A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
108 pág.

A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral - Vol. 3


DisciplinaLivros15.946 materiais91.488 seguidores
Pré-visualização29 páginas
sua ligação imediata com a percepção e contrai 
uma ligação nova e decisiva com o processo de pensamento. O aluno de nível superior ou o adulto, que 
fazem operações complexas de codificação lógica do material suscetível de memorização, executam um 
complexo trabalho intelectual e o processo de-memória começa, assim, a aproximar-se do processo de 
pensamento discursivo, sem entretanto perder o caráter de atividade mnemônica. 
Essa mudança radical da relação entre processos psicológicos isolados, bem como a formação de novos 
sistemas funcionais, constituem o traço fundamental do desenvolvimento psíquico da criança, podendo o 
processo de desenvolvimento da memória durante a ontogênese ser entendido apenas como uma 
transformação radical dos processos cujas vias acabamos de expor. 
Patologia da memória 
Os estados patológicos do cérebro são muito amiúde acompanhados da perturbação da memória. Mas até 
recentemente eram muito pouco conhecidas as particularidades psi- 
96 
cológicas que distinguem as perturbações da memória em afecções cerebrais diferentes pela localização, 
bem como os mecanismos fisiológicos que lhes servem de base. 
São amplamente conhecidos os fatos segundo os quais, dos traumas muito agudos ou intoxicações, podem 
resultar ocorrências de amnésia retrógrada e anterógrada; nestes casos, os doentes, conservando 
recordações de acontecimentos há muito ocorridos, revelam consideráveis perturbações da memória dos 
acontecimentos correntes, esgotando de fato os conhecimentos de que dispunham os psiquiatras e neuro-
patologias que descreviam as mudanças da memória nas afecções orgânicas do cérebro. A esses dados 
incorporavam-se os fatos que indicavam que as afecções das áreas profundas do cérebro podem levar a 
profundas perturbações da capacidade de fixar vestígios e reproduzir coisas memorizá-veis; no entanto a 
natureza dessas perturbações continuava obscura. 
Os dados, obtidos por muitos pesquisadores nos últimos decênios, enriqueceram substancialmente os 
nossos conhecimentos acerca do caráter da perturbação da memória durante afecções diferentes pela 
localização e permitiram precisar tanto os dados básicos sobre o papel de algumas estruturas cerebrais nos 
processos da memória quanto os mecanismos fisiológicos que servem de base às suas perturbações. 
As afecções das áreas profundas do cérebro \u2014 regiões do hipocampo e do sistema conhecido como 
"círculo de Peipetz" (hipocampo, \u2014 núcleos do tálamo ótico, \u2014 corpos mamilares, \u2014 corpo amendoado) 
\u2014 costumam levar a perturbações maciças da memória, que não se limitam a nenhuma modalidade. 
Conservando recordações de acontecimentos distantes (há muito consolidados no cérebro), os doentes 
desse grupo são incapazes, contudo, de gravar na memória os vestígios das ocorrências correntes; em 
casos menos nítidos eles se queixam de memória fraca, indicam que são forçados a anotar tudo para não 
esquecer. As afecções maciças dessa região provocam uma grosseira amnésia face aos acontecimentos 
correntes, levando às vezes o homem a perder a noção precisa de onde se encontra e começar a 
experimentar dificuldades consideráveis de orientar-se no tempo, ficando impossibilitado de mencionar o 
ano, o mês, a data, o dia da semana e às vezes a hora do dia. 
97 
É característico que, nesses casos, as perturbações da memória não têm caráter seletivo e se 
manifestam igualmente na dificuldade de retenção do material visual e auditivo, imediato e 
discursivo. Nos casos em que a afecção abrange ambos os hipocampos, essas perturbações da 
memória são especialmente nítidas. 
Pesquisas neuropsicológicas minuciosas permitiram fazer uma caracterização posterior tanto da 
estrutura psicológica dessas falhas da memória quanto analisar os mecanismos fisiológicos que 
servem de base às suas perturbações. 
Mostrou-se que, nos casos de afecções relativamente brandas das referidas regiões do cérebro, 
as perturbações se limitam a falhas da memória elementar, imediata, desprezando a 
possibilidade de compensação dessas falhas por meio da organização semântica do material; os 
doentes que não podem memorizar as séries de palavras isoladas, quadros ou ações, são capazes 
de executar bem melhor essa tarefa, recorrendo a meios auxiliares e organizando o material 
memo-rizável em determinadas estruturas semânticas. Nesses doentes a perturbação da 
memória imediata não é acompanhada de qualquer perturbação expressa do intelecto e, via de 
regra, eles não apresentam indícios de demência. 
Fatos importantes foram registrados durante a análise das possíveis perturbações fisiológicas 
da memória nos casos em exame. 
Como mostraram essas pesquisas, os doentes com afecções das áreas profundas do cérebro 
podem reter séries de palavras e ações relativamente longas e reproduzi-las após um intervalo 
de 60-90 segundos. No entanto é bastante uma pequena abstração, provocada por atividade 
interferente, para tornar-se impossível a reprodução da série de elementos re-cém-memorizada. 
Nestes casos, a base fisiológica da perturbação da memória não é tanto a debilidade dos 
vestígios quanto uma elevada inibição dos vestígios por ações inter-ferentes. Esses mecanismos 
de perturbação da memória nos casos descritos devem-se ao fato de que a firme conservação 
dos focos dominantes e dos reflexos seletivos orientadores é, aqui, facilmente perturbada em 
virtude da redução do tônus do córtex e da separação, do trabalho normal, dos aparelhos 
primários de confrontação dos vestígios que, como já foi dito, é função imediata do hipocampo 
e das formações a ele ligadas. 
98 
O quadro das perturbações da memória muda substancialmente quando à afecção das regiões 
profundas do cérebro incorpora-se a afecção dos lobos frontais (sobretudo de suas áreas mediais 
e basais). Nestes casos, o doente deixa de ter uma atitude crítica em relação às falhas da sua 
memória, é incapaz de lhe compensar as falhas e perde a capacidade de discernir a execução 
autêntica das associações que afloram desordenadamente. As confabulações e erros da memória 
("pseudo-reminiscências"), que surgem nesses doentes, incorporam-se às grosseiras 
perturbações da memória ("síndrome de Korsakov") e levam àquelas ocorrências de embaraço 
que se encontram na fronteira das perturbações da memória e das perturbações da consciência. 
De todas as variantes do quadro acima descrito distin-guem-se as perturbações da memória, que 
surgem durante as afecções locais da superfície externa (convexa) do cérebro. 
Semelhantes afecções nunca são acompanhadas da perturbação geral da memória e jamais 
levam ao surgimento da "síndrome de Korsakov" e muito menos de perturbações da consciência 
com a desintegração da orientação no espaço e no tempo. 
Os doentes com afecções locais das áreas convexas do cérebro podem apresentar uma 
perturbação particular da atividade mnemônica, que costuma ter caráter específico-modal, 
noutros termos, manifesta-se em alguma região. 
Assim, os doentes com afecção da região temporal esquerda apresentam sintomas de 
perturbação da memória au-ditivo-verbal não podem reter as séries de sílabas ou palavras da 
menor extensão. No entanto eles podem não manifestar quaisquer falhas da memória visual e, a 
partir desta, em alguns casos podem compensar as suas falhas mediante a organização lógica do 
material consolidável na memória. 
Os doentes com afecções locais da região occipto-pa-rietal esquerda podem apresentar 
perturbação da memória es-paço-visual mas, via de regra, conservam a memória auditi-vo-
verbal em grau consideravelmente maior. 
Os doentes com afecção dos lobos frontais do cérebro não costumam perder a memória, embora 
sua atividade mnemônica possa ser essencialmente dificultada pela inércia patológica dos 
estereótipos uma vez surgidos e pela difícil transferência