A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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com a idade, o 
que está possivelmente relacionado" com o processo de domínio da escrita. É característico que 
a diferença da memória visual e auditiva, que nas pessoas normais pode se manifestar apenas 
em formas não acentuadas, nas atecçõés cerebrais podem manifestar-se em formas 
especialmente nítidas. 
Os experimentos de Ebbinghaus permitiram estabelecer 
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importantes leis no processo de aprendizagem decorativa do material. 
Com a apresentação repetida da mesma série de 12-15 elementos, o número de elementos 
retidos aumenta paulatinamente e com isto torna-se possível deduzir uma curva do número 
crescente de componentes retidos ou a curva da aprendizagem decorativa. Foi característico o 
fato de que a curva da aprendizagem decorativa teve carátei regularmente crescente nos suieitos 
normais, retendo-se ou crescendo inicialmente para depois começar .a cair nas pessoas em 
estado de forte estafa. Nas pessoas com falhas de memória (na velhice, por exemplo) ela subia 
com muita lentidão e parava praticamente a sua ascensão. Era natural que a curva da estagnação 
mudasse essencialmente dependendo da extensão da série a ser decorada e se com a 
apresentação de uma série de. 10 palavras ela chegava muito rapidamente ao limite (após 3-4 
repetições muitos sujeitos começavam a reter 10 palavras), com a apresentação de 20 ou 30 
palavras a aprendizagem decorativa tinha duração bem maior que, via de regra, chegava a uma 
reprodução completa inclusive depois de muitas repetições. 
Dados essenciais foram obtidos na verificação da duração da retenção do material decorado e da 
maneira como ocorre o seu. esquecimento paulatino após diferentes intervalos de tempo. 
Para este fim Ebbinghaus propôs aos sujeitos decorar uma determinada série de elementos e 
verificou em seguida o número desses elementos que os sujeitos retinham após certo intervalo. 
Esses experimentos permitiram mostrar que o material decorado é retido inteiramente apenas 
durante um tempo relativamente curto, após o que começa a ser esquecido e a curva que reflete 
o número de elementos retidos desce bruscamente. Posteriormente diminui esse ritmo de 
esquecimento de vestígios e alguns dias após pequeno número de elementos retidos continua 
praticamente o mesmo. 
É característico que a curva do esquecimento depende da estabilidade da aprendizagem 
decorativa (número da repetição sem erros da série nessa aprendizagem),, diminuindo 
bruscamente o ritmo do processo de esquecimento da série solidamente decorada, dependendo 
também do nível de organização da série em sistemas assimilados (o esquecimento da série de 
sílabas 
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sem sentido é bem mais rápido do que o esquecimento i. série de palavras organizadas em certas 
estruturas semânticas 
Cabe lembrar, por último, que a conservação do mater. decorado depende altamente daquilo que 
preencheu o tempo :: sujeito no intervalo entre a aprendizagem decorativa e a rec::-dação. Se 
esse intervalo foi preenchido pela vigília e por trabalho intelectual, o esquecimento do material 
decorado se processava bem mais rapidamente, processando-se bem mais lentamente se o 
intervalo era preenchido pelo sono. 
Os dados mais importantes, que nos aproximam da compreensão dos mecanismos íntimos da 
memória, foram obtidos nc \u25a0estudo da dependência entre os resultados da memorização e c 
volume da série apresentada, bem como na análise atenta di dependência da retenção do 
esquecimento dos elementos da série proposta em relação ao lugar que eles ocupam nesta série 
As pesquisas mostraram que se a série de 5-6 elementos í inteiramente recordada após a 
primeira apresentação, o ac-mento da série proposta não leva ao aumento mas à redução d: 
número de elementos retidos. Assim, na apresentação de 4-5 números, o sujeito os retinha 
plenamente; na apresentação de 7-8 números ele retinha apenas 70%; na apresentação de 9-'.' 
números, 40%; na apresentação de 10 números, apenas 23'
:
\ a apresentação de uma série de 11-
13 números levou a que : número dos elementos retidos caísse para 2-3%. 
Resultados análogos foram obtidos em outra expressão verificou-se que se uma série de 6-7 
elementos (palavras) en retida já depois de uma apresentação, a plena retenção da sé
-
; de 12 
elementos já requeria 16 repetições, a aprendizaee
-
decorativa da série de 16 elementos. 30 
repetições, da série è 24 elementos, 44 repetições e da série de 26 elementos. *?: repetições. 
Dados análoeos foram obtidos na aprendizagem decorativa de séries de diferentes números de 
sílabas. 
Os dados obtidos mostram de maneira convincente que c aumento do número inicial de 
elementos memorizáveis não ; indiferente para a sua memorização, que o número dos t\t-mentos 
retidos não aumenta na dependência linear face à gri
-
-deza da série inicial e que, ao contrário, o 
aumento do vc'.--me da série inicial leva à retenção, à inibição do processo --' memorização. 
Dados especialmente importantes foram obtidos com u-s análise atenta da dependência que se 
verifica na retenção ;:? elementos dependendo do lugar que ocupam numa série. 
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Como mostraram as pesquisas, os elementos da série proposta são retidos de maneira bem 
diversificada. Via de regra, os primeiros e os últimos elementos da série são retidos de modo 
bem mais freqüente que os elementos intermediários da série. Esse fato, que em Psicologia 
recebeu o nome de fato da extremidade, é de grande importância de princípio. Ele mostra que a 
retenção e a reprodução dos elementos deco-iráveis ocorrem sob a influência inibitória que elos 
isolados exercem uns sobre os outros. Os primeiros elementos sofrem, influência inibitória 
apenas nos sucessivos, enquanto os elementos finais da série sofrem influência inibitória apenas 
nos elos antecedentes; diferentemente disto, os elementos intermediários da série sofrem 
influência inibitória tanto dos elos antecedentes quanto dos posteriores, razão pela qual sua 
reprodução é bem pior. 
A influência inibitória dos elos antecedentes da série deco» rável sobre os posteriores é chamada 
de Psicologia de inibição pró-ativa; a influência inibitória dos elementos posteriores sobre os 
anteriores é chamada de inibição retroativa. Depois do que acaba de ser dito, na influência 
inibitória do choque sobre os vestígios posteriores e anteriores, o mecanismo da influência dos 
dois vestígios de inibição sobre a consolidação dos dois vestígios se torna bastante nítida. 
Os fatos expostos são de grande importância para a psicologia da memória, pois propiciam uma 
resposta plena à pergunta: quais são os mecanismos que servem de base ao esquecimento? 
Durante muitos anos existiram na Psicologia duas teorias que explicavam as causas do 
esquecimento. Uma delas era chamada de teoria da extinção permanente dos vestígios (trace 
decay), a outra, de teoria da inibição interferente dos vestígios. 
De acordo com a primeira teoria, os vestígios deixados no sistema nervoso por essas ou aquelas 
influências se extinguem paulatinamente, obliterando-se as respectivas influências (ou 
emoções). Por isto o esquecimento é um processo que ocorre naturalmente, um processo 
passivo. A segunda teoria aborda a solução do problema das causas do esquecimento. Ela parte 
da tese de que os vestígios deixados por essas ou aquelas excitações, permanecem no cérebro 
por tempo bem mais longo, às vezes por muitos anos (fato confirmado por testes de hipnose, nos 
quais é possível provocar lembranças antigas, às vezes da infância, que pareciam ter 
desaparecido há mui- 
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to tempo); o esquecimento de impressões ou vivências é explicado por essa teoria como 
resultado da influência de efeitos secundários "interferentes", que inibem o aparecimento desses 
vestígios. Essas influências inibitórias podem apresentar duplo caráter: partem