A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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fatores 
externos que lhe determinam o volume. 
Já dissemos que a percepção dos estímulos que chegam do meio exterior ao homem depende da 
sua organização estrutural. É fácil ver que não podemos perceber com êxito um 
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grande número de' estímulos desordenadamente dispersos embora possamos fazê-lo facilmente 
se eles estiverem organizados em determinadas estruturas. 
A organização estrutural do campo perceptivo é um dos meios mais poderosos de direção da 
nossa percepção e um dos mais importantes fatores de sua ampliação, enquanto a organização 
racional psicologicamente fundamentada do campo perceptivo é uma das tarefas mais 
importantes da engenharia psicológica. Não é difícil perceber a grande importância que adquire 
a garantia de formas mais racionais de organização do fluxo de informação que chega ao 
aviador que pilota aviões rápidos ou super-rápidos. 
Todos os referidos fatores, que determinam o sentido e o volume da atenção, situam-se entre as 
peculiaridades dos estímulos externos que atuam sobre o homem, noutros termos, situam-se na 
estrutura da informação que chega do meia exterior. 
Percebe-se sem dificuldade o quanto é importante levar em conta esses fatores para aprender a 
dirigir a atenção do homem em base científica. 
Entre o segundo grupo de fatores determinantes do sentido da atenção, situam-se aqueles que 
estão relacionados não tanto com o meio exterior quanto com o próprio sujeito e com a 
estrutura de sua atividade. A esse grupo de fatores pertence principalmente a influência 
exercida pelas necessidades, os interesses e os objetivos do sujeito sobre a sua percepção e o 
processo de sua atividade. 
Quando analisamos os problemas da evolução biológica do comportamento dos animais, vimos 
o papel decisivo da importância biológica dos sinais no comportamento dos animais. Indicamos 
que o pato percebe os cheiros vegetais enquanto o esmerilhão percebe os cheiros de podre, 
essencialmente vitais para eles; indicamos que a abelha reage a formas complexas que 
constituem indícios de flores, desprezando as formas geométricas simples sem importância 
biológica para ela; o gato que reage vivamente ao ruído do rato, não dá atenção aos sons do 
folheamento de um livro ou ao farfalhar de um jornal. É fato bastante conhecido que a atenção 
dos animais é provocada por sinais de importância vital. 
Tudo isso se refere igualmente ao homem, com a única diferença de que as necessidades e 
interesses que o caracterizam não têm, em sua grande maioria, caráter de instintos e 
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inclinações biológicos mas caráter de fatores motivacionais complexos que se formaram no 
processo da história social. Por exemplo, o homem que se interessa pelo esporte distingue entre 
toda a informação que lhe chega aquela que se refere a uma partida de futebol, ao passo que o 
homem que se interessa pelas novidades da eletrônica procura livros que se referem justamente 
a esse objeto. 
É fácil nos convencermos de que o interesse forte do homem, que torna alguns sinais 
dominantes, inibe simultaneamente os sinais secundários que não pertencem ao seu campo de 
interesses. São bem conhecidos fatos segundo os quais cientistas absortos na solução de um 
problema complexo deixam de perceber todas as excitações secundárias; tais fatos indicam o 
que acaba de ser dito. 
A organização estrutural da atividade humana é de importância essencial para a compreensão 
dos fatores que dirigem a atenção do homem. 
É sabido que a atividade do homem é condicionada por necessidades ou motivos e sempre visa a 
um objetivo determinado. Se em alguns casos o motivo pode permanecer inconsciente, o 
objetivo e o objeto da atividade são sempre conscientizados. Sabe-se, por último, que é 
justamente esta circunstância que distingue o objetivo da ação dos meios e operações pelos 
quais ele é atingido. Enquanto as operações isoladas não se automatizam, a execução de cada 
uma delas constitui o objetivo de certa parte da atividade e atrai para si a atenção. Basta lembrar 
como fica tensa a atenção de um atirador inexperiente ao puxar o gatilho ou a atenção de um 
datilografo iniciante a cada batida do teclado. Quando a atividade se automatiza, certas 
operações que a compõem deixam de atrair a atenção e passam a desenvolver-se sem 
conscientização, ao passo que o objetivo fundamental continua a ser conscientizado. Para ver 
isto, basta analisar atentamente o desempenho no tiro de um atirador bem preparado ou o 
processo de datilografia de uma datilografa experiente. 
Tudo isso mostra que o sentido da atenção é determinado pela estrutura psicológica da 
atividade e depende essencialmente do grau de sua automatização. A tarefa geral, que orienta a 
atividade do homem, distingue como objeto da atenção o sistema de sinais ou relações que 
fazem parte da atividade provocada do homem, suscitada por tal tarefa. O objetivo concreto a 
que o homem que resolve a tarefa visa 
S 
converte em centro da atenção os sinais ou ações relativos a ela. O processo de automatização 
da atividade leva a que certas ações, que chamavam a atenção, se convertam em operações 
automáticas e a atenção do homem comece a deslocar-se para os objetivos finais, deixando de 
ser atraída por operações costumeiras bem consolidadas. É quase fundamental o fato de que a 
orientação da atenção se encontra em dependência direta do êxito ou do insucesso da atividade. 
O feliz coroamento da atividade elimina imediatamente a tensão que o homem manteve durante 
todo o tempo em que tentou resolver a tarefa. Por exemplo, a pessoa que acaba de enviar uma 
carta esquece no mesmo instante a intenção cumprida e esta deixa de intranqüilizá-la. Ao 
contrário, uma atividade não concluída ou um problema resolvido sem êxito continua 
provocando tensão e atraindo atenção, mantendo-a enquanto o problema não é resolvido. 
A atenção integra como mecanismo de controle o aparelho da "ação aceptora": ela assegura os 
sinais indicadores de que o problema ainda não foi resolvido, a ação ainda não terminou e são 
justamente esses sinais inversos que motivam o sujeito a continuar trabalhando ativamente. 
Deste modo, a atenção do homem é determinada pela estrutura de sua atividade, reflete o seu 
processo e lhe serve de mecanismo de controle. 
Tudo isto torna a atenção um dos aspectos mais importantes da atividade consciente do homem. 
Bases fisiológicas da atenção 
Durante muito tempo a Psicologia e a fisiologia tentaram descrever os mecanismos que 
determinam a ocorrência seletiva dos processos de excitação e servem de base à atenção. 
Durante muito tempo, porém, essas tentativas se limitaram a indicar esse ou aquele fator, sendo 
antes descritivas do que autenticamente discriminatórias dos mecanismos fisiológicos da 
atenção. 
Alguns psicólogos consideravam que o sentido e o volume da atenção são determinados 
inteiramente pelas leis da percepção estrutural, razão pela qual achavam supérfluo reservar ao 
estudo da atenção um capítulo especial da Psicolo- 
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gia e pensavam que o conhecimento de leis como as leis da "precisão" e da "estruturalidade" da 
percepção eram suficientes para um julgamento definitivo do processo de atenção. Essa posição 
era ocupada pela psicologia da Gestalt e um gestaltista dedicou ao tema um artigo especial, 
tentando demonstrar a tese de que não existe a atenção enquanto categoria especial dos 
processos psíquicos separados da percepção. 
O segundo grupo de psicólogos mantinha as posições da teoria "emocional" da atenção. 
Achavam estes que o sentido da atenção era determinado inteiramente pelas inclinações, pelas 
necessidades de emoções, esgotando-se com as leis destas, e que a atenção não devia ser 
destacada numa categoria especial de processos psíquicos. 
Muitos behavioristas americanos ocupam praticamente