A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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à atividade dos neurônios. 
O crescimento do sistema sinapso-dendrítico de uma série de neurônios ocorre também durante 
a vida, sendo estimulado em grande medida pelo exercício e abstendo-se do "emprego" desse ou 
daquele sistema. O exercício faz aumentar consideravelmente o número de sinapses, aumenta o 
número de empolas (vesículas) que conduzem a excitação dos neurônios, e o número daqueles 
apêndices mínimos localizados nos axônios, que hoje são considerados o principal aparelho 
neuroquímico, que assegura a transmissão da excitação nas sinapses. Essas mesmas reações do 
movimento e do crescimento surgem na excitação não só dos apêndices dos neurônios mas 
também na glia. (A. I. Rewtback), e, segundo alguns autores, é justamente esse efeito da 
formação de novas sinapses que constitui o substrato da memória longa. 
Se a memória breve se baseia no movimento que surgiu no círculo reverberatório e a memória 
longa no crescimento do aparelho sinapso-dendrítico da glia, a formação de novas sinapses 
ainda não se pode considerar demonstrável embora muitas das tentativas atuais de encontrar a 
base fisiológica dos eventos da memória sigam nessa direção. 
Sistemas cerebrais que asseguram a memória 
Surge uma pergunta natural: quais são os grandes sà-temas cerebrais que asseguram o registro 
dos vestígios? Participariam dos processos da memória todos os sistemas rebrais, que 
desempenham o mesmo papel na fixação vestígios ou dentre todos os sistemas cerebrais que co 
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mos é possível distinguir alguns que desempenhem papel especial na fixação e conservação dos 
vestígios da memória? 
Já sabemos (ver Vol. I, Cap. IV) que no cérebro podemos distinguir pelo menos três grandes 
blocos, dos quais um assegura o tônus no córtex e a regulação dos estados gerais de 
exciíabilidade, o segundo é o bloco de recebimento, processamento e conservação da 
informação recebida, sendo o terceiro o bloco de formação dos programas e controle do 
comportamento. Essse fato já mostra que não é idêntica a participação de formações isoladas do 
encéfalo nos processos de memória. 
Sabemos ainda que não é idêntica a característica neu-rofisiológica de neurônios isolados que 
fazem parte de diferentes sistemas do cérebro. Se nos sistemas de projeção das zonas corticais 
auditiva, visual cinética da pele a maioria esmagadora das células receptoras é específico-modal 
e reage aos indícios seletivos limitados dos estímulos, há outras áreas (as quais pertencem, por 
exemplo, o hipocampo e o corpo caudal) que são constituídas predominantemente de neurônios 
que não têm caráter específico-modal e reagem apenas à mudança da excitação. É natural que 
esses fatos dêem fundamento para supor que o hipocampo e as formações a ele relacionadas 
(núcleo amendoado, núcleos do tá-íamo ótico, corpos mamilares) desempenham papel especial 
na fixação e conservação dos vestígios da memória e os neurônios que. fazem parte de sua 
composição são um aparelho adaptado para a conservação dos vestígios das excitações, a 
comparação destas com novas excitações, tendo ainda a finalidade de ativar as descargas (se a 
nova excitação difere da velha) ou inibi-las. 
Esses fatos levam a pensar que os referidos sistemas são um aparelho que assegura não apenas o 
reflexo orientado (como. já indicamos anteriormente) mas também um aparelho portador da 
função de fixar e comparar os vestígios que desempenham papel especial nos processos de 
memória. 
Eis porque, como mostraram as observações, a afecção bilateral do hipocampo leva a distúrbios 
graves da memória; os doentes com semelhante afecção começam a apresentar um quadro da 
impossibilidade de fixar as excitações que lhe chegam, conhecido na clínica pela denominação 
de "síndro-me de Korsakov". Esses fatos foram estabelecidos por mui- 
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tos estudiosos (Brenda Miler, Scovilí e Penfield) em operações de grande importância teórica. 
Dados muito importantes foram obtidos em testes especiais pela neurofisiologista canadense 
Brenda Miler. Ela introduziu na artéria do sono do hemisfério direito de um doente com afecção 
unilateral do hipocampo uma substância narcótica (amital e sódio); isto provocou um breve 
desligamento (por alguns minutos) das funções do córtex do segundo hemisfério, resultando daí 
que os dois hipocampos deixaram de funcionar por um breve espaço de tempo. 
O resultado dessa interferência foi o desligamento temporário da memória e a impossibilidade 
de qualquer fixação dos vestígios, que durou alguns minutos e depois desapareceu. 
Vê-se facilmente qual a importância dessas pesquisas para a compreensão do papel do 
hipocampo na fixação e conservação dos vestígios da memória. 
Para a compreensão do papel que o hipocampo e as formações a ele ligadas desempenham nos 
processos de memória, são igualmente importantes as observações clínicas segundo as quais as 
afecções dessas áreas do cérebro, estreitamente relacionadas com a formação reticular, levam 
não apenas a uma redução geral do tônus cortical mas também a uma perturbação considerável 
da capacidade de fixar e conservar os vestígios da experiência corrente. Essas observações 
foram clinicamente observadas em todas as afecções que bloqueiam o movimento normal no 
chamado círculo hipo-campo-tálamo-mamilar (ou círculo de Paypez), que inclui entre seus 
componentes o hipocampo, os núcleos do tálamo ótico, os corpos mamilares e a amígdala. A 
cessação da circulação normal da excitação por esse círculo perturbava o funcionamento normal 
da formação reticular e levava a grosseiros distúrbios da memória. 
Isto tudo não significa que outras áreas do encéfalo, particularmente o córtex cerebral não 
participem dos processos de memória. O importante, entretanto, é que a afecção das zonas 
occipitais ou temporais do córtex pode levar a supressão da capacidade de fixar os vestígios das 
excitações especí-fico-modais (visuais, auditivas) mas nunca leva a uma perturbação geral dos 
vestígios da memória. 
Isto significa que a memória é um processo compl por sua base nervosa e é assegurada pela 
participação de 
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ferentes sistemas cerebrais, que desempenham, todos eles, papel próprio e dão sua contribuição específica 
à realização da atividade mnésica. 
Tipos principais de memória 
A Psicologia admite vários tipos básicos de memória. Vamos examiná-los sucessivamente, dispondo-os 
numa ordem de complexidade crescente. 
Mas nos limitemos à análise das modalidades de memória, que têm importância para os processos 
cognitivos, deixando de lado o exame dos fenômenos da memória emocional e motora. 
Imagens sucessivas 
As imagens sucessivas constituem a forma mais elementar de memória sensorial. Elas se manifestam 
tanto no campo visual quanto no campo auditivo e sensitivo geral e foram bem estudadas pela Psicologia. 
O fenômeno da imagem sucessiva (freqüentemente representada pelo símbolo NB, correspondente ao 
termo alemão "Nachbild" consiste no seguinte: se durante certo tempo, 10-15 segundos, por exemplo, 
apresentarmos ao sujeito um estímulo simples, sugerindo-lhe olhar durante o referido período para um 
quadrado e em seguida retirarmos esse quadrado, o sujeito continua vendo no lugar do quadrado 
vermelho um vestígio de forma idêntica embora habitualmente de cor azul-verde (completando a 
vermelha). Esse vestígio às vezes surge de imediato, às vezes alguns segundos após e permanece durante 
algum período de (10-15 a 45-60 segundos), começando em seguida a empalidecer paulatinamente e a 
perder seus contornos nítidos, como que se desfazendo, para desaparecer em seguida; às vezes ele torna a 
aparecer para depois sumir definitivamente. Em sujeitos diferentes podem variar tanto a clareza como a 
precisão e a duração das imagens sucessivas. 
O fenômeno das imagens sucessivas deve-se ao fato