A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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de efeitos 
imediatamente anteriores ao momento do registro dos vestígios (efeitos da inibição pró-ativa) 
tanto de efeitos dos vestígios imediatamente posteriores ao momento do registro (inibição 
retroativa). 
É fácil perceber que essa segunda teoria considera o esquecimento um processo ativo e acha que 
este não está "localizado" no registro mas na reprodução dos vestígios da experiência passada. 
Essa suposição é confirmada por dois grupos de fatores. 
O primeiro deles é o fato da influência inibitória do trabalho da obstrução sobre a reprodução 
dos vestígios. Pesquisas especiais, nas quais o intervalo entre a aprendizagem decorativa e a 
reprodução foi preenchido pela memorização das séries de fora, confirmam a tese da influência 
inibitória dos efeitos interferentes. 
A tese segundo a qual o esquecimento se baseia não tanto na debilidade de uma extinção natural 
dos vestígios quanto na influência inibitória dos agentes interferentes, é confirmada também 
pelo último fato que recebeu em Psicologia a denominação de reminiscência. 
Esse fato consiste em que a reprodução dos vestígios, que é inacessível imediatamente após a 
aprendizagem decorativa de uma série, torna-se acessível após certa pausa durante a qual o 
cérebro consegue repousar. Por isto, por mais paradoxal que pareça, o volume do material 
reproduzido após certo intervalo pode ser maior do que o volume do material da reprodução 
imediata. 
O esquecimento se deve não tanto ao resultado da extinção dos vestígios quanto ao resultado da 
inibição destes por influências interferentes encadeadas; a obliteração desses fatores inibitórios 
(repouso do córtex) leva a que os vestígios provisoriamente inibidos comecem a manifestar-se. 
Influência da organização semântica sobre a memorização 
Até agora examinamos as leis básicas da memorização e da reprodução das séries constituídas 
de elos isolados. 
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São inteiramente distintas as leis que caracterizam a recordação e a reprodução da informação, organizada 
em estruturas semânticas integrais. 
O fato principal consiste em que, como ocorre no campo da percepção, a organização dos elementos em 
estruturas semânticas (lógicas) integrais amplia substancialmente as possibilidades da memória e torna 
incomparavelmente mais estáveis os vestígios da memória. 
Essa tese pode ser ilustrada por um exemplo. Suponhamos que temos de recordar uma série de 18 
números isolados: de zeros e unidades. 
(a) 101000100111001110 
É natural que a memorização de uma série de elementos homogêneos que se alternam casualmente 
representa grandes dificuldades e requer um grande número de repetições. 
Agora unifiquemos esses números a princípio em pares e depois em triplos. 
(b) 10 10 00 10 01 11 00 11 10 
(c) 101 000 100 111 001 110 
Ao invés de 18 unidades para memorização, na série (b) temos 9 e na série (c) apenas 6. Naturalmente a 
memorização será mais fácil e a aprendizagem decorativa requererá bem menos tempo. 
Unifiquemos todo esse material em grupos ainda maiores, constituídos de 4 números e posteriormente de 
5. 
(d) 1010 0010 0111 0011 10 
(e) 10100 01001 11001 110 
Como resultado de toda essa transformação, todo o material passa a incluir, ao invés de 18 números 
isolados, apenas 5 grupos (d) ou 4 grupos (e). É natural que esse reforço facilitará posteriormente a 
memorização, tornando-se necessárias apenas duas ou três repetições para a aprendizagem decorativa 
dessa série. 
Simplificação análoga da tarefa mnésica e ampliação do volume da memória podem ser obtidas através da 
organização de uma série de palavras isoladas num sistema semântico. É pouco provável que alguém 
consiga memorizar de uma só vez 10 palavras isoladas, mantendo a necessária ordem de sua reprodução: 
noite-bos- 
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que-casa-janela-gato-mesa-bolo-som-agulha-fogo. No entanto basta organizar esta série de 
palavras num sistema semântico para que a tarefa se torne facilmente realizada. 
À noite, num bosque numa casa pela janela entrou um gato, pulou sobre a mesa, comeu um bolo 
mas quebrou o prato, ouviu-se um som; ele sentiu que um fragmento do prato lhe espetou a pata 
como uma agulha e sentiu na pata algo queimando como fogo. 
Neste caso, a recordação deixa de ter caráter de registro mecânico imediato de elementos 
isolados; ao trabalho de memorização antecede o trabalho de transformação lógica ou 
codificação da série. No entanto esse trabalho é compensado pelo fato de que a série de 10 
elementos (que agora se transforma numa estrutura semântica) é memorizada de uma só vez e, o 
que é igualmente importante, pode reproduzir-se facilmente um dia ou uma semana após sem 
que se perca sequer um elo e sem qualquer deslocamento dos elementos incluídos nesse grupo 
semântico. 
Vê-se facilmente que nos dois exemplos citados descrevemos modelos do processo de 
codificação lógica do material memorizável, que caracteriza toda a memorização de sentidos e é 
a forma principal de atividade mnéstica do adulto, que assimila o conteúdo de um manual e 
procura interpretar o material didático, etc. 
Ao mesmo tempo, vê-se facilmente que esse processo de memorização semântica é, pela 
estrutura psicológica, inteiramente diferente do processo de memorização mecânica, pois 
compreende diversas operações lógicas auxiliares e, em essência, se assemelha ao processo de 
pensamento lógico com a única diferença de que os procedimentos deste pensamento visam não 
apenas assimilar as conexões essenciais e as cor-relaçõees dos elementos mas também tornar 
esses elementos acessíveis à conservação na memória. 
À medida que se desenvolve ou se estabiliza, o processo de memorização lógica sofre uma série 
de mudanças substanciais facilmente observáveis caso examinemos as etapas pelas quais passa a 
pessoa que estuda esse ou aquele livro. 
A pessoa lê inicialmente o livro, destaca as suas partes essenciais, em seguida põe o conteúdo 
essencial do livro num sumário que posteriormente se resume e se transforma 
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num esquema lógico do livro; o processo de assimilação do material pode considerar-se acabado 
depois que todo o conteúdo de um longo artigo ou livro pode ser inserido num esquema lógico 
muito breve porém substancial. 
O processo de assimilação do material lógico nem sempre apresenta esse caráter lógico; o leitor 
experiente não necessita de todas essas fases intermediárias dessa atividade desdobrada, o 
processo de "codificação" do material lido pode reduzir-se e limitar-se a algumas observações 
breves pelas quais o conteúdo da matéria lida pode ser plenamente restabelecido. Em alguns 
casos, nos leitores muito experientes isto se torna desnecessário e o processo de codificação (ou 
de organização lógica) do material assimilado começa a transcorrer com rapidez e sem 
quaisquer apoios externos. 
O processo de memorização lógica, que aproxima a atividade mnésica ao pensamento, 
reorganiza essencialmente tanto o processo de "aprendizagem decorativa" quanto o processo de 
"memorização". Ambos começam a ter caráter indireto, mediato; e é justamente nesse caráter 
que torna a recordação altamente eficaz tanto pelo volume do material que se torna acessível à 
memorização quanto pela estabilidade do material memorizado e pela possibilidade de 
reproduzir dentro de intervalos longos. É característico que os resultados dessa memorização 
logicamente organizada requerem um número bem menor de repetições para a aprendizagem 
decorativa, são em medida incomparavelmente inferior suscetível de influência inibitória dos 
fatores interferentes e não manifestam em forma tão nítida ocorrências de reminiscência como a 
memorização mecânica dos elos isolados e desconexos. 
A via da memorização mecânica à memorização através da organização lógica do material é a 
via fundamental de desenvolvimento