A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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Há fundamentos para pensar que existem substâncias que reforçam as imagens eidéticas (entre 
estas, os irmãos Jensh situavam as substâncias que contêm íons de potássio), bem como 
substâncias que as enfraquecem (entre estas, eles situavam as substâncias que contêm íons de 
cálcio). Por isto alguns agentes farmacológicos especiais (a mescalina, por exemplo) podem 
reforçar acentuadamente as imagens eidéticas provocando nítidas alucinações visuais. 
Imagens da representação 
Verifica-se uma estrutura visualmente mais complexa no terceiro tipo, mais importante, de 
memória visual: a imagem da representação (esta é às vezes representada na Psicologia 
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pelo símbolo VP, do alemão Vorstellungsbild). As imagens de representação são de todos conhecidas. 
Dizemos que vemos a imagem de uma árvore, de um limão, de um cão. Isto significa que a nossa 
experiência anterior deixou em nós vestígios dessas imagens, razão por que a existência das 
representações é considerada a forma mais importante de memória. 
Pode parecer à primeira vista que as imagens das representações se assemelham às imagens diretas, 
distinguindo-se destas apenas por serem menos nítidas, mais pobres e esba-tidas e menos definidas. No 
entanto essa característica das representações como imagens mais pobres de conteúdo é profundamente 
errônea, pois uma análise psicológica atenta mostra que as imagens das representações não são mais 
pobres porém imensamente mais ricas do que as imagens diretas. 
O primeiro traço que distingue as imagens das representações das imagens diretas consiste em que as 
primeiras são sempre polimodais, noutros termos, sempre incluem entre seus componentes elementos dos 
vestígios tanto visuais quanto táteis, auditivos e motores; elas não são vestígios de um tipo de percepção 
mas vestígios de uma complexa atividade prática com objetos. 
Exteriormente a imagem das representações pode parecer visualmente mais pobre e é antes um esquema, 
uma configuração geral de um dado objeto que sua imagem visual direta. No entanto ela compreende 
diferentes aspectos das representações do objeto: a imagem das representações do limão inclui tanto a 
forma exterior do objeto (forma e cor) como o seu sabor, a casca rugosa, o peso, etc. A imagem de uma 
mesa compreende não só o aspecto pobre e esquemáti-co da mesa mas também o seu emprego, os 
vestígios de que o homem a usou para comer, trabalhar, sentar-se a ela, etc. Por si só essa múltipla 
composição da imagem da representação, que compreende uma prática multivariada com o objeto, já dá 
uma noção bem mais rica do objeto do que o seu simples aspecto exterior. 
A segunda peculiaridade da imagem da representação consiste em que ela sempre engloba uma 
elaboração intelectual da impressão do objeto, a discriminação dos traços mais substanciosos deste e sua 
inclusão em determinada categoria. Nós não apenas reproduzimos a imagem de uma árvore mas a 
nomeamos com uma palavra determinada, discriminamos nela os indícios essenciais e a incluímos numa 
determinada 
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categoria. Ao provocarmos a imagem da árvore, não costumamos provocar a imagem de uma 
árvore determinada (uma mangueira ou uma jaqueira) mas operamos com uma imagem 
generalizada da árvore que pode compreender tanto a imagem direta da mangueira ou da 
jaqueira como a imagem direta de um pinheiro ou de uma casa. O simples fato de a imagem da 
representação parecer, à primeira vista, apenas es-batida e mais pobre do que a imagem visual 
direta, constitui de fato o indício de sua generalidade, da riqueza potencial das ligações que ela 
oculta, o indício de que ela pode ser inserida em quaisquer relações. Essa aparente pobreza da 
imagem da representação sugere simultaneamente que um traço qualquer (ou conjunto de 
traços) se destaca nela como mais substancioso enquanto outros traços são ignorados como 
menos importantes. 
Por conseguinte, a imagem da representação é, em suma, não uma marca passiva da nossa 
percepção visual mas o resultado de sua análise e síntese, da abstração e generalização, noutros 
termos, é o resultado de uma codificação percebida como certo sistema. 
Por conseguinte, na imagem da representação a nossa memória não conserva passivamente a 
marca do percebido mas faz com este um trabalho profundo, reunindo toda uma série de 
impressões, analisando o conteúdo do objeto, generalizando essas impressões e unificando a 
própria experiência direta com os conhecimentos do objeto. 
Conseqüentemente, a imagem da representação é o produto de uma atividade imensamente mais 
complexa e uma formação psicológica incomparavelmente mais complexa do que a imagem 
sucessiva ou direta. 
Essa complexidade da imagem da representação se observa nitidamente tanto na identificação 
do objeto quanto na conservação da imagem. 
A identificação do objeto nunca é um processo de simples superposição do objeto percebido à 
imagem de sua representação conservada na memória. Essa identificação ocorre, via de regra, 
mediante a discriminação dos traços essenciais do objeto, da comparação dos traços complexos 
e distintos do objeto esperado e percebido em termos reais dos quais resulta a "tomada de 
decisão" para definir se o objeto visível é aquele que esperávamos ou não. O fato de ter o 
homem uma "imagem" do seu conhecido não significa, abso- 
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íutamente, que ele disponha de uma plena marca visual desse conhecido que ele "identifica" por meio da 
simples identificação da imagem perceptível com aquela que ele tem na memória. Isto significa que o 
homem dispõe de um complexo generalizado de traços que mantém como essenciais para o seu 
conhecido: alta estatura, meio calvo, de óculos, postura ereta, etc. Ao encontrar uma pessoa parecida com 
seu conhecido, ele compara traços particulares e se estes não coincidem por algum motivo ("meio calvo, 
de óculos mas de rosto redondo..." etc), ele "decide" que a pessoa não é aquela, ele "não a reconhece"; 
somente a coincidência de todos os traços principais dá a certeza de que ele está diante da pessoa 
esperada e o leva a "decidir" e essa decisão representa a manifestação da "identificação" do seu 
conhecido. 
Isto dá fundamentos para considerar a imagem da representação não uma simples cópia de uma 
impressão única na memória mas um produto reduzido da complexa atividade com o objeto, que 
compreende elementos tanto da experiência direta quanto dos conhecimentos desta. Ò processo 
igualmente complexo é a conservação da imagem da representação na memória, 
Como mostraram várias pesquisas (principalmente as do psicólogo soviético M. Solovyêv), a imagem da 
representação às vezes não se conserva na memória em forma imutável; ela sempre sofre mudanças 
dinâmicas que podem ser facilmente descobertas se, dando ao sujeito a possibilidade de conhecer o objeto 
depois de algum tempo (um dia, uma semana, um ou vários meses) não apenas perguntar se ele tem 
alguma noção de dado objeto mas também sugerir-lhe desenhá-lo, A experiência mostra de modo 
convincente que a conservação dessa imagem na memória está praticamente relacionada com a 
modificação da imagem da representação desse objeto, com a discriminação e a ênfase dos seus traços 
mais substanciosos, com o desaparecimento das suas peculiaridades individuais, noutros termos, com uma 
profunda transformação da imagem mantida na memória. 
Tudo isto mostra que a imagem da representação é um complexíssimo fenômeno psicológico e a 
"memória icônica** do homem não pode ser jamais considerada um fenômeno elementar. 
As imagens das representações são tipos bem mais complexos de vestígios da memória e é justamente a 
sua seme- 
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ihança com os processos intelectuais que faz delas um dos mais importantes componentes da 
atividade cognitiva do homem. 
Memória verbal 
A memória