 45 segundos após haverem estes 
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adquirido uma habilidade elimina os vestígios e o clioque aplicado 30 minutos após mantém os vestígios 
intactos, então nos ratos que adquirem lentamente uma habilidade o choque aplicado 45 minutos após a 
aquisição e o choque aplicado 30 minutos após levam igualmente ao desaparecimento dos vestígios. Isto 
significa que se no grupo "rápido" de ratos os vestígios já se consolidaram em 15-20 minutos, no grupo 
"lento" de ratos a consolidação dos vestígios ainda não ocorre nesse espaço de tempo e eles ainda 
permanecem estáveis durante um período bastante longo. 
Todos esses testes mostram que a formação de determinado vestígio ainda não significa que este esteja 
consolidado e para a consolidação é necessário certo tempo, que depende de uma série de fatores 
(inclusive das peculiaridades individuais) e que pode ser medido. O estudo da consolidação dos vestígios 
é uma das importantes conquistas da psicofisiolo-gia. Ele permitiu separar dois estágios do processo de 
formação da memória, que posteriormente passaram a ser designados pelos termos memória breve 
(subentendendo-se por esta o estágio em que os vestígios se formavam mas ainda não se consolidavam) e 
memória longa (subentendendo-se por esta o estágio em que Os vestígios não só se haviam formado mas 
estavam de tal forma consolidados que podiam existir durante muito tempo e resistir ao efeito destruidor 
das ações de fora). A divisão da memória "breve" e "longa", apesar de condicional, colocou a 
psicofisiologia diante de questões futuras, sobretudo diante do problema dos mecanismos fisiológicos dos 
dois tipos de memória. 
Mecanismos fisiológicos da memória "breve" e "longa" 
Quais são os mecanismos fisiológicos que servem de base à memória "breve" e "longa"? 
Nas décadas de 30 e 40 foi feita uma observação que deu fundamento para se lançar a hipótese da 
natureza dos processos nervosos que servem de base à memória "breve". 
Através das pesquisas morfológicas e morfofisiológi-cas dos neurofisiologistas americanos Lorente de Nó 
e Mc Culloch, foi estabelecido que no córíex cerebral existem aparelhos que permitem uma longa 
circulação da excitação pelos 
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circuitos fechados. Serviu de base o fato de que, nos axô-nios de certos neurônios, existem ramificações 
que voltam ao corpo desse mesmo neurônio e contatam imediatamente com ele ou com dendritos isolados 
desse mesmo, neurônio; com isto cria-se a base para uma circulação permanente das ex-citações nos 
limites dos circuitos circulares fechados ou dos círculos reverberatórios da excitação. No entanto, a 
questão não se limita a esse mecanismo tão simples. Há todos os fundamentos para se pensar que no 
sistema nervoso existem aparelhos mais complexos de "redes de neurônios" que realizam círculos 
reverberatórios estáveis de excitação. Esses aparelhos são os complexos funcionais de neurônios, unidos 
«ntre si por neurônios "postiços" ou neurônios com axônios curtos cuja função, ao que parece, consiste 
em transmitir a excitação de um neurônio a outro, assegurando a passagem longa da excitação pelas redes 
mais complexas ou "círculos reverberatórios". 
Alguns estudiosos consideram que os "círculos reverbe-Tatórios" da excitação são a base neurofisiológica 
da memória "breve". Segundo essas hipóteses, é um mecanismo essencial de conservação dos vestígios o 
mecanismo de transmissão sináptica da excitação, o que assegura a passagem da excitação de um 
neurônio para o outro e permite uma conservação longa da excitação que passa pelos "círculos 
reverberatórios". 
De acordo com essa teoria, o choque destrói a passagem da excitação pelos círculos reverberatórios e leva 
ao desaparecimento daqueles vestígios que se conservaram graças a essa passagem da excitação. 
O processo de circulação da excitação pelos "círculos reverberatórios" não é, entretanto, o único 
mecanismo possível de conservação dos vestígios. Os fatos, obtidos por muitos pesquisadores, levaram à 
suposição de que o mecanismo de conservação dos vestígios está relacionado com as profundas 
mudanças bioquímicas que podem ocorrer não apenas nas sinapses (lugares de transmissão da excitação 
de uns neurônios a outros) mas também nos próprios corpos dos neurônios e em seus órgãos particulares 
(núcleos, meta-côndrios). 
Em 1959, o pesquisador sueco H. Hyden mostrou que cada excitação das células nervosas leva a uma 
visível elevação do teor do ácido ribonucléico (RNA), ao passo que a 
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longa ausência de excitação reduz o teor de RNA. AS observações posteriores de Hyden e seus 
colaboradores levaram à hipótese de que as mudanças do RNA têm caráter específico e podem 
ser hipoteticamente consideradas como mecanismo bioquímico de conservação dos vestígios da 
memória. Essa hipótese se baseia no fato de que as mudanças do RNA, provocadas por certas 
ações, podem ser muito específicas e influências diversas podem provocar diferentes 
modificações 
do RNA. 
Lançou-se a hipótese segundo a qual o número de possíveis mudanças das moléculas do RNA, 
sob o efeito de ações diversas, pode ser medido pelo imenso número \u2014 IO11 \u2014 IO20 e, deste 
modo, o RNA pode manter um imenso número de diferentes códigos. Como supunham esses 
pesquisââorõS, a repetição do mesmo estímulo leva a que o ácido ribonu-clêico especificamente 
mudado comece a "repercutir" justamente diante dessa excitação e a capacidade de repercutir 
especificamente diante dessa excitação constitui a base a partir da qual a célula nervosa, que 
conserva o vestígio do efeito recebido, começa a "identificar" este efeito, distin-guindo-o de 
qualquer outro. 
Essa mudança específica do RNA sob a influência de ações diversas foi o que deu aos estudiosos 
fundamento para levantar a hipótese de que ela é a base bioquímica da memória. 
A hipótese da participação do ácido ribonucléico na conservação dos vestígios da memória foi 
confirmada por uma série de observações. Situam-se entre estas as observações do fisiologista 
americano E. F. Morrell que mostrou que o aumento do teor de RNA, provocado pela excitação 
repetida de determinada área do cérebro, manifesta-se tanto neste foco como no ponto a ele 
simétrico de outro hemisfério. Isto significa