A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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de que a irritação da retina surte o seu efeito: 
provoca a fadiga 
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da fração da púrpura visual (componente sensível à cor bulbo ocular), que assegura a percepção 
da cor vermelha e por isto no deslocamento da vista para uma folha branca surge um sinal de luz 
azul-verde completando a vermelha. Esse tipo de imagem sucessiva é denominado imagem 
sucessiva negativa. Esta pode ser considerada a forma mais elementar de conservação dos 
vestígios sensoriais ou o tipo mais elementar de memória sensorial. 
Além das imagens sucessivas negativas existem também as imagens sucessivas positivas. Estas 
podem ser observadas se em plena escuridão colocarmos diante dos olhos um objeto qualquer 
(por exemplo, a mão) e em seguida iluminarmos o campo com luz clara (por exemplo, a 
fulguração de luz elétrica) durante o breve espaço/ de 0,5 segundos. Neste caso, depois que a luz 
se apaga, a pessoa ficará algum tempo vendo a imagem clara do objeto situado diante de seus 
olhos, desta vez nas cores naturais; essa imagem perdura por algum tempo e em seguida 
desaparece. 
O fenômeno da imagem sucessiva positiva é o resultado do efeito direto da percepção visual 
breve. O fato de essa imagem não mudar de coloração se deve a que, na escuridão que se inicia, 
o fundo não provoca excitação da retina e a pessoa pode observar o, efeito imediato da 
excitação sensorial provocado num instante. 
As imagens sucessivas refletem antes de tudo os fenômenos da excitação que ocorrem na retina 
do olho. Isto é demonstrado por um teste simples. Se durante certo tempo reproduzirmos um 
quadrado vermelho num fundo cinza e após retirarmos esse quadrado obtivermos a sua imagem 
sucessiva e em seguida afastarmos a tela, veremos que a dimensão da imagem sucessiva 
aumenta paulatinamente e esse aumento é diretamente proporcional ao afastamento da tela ("Lei 
de Emmert"). 
Isto se explica pelo seguinte fato; na medida em que se afasta a tela, o ângulo que o seu reflexo 
começa a ocupar m retina diminui paulatinamente e a imagem sucessiva começE a ocupar um 
espaço cada vez maior nessa área decrescer.2 da imagem da tela que se afasta na retina. O 
fenômeno des- 
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crito serve para demonstrar nitidamente que, no caso dado, realmente observamos o efeito dos 
processos de excitação que ocorre na retina, sendo a imagem sucessiva a forma mais elementar 
de memória sensorial breve. 
Ê característico que a imagem sucessiva constitui o exemplo dos processos mais elementares de 
vestígio, que não podem ser regulados por um esforço consciente: a imagem não pode ser nem 
prolongada ao bel-prazer nem repetida arbitrariamente. É nisto que consiste a diferença entre as 
ima^-gens sucessivas e os tipos mais complexos de imagem da memória. 
As imagens sucessivas podem ser observadas no campo auditivo e no campo das sensações da 
pele, embora ali tenham expressão mais fraca e sejam menos duradouras. 
Apesar de serem as imagens sucessivas um reflexo dos processos que ocorrem na retina, a sua 
nitidez e sucessividade dependem essencialmente do estado do córtex visual. Deste modo, 
quando há tumores na região occipital do cérebro, as imagens sucessivas se manifestam em 
forma debilitada e se mantêm por tempo mais breve, chegando, às vezes, a não ser provocadas 
(N. N. Zislina). Ao contrário, quando se introduzem algumas substâncias estimulantes, as 
imagens podem tornar-se mais nítidas e duradouras. 
Imagens diretas eidêticas 
Devemos distinguir das imagens sucessivas os fenômenos das imagens diretas ou eidêticas (do 
grego eidos \u2014 imagem). O fenômeno das imagens diretas (em Psicologia elas são representadas 
pelo símbolo AB \u2014 do alemão Anschauungsbild) foi descrito em seu tempo pelos psicólogos 
alemães, os irmãos Jensh e consiste no seguinte: em algumas pessoas (sobretudo na infância e 
na juventude) podemos observar imagens claras e precisas de um objeto mostrado ou quadros 
inteiros que se mantêm durante muito tempo após o desaparecimento dos objetos e quadros 
apresentados. 
Esse fenômeno foi observado em experimentos. Durante 3-4 minutos apresentou-se ao sujeito 
um quadro de cena de 
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rua. Depois que o quadro foi retirado, fizeram-se perguntas acerca de seus detalhes. Se os 
sujeitos comuns não conseguiam responder a quase nenhuma das perguntas formuladas, os 
sujeitos que possuíam nítidas imagens eidéticas continuavam como que vendo o quadro e 
respondiam facilmente a perguntas como "quantas árvores havia na rua?", "quantos animais 
havia no quadro?", "como está o anúncio na parede?". Eles respondiam a todas as perguntas, 
como que continuando a "observar" o quadro retirado e, via de regra, não cometiam nenhum 
erro na descrição. 
A imagem eidética nítida se distinguia por muitas particularidades radicais da imagem 
sucessiva. Podia manter-se por muito tempo se fosse necessário; se desaparecia posteriormente, 
o sujeito podia reativá-la facilmente e por isto os testes de "conferimento" dos detalhes da 
imagem eidética podiam durar várias semanas, meses e até anos após o primeiro teste. 
Nas publicações soviéticas de Psicologia, o fenômeno das imagens eidéticas foi descrito por A. 
R. Luria que durante muitos anos observou impaciente com essa memória visual direta nítida. 
Ao contrário da imagem sucessiva, as imagens eidéticas são de natureza mais complexa e não 
são de maneira nenhuma vestígios ds excitações provocadas na retina do olho, Isto pode ser 
demonstrado por um teste simples. Se mostrarmos a um sujeito dotado de memória eidética uma 
figura ou uma imagem complexa na tela e em seguida afastarmos a tela, a imagem que ficar da 
figura não começará a aumentar na medida em que a tela se afastar, na proporção que se verifica 
na imagem sucessiva, porém manterá uma permanência bem maior. Esse desvio da "Lei de 
Emmert" e a grande constância da imagem eidética distinguem-na da imagem sucessiva e 
colocam-na num ponto intermediário entre a imagem sucessiva (que cresce acentuadamente na 
medida em que se afasta a tela) e a imagem da representação (que conserva a sua constância 
plena e não aumenta com o deslocamento da tela). Tudo isto mostra que as imagens eidéticas 
possuem mecanismos centrais e, conseqüentemente, constituem um tipo mais complexo de 
memória sensorial. 
A diferença entre as imagens eidéticas e as imagens sucessivas consiste em que aquelas 
permanecem sem quaisquer mudanças de nitidez, não apresentam nenhuma ocorrência <k 
dispersão e flutuação, podem ser provocadas arbitrariamen» 
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a qualquer momento, inclusive num lapso de tempo muito grande após terem sido fixadas. 
Por último, as imagens eidéticas apresentam como diferença essencial a mobilidade e a 
capacidade de mudar sob o efeito das tarefas e concepções do sujeito. 
O experimento simples, realizado pelos irmãos Jensh, mostra que o sujeito dotado de memória 
eidética recebia um quadro representando uma maçã e a alguma distância, um gancho. Depois 
que se retira a imagem e o sujeito continua &quot;vendo&quot; a imagem eidética, propõe-se que ele 
imagine que está com vontade de ganhar uma maçã. Imediatamente após essa instrução, o 
sujeito observa que o gancho, antes situado à distância da maçã, se aproxima dela atraindo a 
maçã em sua direção. Conseqüentemente, a imagem eidética resulta móvel e muda sob o efeito 
da orientação do sujeito. 
Como mostram as pesquisas, as imagens eidéticas são mais freqüentes na infância e na 
adolescência e desaparecem paulatinamente, conservando~se apenas em algumas pessoas. Há 
fundamentos para se pensar que alguns pintores famosos eram dotados de imagens eidéticas 
claras. Assim, são conhecidos pintores para os quais era bastante observar um modelo durante 
alguns minutos, após o que podiam continuar compondo o quadro na ausência do modelo, 
conservando a imagem com todos