A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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excitaram a formação 
reticular ascendente através de eletrodos nela implantados, mostraram que tal excitação da 
formação reticular leva ao despertar do animal enquanto a intensificação sucessiva dessas 
excitações leva ao surgimento de reações efetivas bem expressas. 
Se os experimentos que acabamos de citar mostram como a excitação da formação reticular 
ascendente influencia o comportamento do animal, os experimentos posteriores, realizados 
pelos mesmos autores, permitiram um conhecimento 
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mais aproximado dos mecanismos fisiológicos dessas influências ativadoras. 
Verificou-se que a excitação da formação reticular do tronco provocava o surgimento de rápidas 
oscilações elétricas no córtex cerebral e das ocorrências de "dessincronização" que caracterizam 
o estado ativo de vigília do córtex. Como resultado da excitação dos núcleos da formação 
reticular nas áreas superiores do tronco cerebral, as excitações sensoriais começaram a provocar 
mudanças duradouras na atividade elétrica do córtex, o que indicava uma influência crescente e 
fixadora da formação reticular sobre os gânglios sensoriais do córtex. 
Por último, o que é sobretudo importante, a excitação dos núcleos da formação reticular 
ascendente e ativadora provocou a movimentação dos processos nervosos no córtex cerebral. 
Deste modo, se em condições habituais dois estímulos concomitantes provocam apenas uma 
reação elétrica do córtex, que "não consegue a tempo" dar uma resposta isolada, aos estímulos, 
já após a excitação dos núcleos do tronco da formação reticular ativadora ascendente, cada um 
desses estímulos começa a gerar resposta isolada, o que sugere uma elevação substancial da 
mobilidade dos processos de excitação que ocorrem no córtex. 
Essas ocorrências eletro fisiológicas correspondem também aos fatos registrados nos testes 
psicológicos de Lindsley. Este mostrou que a excitação dos núcleos do tronco da formação 
ativadora reticular ascendente reduz substancialmente os limiares \u25a0 da sensibilidade (noutros 
termos, aguçam a sensibilidade) do animal e permitem diferenciações sutis (por exemplo, a 
diferenciação entre a figura de um cone e a de um triângulo), antes inacessíveis ao animal. 
Pesquisas posteriores, realizadas por alguns autores (Hernandez Peón, Doti, e outros) mostraram 
que, se o corte das vias da formação reticular ascendente leva ao desaparecimento dos reflexos 
condicionados antes adquiridos, então com a excitação dos núcleos da formação reticular torna-
se possível a aquisição de reflexos condicionados inclusive nas excitações subliminares, nas 
quais antes não ocorriam reflexos condicionados. 
Tudo isso alude nitidamente à influência ativadora da formação reticular ascendente sobre o 
córtex cerebral e indica que ela assegura o estado ideal do córtex cerebral, que é necessário à 
vigília. 
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No entanto surge uma pergunta: será que a formação reticular ascendente assegura apenas a 
influência ativadora genérica sobre o córtex cerebral ou sua influência ativadora apresenta 
traços seletivos específicos? 
Até recentemente os pesquisadores tendiam a considerar a influência ativadora da formação 
reticular ascendente como influência modal \u2014 não específica: ela se manifestava igualmente em 
todos os sistemas sensoriais e não apresentava qualquer efeito seletivo sobre nenhum deles 
(visão, audição, etc). 
Ultimamente foram obtidos dados indicadores de que as influências ativadoras da formação 
reticular ascendente têm caráter também seletivo e específico. No entanto essa especificidade 
das influências da formação reticular ativadora é de outra natureza: ela assegura não tanto a 
ativação seletiva de processos sensoriais isolados quanto a ativação de sistemas biológicos, isto 
é, os sistemas de reflexos alimentares, defensivos e orientados. Isto foi sugerido por Anokhin, 
que mostrou que existem partes isoladas da formação reticular ascendente que ativam diferentes 
sistemas biológicos e são sensíveis a diversos agentes farmacológicos. 
Foi demonstrado que a uretana provoca um bloqueio da vigília e leva ao surgimento do sono, 
mas provoca um bloqueio dos reflexos defensivos de dor; a aminazina, ao contrário, não 
provoca bloqueio da vigília mas leva ao bloqueio dos reflexos defensivos de dor. 
Esses dados dão fundamento para pensar que na influência ativadora da formação reticular 
ascendente existe certa seletividade mas esta corresponde apenas àqueles sistemas biológicos 
básicos que motivam o organismo para um desempenho ativo. 
Não são menos interessantes para a Psicologia os impulsos ativadores seletivos, que são 
assegurados pela formação reticular ativadora descendente cujos filamentos começam no 
córtex cerebral (sobretudo nas áreas mediais dos lobos frontal e temporal) e dali se dirigem aos 
aparelhos das áreas superiores do tronco. 
Há fundamentos para se supor ser justamente esse sistema o que desempenha papel essencial ao 
assegurar a influência ativadora seletiva sobre as modalidades e os componentes da atividade 
que se formam com a participação imediata do córtex cerebral e que essas influências são pre- 
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cisamente as que têm relação mais íntima com os mecanismos fisiológicos das formas 
superiores de atenção. 
Os dados da anatomia mostram que os filamentos descendentes da formação reticular começam 
praticamente em todas as áreas do córtex cerebral, especialmente nas áreas mediais e 
mediobasais do lobo frontal e de sua região límbica. O começo de tais filamentos pode ser 
constituído tanto pelos neurônios das áreas profundas de muitas zonas do córtex cerebral quanto 
por grupos especiais de neurônios que, em sua maioria, se encontram nas zonas límbicas do 
cérebro (no hipocampo) e nos gânglios basais (corpo caudal). Esses neurônios se distinguem 
essencialmente dos neurônios específicos que correspondem a propriedades fracionárias 
isoladas das excitações visuais ou auditivas. Ao contrário destes, aqueles neurônios não 
respondem a quaisquer excitações específicas (visuais ou auditivas): basta um pequeno número 
de repetições destas excitações para que esses neurônios "se acostumem" a elas e deixem de 
reagir ao seu aparecimento sejam quais forem as cargas. No entanto basta surgir qualquer 
mudança do estímulo para que os neurônios reajam a ela com cargas. É característico o fato de 
que as cargas podem surgir num grupo isolado de neurônios em medida idêntica com a mudança 
de quaisquer estímulos (táteis, visuais, auditivos) e não só o reforço como também o 
enfraquecimento dos estímulos ou a ausência do estímulo esperado (como, por exemplo, na 
omissão de uma série rítmica de excitadores) pode provocar um desempenho ativo desses 
neurônios. 
Diante de tais circunstâncias, alguns autores como, por exemplo, o neurofisiologistas canadense 
H. H. Jasper, propuseram chamar-lhes "neurônios da novidade" ou "células da atenção". É 
característico que no período em que o animal aguarda sinais ou procura a saída de um labirinto, 
é justamente nessas áreas do córtex (onde 60% de todos os neurônios pertencem ao grupo que 
acabamos de descrever) surgem séries ativas, que cessam com a supressão do estado de 
expectativa ativa. 
Isto mostra que os dados da região cortical e os neurônios não específicos que nesta se 
encontram e respondem a cada mudança de situação, são um importante aparelho que modifica 
o estado de atividade do cérebro e regula a sua prontidão para a ação. 
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Se no animal a parte mais importante do encéfalo, a qual desempenha importante papel na regulação do 
estado de prontidão, é a das áreas mediais da região límbica e dos gânglios basais, já no homem, com suas 
formas complexas altamente desenvolvidas de atividade, esse aparelho principal, que regula o estado de 
atividade, é constituído pelas áreas lobulares do