A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
108 pág.

A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral - Vol. 3


DisciplinaLivros14.595 materiais90.341 seguidores
Pré-visualização29 páginas
mudanças qualitativas que sofre a memória da criança na medida em que se 
desenvolve, Vigotsky realizou duas séries de testes com crianças de diferentes idades. Na primeira série 
ele deu a uma criança a tarefa de memorizar imediatamente (sem quaisquer procedi- 
92 
mentos auxiliares) e reproduzir uma série de quadros au-xiliares como meio de memorização das 
palavras, relacionando cada palavra com o respectivo quadro através de uma ligação auxiliar qualquer. 
Os testes mostraram o quanto é complexo o caráter do desenvolvimento dos processos mnemônicos da 
criança. 
Um grupo de escolares de idade inferior conseguiu reter determinado número de palavras sem o uso de 
quaisquer procedimentos; no entanto os quadros, que se lhes propuseram como recurso auxiliar, não 
melhoraram o processo de memorização; as crianças dessa idade não conseguiram relacionar por meio 
lógico-verbal o quadro proposto com a palavra dada, declarando "aqui não tem dessas palavras" ou 
procurando localizar imediatamente a representação da palavra dada no quadro (quando se propôs a uma 
das crianças lembrar a palavra "sol" olhando para um quadro que representava um samovar, ela apontou 
para uma pequena mancha clara no samovar e disse: "olhe o sol ali!"). Por isto o teste era uma espécie de 
trabalho complementar, que apenas abstraía a atenção da criança da memorização da palavra necessária. 
Quando se pedia que a criança lembrasse pelo quadro a palavra correspondente, ela caía no total impasse, 
simplesmente descrevia o quadro dado ou fazia as associações que lhe surgiam diante do quadro. 
Resultava daí que a operação, na qual o quadro auxiliar desempenhava a função de sinal para a 
memorização da palavra necessária, era substituída por uma operação mais simples e imediata de 
associações posteriores e o esquema 
A (palavra) A (palavra) 
\ / 
^ X(quadro) 
era substituído por outro esquema mais elementar; 
A \u2014 X \u2014 X (do tipo da palavra "sol"; o quadro "samovar" é um samovar) 
ou A \u2014 X \u2014 Y (palavra "sol"; o quadro "samovar" significa tomar chá... chaleira... xícara) 
93 
A criança pequena ainda não tinha condições de estabelecer ou usar ligações auxiliares 
("mnemotécnicas") e no teste com o uso de quadros apresentava resultados não melhores mas às 
vezes até piores do que no teste de memorização imediata. 
Esses fatos permitiram estabelecer que a memorização da criança de idade pré-escolar, em sua 
maior parte, ainda tem caráter não-arbitrário (e por isto dificilmente dirigível). 
Outro quadro era o que se verificava quando os pesquisadores faziam esse teste com escolares 
principiantes, e, mais tarde, com alunos das últimas séries. 
As crianças dessa idade tiveram, naturalmente, mais facilidade de dirigir os processos de sua 
memorização e por isto se desempenharam melhor do teste de memorização imediata da série de 
palavras que lhes foi proposta. No entanto o avanço mais importante, que se observou na idade 
escolar, consistiu em que as crianças estavam agora em condições de usar meios auxiliares 
externos para o processo de memorização, estabelecer ligações auxiliares que lhes permitiam 
usar os quadros como sinais de apoio para a memorização da palavra necessária. 
Nos primeiros momentos essa possibilidade era limitada pelo emprego de ligações prontas 
relativamente simples. Para memorizar a palavra "escola", as crianças agora estavam em 
condições de usar o quadro "caderno" ("na escola há cadernos") mas ainda não conseguiam criar 
por conta própria novas ligações auxiliares, recusando-se, para a memorização da palavra 
"escola", por exemplo, a usar o quadro "navio" ("não, escola não, nela se estuda; o navio está no 
mar..."). Mas essa dificuldade foi sendo superada nas etapas posteriores de desenvolvimento. As 
crianças começavam a realizar a possibilidade de formação autônoma de novas ligações 
auxiliares, utilizáveis para a memorização das palavras sugeridas. 
Como resultado desse processo, o número de palavras memorizáveis com o auxílio dos quadros 
auxiliares aumentava acentuadamente e começava a superar o número de palavras que a criança 
conseguia reter imediatamente. 
Aqui, contudo, os erros característicos das crianças em idade pré-escolar (do tipo A-X-X ou A-
X-Y) já desapareciam e a criança, a quem no teste de controle se sugeriam os quadros por ela já 
usados, voltava à palavra inicial (a pala- 
94 
vra "escola \u2014 quadro "navio' \u2014 palavra "escola" ou A-X-A) ou fazia uma reprodução imprecisa da 
palavra dada, substituindo-a por alguma palavra aproximada (a palavra "escola", o quadro "navio", a 
palavra "mestre", isto é, apresentava o esquema A-X-B). 
Esses testes mostravam de modo evidente que a idade escolar é a etapa em que, a par com a memória 
imediata, formam-se na criança os processos de memorização mediata e que a passagem para o estudo da 
memória dos escolares das últimas séries e dos adultos permitia descrever a etapa seguinte e última do seu 
desenvolvimento. 
Os testes, realizados com os alunos das últimas séries e com adultos, mostraram que estes estabelecem 
facilmente ligações auxiliares, que lhes permitem usar quaisquer meios exteriores de apoio para a 
memorização das palavras dadas; para eles, a existência de ligações primárias entre a palavra e o quadro 
não oferece qualquer obstáculo visível e eles usam facilmente qualquer quadro como meio auxiliar para a 
memorização, No entanto o traço mais importante, que distingue esses sujeitos, consiste em que, agora, 
eles já dispensam os apoios externos e estão em condições de memorizar as palavras que se lhes sugerem 
mediante a organização lógica interna destas, colocando-as em certa estrutura lógica e "codificando-as" 
em grupos semânticos determinados. Os procedimentos de memorização, que na etapa anterior tinham 
caráter mediato externo, reduzem-se agora e adquirem o caráter de processo mediato interno. A 
memória mecânica se converte paulatinamente em memória lógica. 
O resultado desse processo é o aumento considerável dos resultados da memorização na primeira série de 
testes, na qual não se dão ao sujeito quaisquer apoios externos e a curva desta série de testes começa a 
subir de maneira célere, revelando a tendência a fundir-se, no seu limite, com a curva da memorização 
exteriormente mediata. Este fato, que em seu tempo recebeu a denominação de paralelograma da 
memória, apresenta o esquema dos principais fatos de desenvolvimento da memória na idade infantil. Ele 
mostra que se na idade escolar ocorre o processo básico de transformação da memória elementar imediata 
em memória exteriormente mediata, então com a passagem para a faixa etária de nível superior e para a 
idade madura o homem se torna capaz de dominar a memorização interiormente mediata. Por isto 
95 
a brusca elevação da curva da memorização "imediata' nessa idade se deve a que essa memorização, aqui, 
se torna de fato interiormente mediata. 
Verifica-se, deste modo, que o processo de desenvolvimento da memória na idade infantil é um processo 
de transformações psicológicas radicais cuja essência consiste em que as formas imediatas naturais de 
memorização se convertem em "processos psicológicos superiores", sociais por origem e mediatos por 
estrutura, que distinguem decisivamente os processos psicológicos do homem dos processos psicológicos 
do animal. 
Vê-se facilmente que essa transformação radical dos processos de memória durante o desenvolvimento da 
criança não é apenas uma estrutura modificada da própria memória mas, ao mesmo tempo, uma mudança 
nas relações entre os processos psicológicos básicos. Se nas etapas iniciais de desenvolvimento a 
memória tinha caráter direto e era, até certo ponto, uma continuação da percepção, com o 
desenvolvimento da memorização mediata ela perde a