A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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complexa, relacionada com a aplicação do plano pronto 
ou com a confecção autônoma do plano do trecho não leva apenas a uma memorização melhor 
deste (como mostraram os fatos anteriores mas também torna a retenção do material mais sólida 
e, em sua reprodução prorrogada, permite recordar inclusive mais detalhes do que se conseguiu 
reproduzir na enquete realizada imediatamente após a realização do teste). 
Os fatos aqui apresentados mostram que o trabalho intelectual com o material leva a uma 
retenção bem mais sólida e completa deste do que a retenção na aprendizagem decorativa 
mecânica, permitindo, deste modo, avaliar o efeito mnésico da atividade intelectual. 
O efeito da retenção involuntária do respectivo material na memória depende tanto da 
orientação e da complexidade intelectual da atividade quanto do seu processo e do seu colorido 
emocional. 
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O fato da dependência da memorização face ao processo de atividade foi minuciosamente estudado pelo 
famoso psicólogo alemão Kurt Lewin. 
É sabido que uma intenção qualquer se retém solidamente na memória enquanto a tarefa está sendo 
executada e desaparece da memória tão logo se cumpre a tarefa. Lembramos a intenção de depositar uma 
carta no correio enquanto não a depositamos; mas basta cumprirmos a intenção para que a lembrança da 
carta desapareça da nossa memória. 
É justamente por força dessa regra que qualquer tarefa se conserva na nossa memória enquanto não se 
executa a habilidade correspondente e por isso mesmo os vestígios da atividade não acabada e não 
cumprida se mantém melhor na memória do que os vestígios da atividade acabada. Esse fato da melhor 
conservação de ações inacabadas na memória foi bem mostrado por B. W. Zeigarnik, discípula de Lewin, 
e entrou na Psicologia com o nome de "efeito de Zeigarnik". 
Os experimentos e estudo da dependência da retenção do material na memória em relação ao grau de 
conclusão da atividade consiste no seguinte: propõe-se ao sujeito a execução de uma série de tarefas 
(formar figuras com fósforos, pôr colares em caixas diferentes, resolver problemas aritméticos, etc). O 
cumprimento de algumas dessas tarefas é interrompido de forma a que o sujeito não as conclua; outras 
atividades ele consegue levar até o fim. 
Após o término dos testes propõe-se ao sujeito recordar as ações por ele executadas. 
Resultados mostram que as atividades não concluídas são recordadas com freqüência duas vezes maior do 
que as atividades concluídas. 
A melhor recordação das ações não acabadas explica porque é mais fácil recordar uma obra de conteúdo 
pungente e fábula inacabada e porque a lembrança se mantém sólida enquanto não se conclui a leitura da 
obra. Essa memorização explica o fato de que as tarefas não solucionadas continuam solidamente retidas 
na memória enquanto se mantém a tensão que desaparece com a solução. 
O que acaba de ser dito nos leva ao último fator determinante da estabilidade da memorização 
involuntária, isto é, 
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à influência do colorido emocional do material memorizável. Sabe-se que os estados emotivos de 
colorido emocional são retidos na memória de modo bem mais produtivo do que as impressões 
indiferentes. Esse fato parece dever-se a que as impressões de colorido emocional geram um elevado 
reflexo orientado e ocorrem sob um tônus cortical mais elevado e à circunstância de que o homem tende a 
voltar de modo bem mais freqüente a tais impressões; neste sentido, as vivências de colorido emocional 
geram a mesma tensão elevada que quaisquer ações inacabadas. 
Mas a melhor retenção das ações do colorido emocional na memória também tem limites. 
É fato bem conhecido que os estados afetivos acentuados, angustiantes insuportáveis para o sujeito, são 
atividade inibí-veis, "desiocáveis" da consciência e esquecíveis pelo sujeito. 
Freud deu atenção a esse fato, ao mostrar um grande número de observações que o homem tende a 
"reprimir" os estados emotivos desagradáveis (incompatíveis com seu programas) e angustiantes, que se 
inibem e se tornam essência de seu inconsciente, manifestando-se apenas nos estados de atividade 
reduzida: em forma de sonhos ou lapsos na escrita, ressalvas, etc. que surgem na abstração da atenção. 
Os fatos da repressão dos estados afetivos insuportáveis dos eventos inconscientes constituem uma das 
mais importantes conquistas da Psicologia moderna. Seus mecanismos fisiológicos se devem à inibição 
que surge nas excitações super-fõrtes e protege o córtex contra novas excitações excessivas. Ê justamente 
por isto que os mecanismos fisiológicos, que servem de base ao "deslocamento" os estados emotivos 
insuportáveis da memória, se aproximam dos mecanismos de inibição "parabiótica" ou "defensiva". 
Peculiaridades individuais da memória 
Até agora nós nos detivemos nas leis gerais da memória humana. Mas existem diferenças individuais que 
diferenciam a memória de umas pessoas da memória de outras. 
Essas diferenças individuais na memória podem ser de dois tipos. Por um lado, a memória de diferentes 
sujeitos se distingue pela predominância' de uma modalidade visual, auditiva 
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ou motora; por outro lado, a memória de diferentes pessoas pode distinguir-se também pelo 
nível de organização. 
É sabido que em umas pessoas predomina a modalidade visual de memória, em outras, a 
auditiva, em terceiras a motora. Isto é facilmente verificado se compararmos como diferentes 
pessoas registram a mesma estrutura visual e se analisarmos os procedimentos pelos quais elas 
recordam um conteúdo (por exemplo, um número de telefone ou um sobrenome) . 
Fatos análogos podem ser observados na memória auditiva. Aqui as diferenças individuais são 
muito grandes, e se na história foram observados casos em que uma obra musical complexa foi 
ouvida uma vez e repetida inteiramente por pessoas com acentuada memória auditiva, são 
conhecidas muitas observações em pessoas que se mostram quase inteiramente incapazes de 
memorizar uma melodia durante uma fração mínima sequer de tempo. 
Nas referidas diferenças individuais da memória manifestam-se tanto as características 
genotípicas como a atividade profissional humana, que leva a um elevado desenvolvimento da 
memória visual, auditiva e, às vezes, gustativa. 
Os traços característicos da memória podem manifestar-se ainda no fato de que diferentes 
sujeitos resolvem de modo diferente, uma mesma tarefa, como, por exemplo, a memorização do 
número de um telefone ou de um sobrenome. Sabe-se que compositores famosos (Prokófyev, 
por exemplo) diziam que memorizam números de telefones como memorizam melodias 
conhecidas, ao passo que outros sujeitos vêem o número de um telefone como se ele estivesse 
escrito num quadro e o memorizam visualmente. 
No entanto são especialmente importantes as diferenças dos modos de memorização e do nível 
de organização da memória de pessoas diferentes. 
Como mostram as observações, numas pessoas predominam as formas sensoriais (visuais, 
auditivas, motoras) indiretas de memorização, ao passo que, noutras, a memorização tem, 
predominantemente, o caráter de uma complexa codificação do material, de transformação deste 
em esquemas lógico-verbais. Era justamente o que Pavlov tinha em vista ao dividir as pessoas 
em dois grupos, um pertencente ao tipo de "pensadores" e o outro ao tipo de "artistas". Nem de 
longe 
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as diferenças individuais da memória são sempre simples peculiaridades particulares, que não 
ultrapassam os limites dos processos mnésicos. Freqüentemente elas levam a mudanças 
consideráveis na estrutura de toda a personalidade do homem. 
A. R. Luria descreveu um desses casos com o famoso mnemonista soviético S. 
A pessoa descrita apresentou uma memória eidé-tica impressionante pelo potencial. Sem 
dificuldade memorizava imensos quadros de números e palavras