A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
108 pág.

A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral - Vol. 3


DisciplinaLivros17.101 materiais92.587 seguidores
Pré-visualização29 páginas
essa posição. 
Por último, o terceiro grupo de psicólogos que enfocam o problema das posições da teoria 
motora da atenção, vê na atenção uma manifestação dos objetivos motores que servem de base 
a cada ato volitivo e considera que o mecanismo da atenção é constituído pelos sinais dos 
esforços nervosos e caracterizam qualquer tensão provocada por uma atividade determinada 
dirigida a certo fim. 
Vê-se facilmente que cada uma dessas teorias distingue certo componente integrante da atenção 
mas em realidade não tenta abordar o problema dos mecanismos fisiológicos gerais que servem 
de base à atenção. 
Dificuldades consideráveis surgiram ante os fisiologistas que lançaram as hipóteses das bases 
fisiológicas gerais da atenção. 
Durante muito tempo, essas tentativas foram de caráter excessivamente genérico e consistiram 
antes na descrição das condições gerais do processo seletivo de excitação do que na 
discriminação dos mecanismos fisiológicos especiais da atenção. 
Uma das primeiras tentativas foi a hipótese do conhecido fisiologista inglês Ch. Sherrington, 
que mais tarde recebeu a denominação amplamente conhecida como "teoria geral do campo 
motor" ou "funis de Sherrington". Observando o fato de que nos cornos posteriores da medula 
espinhal há bem mais neurônios sensórios do que neurônios motores, Sherrington lançou a tese 
de que nem todos os impulsos motores po- 
7 
dem chegar ao seu fim motor e de que um grande número de excitações sensoriais tem seu "campo motor 
geral", que a relação entre os processos sensoriais e motores podem assemelhar a um funil em cuja 
abertura larga penetram os impulsos sensoriais e do furo estreito saem as inervações motoras. Vê-se 
facilmente que entre os impulsos sensoriais surge "uma luta pelo campo motor geral" na qual vencem os 
impulsos mais fortes, melhor preparados ou integrantes de determinado sistema biológico. Apesar de 
Sherrington ter sido um dos primeiros fisiologistas a estudar a atividade integrativa do cérebro e a 
formular a tese da estrutura sistêmica dos processos fisiológicos, a teoria da "luta pelo campo motor geral 
se assemelha apenas nos traços mais genéricos aos mecanismos fisiológicos que servem de base à 
atenção. 
Esse mesmo caráter genérico é verificado também nos primeiros enunciados de Pavlov, que assemelhava 
a atenção (e a consciência nítida) a um foco de excitação optimal, que se movimenta pelo córtex cerebral 
à semelhança de "um ponto luminoso em deslocamento". A idéia do foco de excitação optimal enquanto 
base da atenção mostrou-se posteriormente muito importante e levou a alguns mecanismos fisiológicos 
essenciais da atenção embora, evidentemente, fosse demasiado genérica para dar uma explicação 
satisfatória desses processos. 
A. A. Ukhtomsky, notável fisiologista russo, deu uma contribuição considerável à análise dos 
mecanismos fisiológicos da atenção. Segundo as suas concepções, a excitação se distribui de maneira 
desigual pelo sistema nervoso e cada atividade instintiva (assim como os processos do reflexo 
condicionado) pode criar no sistema nervoso focos de excitação optimal, que adquirem caráter dominante. 
Esses focos, a que Ukhtomsky chamou dominantes, não só dominam sobre os demais e inibem outros 
focos paralelos como também adquirem inclusive a capacidade de reforçar-se sob o efeito de ex-citações 
estranhas. Assim, a rã que em determinado período adquire o dominante do reflexo abrangente das patas 
dianteiras, reage à excitação das patas traseiras com a intensificação dos dominantes que abrangem o 
movimento das patas dianteiras. Essa capacidade do dominante para inibir reflexos secundários e 
inclusive reforçar-se sob o efeito de excitações estranhas foi considerada por Ukhtomsky como um 
processo que lembra a atenção; foi justamente isto que lhe deu 
8 
fundamento para considerar o dominante um mecanismo fisiológico da atenção. 
A contribuição da teoria do dominante à análise dos mecanismos fisiológicos do processo 
seletivo de excitações é indiscutível. Mas restava ainda encontrar as vias concretas de 
construção de modalidades particulares da atividade seletiva dos animais e do homem e os 
sistemas neurofisiológicos que servem de base a essa via. Foi este o trabalho realizado pelos 
neurofisiologistas nos últimos vinte anos. 
Mecanismos neurofisiológicos da ativação. . " O sistema reticular da ativação 
Para o estudo atual dos mecanismos neurofisiológicos da atenção, é fundamental o fato de que o 
caráter seletivo da ocorrência dos processos psíquicos, característicos da atenção, pode ser 
assegurado apenas pelo estado de vigília do córtex, do qual é típico um nível optimal de 
excitabilidade. Esse nível de vigília do córtex só pode ser assegurado pelos mecanismos de 
manutenção do necessário tônus do córtex e estes estão relacionados com a conservação de 
relações normais entre o tronco superior e o córtex cerebral e, acima de tudo, com o trabalho da 
formação reticular ativadora ascendente cujo papel já descrevemos anteriormente. 
É justamente essa formação reticular ativadora ascendente que faz chegarem ao córtex os 
impulsos provenientes dos processos de troca do organismo, que são realizados pelas 
inclinações e mantêm o córtex em estado de vigília; é ela que faz chegarem ao córtex as 
excitações derivadas do funcionamento dos extero-receptores, que conduzem a informação 
afluente do mundo exterior inicialmente para as áreas superiores do tronco e do núcleo do 
tálamo ótico e, posteriormente, para o córtex cerebral. Como já foi indicado, a separação da 
formação reticular do tronco do córtex cerebral provoca queda do tônus e sono. 
No entanto não é apenas a formação reticular ascendente de ativação que assegura o tônus 
optimal e o estado de vigília do córtex. A ela também está estreitamente ligado o aparelho do 
sistema reticular descendente cujos filamentos começam no córtex cerebral (antes de tudo nas 
áreas me- 
9 
diais e médiobasais dos lobos frontais e temporais) e se dirigem tanto no sentido dos núcleos do 
tronco como dos núcleos motores da medula espinhal. O trabalho da formação reticular 
descendente é muito importante pelo fato de que, através dela, chegam aos núcleos do tronco 
cerebral os sistemas seletivos de excitação que surgem inicialmente no córtex cerebral e são um 
produto das formas superiores de atividade consciente do homem com os seus complexos 
processos cognitivos e os complexos programas de ação. 
Ê a interação dos dois componentes do sistema reticular de ativação que assegura as formas 
mais complexas de auto-regulação dos estados ativos do cérebro, mudando-os sob a influência 
tanto de formas elementares (biológicas) como de formas complexas (sociais por origem) de 
estimulação. 
A importância decisiva desse sistema para assegurar os processos de ativação (arousal) foi 
verificada por uma grande série de fatos experimentais, observados pelos célebres 
neurofisiologistas H. W. Magoun, G. Moruzzi, H. H. Jasper, D. B. Lindsley, Naokhin e outros. 
Os testes de Bremer mostraram que o corte das áreas inferiores do tronco não leva à mudança da 
vigília, ao passo que o corte das áreas superiores do tronco provoca sono com o surgimento 
característico de lentas potencialidades elétricas. Como mostrou Lindsley, nestes casos os sinais 
provocados por estímulos sensoriais continuam a chegar ao córtex mas as respostas elétricas do 
córtex a esses sinais se tornam apenas breves e não suscitam mudanças longas e estáveis. Esse 
fato mostra que, para o surgimento de processos estáveis de excitação, característicos do estado 
de vigília, é insuficiente só um afluxo de impulsos sensoriais, sendo necessária uma influência 
mantenedora do sistema reticular ativador. 
Outros testes inversos, nos quais os pesquisadores não excluíram, mas