A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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observadas sempre que surge reação de precaução ou reflexo orientado, provocado pelo surgimento de 
um estímulo novo ou essencial para o sujeito. 
Os cientistas ainda não são unânimes em responder se o reflexo orientado é uma reação condicionada ou 
incondicionada. 
Pelo caráter inato, o reflexo orientado pode ser incluído entre os reflexos incondicionados. O animal 
responde com uma reação de precaução a quaisquer estímulos novos ou essenciais de qualquer 
aprendizagem; por este indício, o reflexo orientado se situa entre as reações incondicionadas e congênitas 
do nrnarjicrqo. A existência de neurônios especiais, que respondem com descargas a qualquer mudança 
de situação, indica que o reflexo orientado se baseia na ação de determinados aparelhos nervosos. 
Por outro lado, o reflexo orientado apresenta uma série de indícios que o distinguem essencialmente dos 
reflexos condicionados comuns: com a repetição constante do mesmo estímulo, as ocorrências do reflexo 
orientado logo se extin-guem, o organismo se habitua a esse estímulo cujos indí- 
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cios deixam de provocar as reações descritas. Esse desaparecimento das respostas orientadas aos 
estímulos que se repetem é denominado habituação (habituation). 
Cabe observar que o desaparecimento do reflexo orientado na medida da habituação pode ser 
uma ocorrência provisória, sendo necessária uma pequena mudança no estímulo para a reação 
orientada tornar a surgir. Essa ocorrência do surgimento do reflexo orientado sob mudanças 
mínimas da excitação é chamada às vezes de reação da excitação (ou arousal). É característico 
que semelhante ocorrência de reflexo orientado, como já observamos, pode verificar-se não só 
com o reforçamento mas também com o enfraquecimento do estímulo habitual e até mesmo 
com o seu desaparecimento completo. Assim, basta "extinguir" inicialmente os reflexos 
orientados aos estímulos ritmicamente apresentados e, em seguida, depois, que as reações 
orientadas a cada estimulação tenham-se extinguido como resultado da habituação, omitir um 
dos estímulos apresentados por via rítmica. Neste caso, a ausência do estímulo esperado 
provocará o surgimento de reflexo orientado. 
Por todos esses traços da sua dinâmica, o reflexo orientado difere essencialmente do reflexo 
incondicionado. Cabe observar também que o reflexo orientado pode ser provocado por um 
estímulo condicionado: ele pode ser obtido apresentando-se ao animal um sinal condicional, 
que anunciará o surgimento de alguma mudança na situação ambiente. Para o homem, esse sinal 
pode ser representado pela palavra, que nele provoca facilmente ocorrências de alerta, 
precaução e expectativa do surgimento do sinal, etc. 
Seria incorreto pensar que o reflexo orientado tem caráter de ativação geral, generalizada do 
organismo. Em realidade, ele pode ter caráter diferenciado e seletivo, sendo que a seletividade 
pode manifestar-se tanto em relação aos sinais que surgem como pelo caráter da prontidão dos 
aparelhos motores efetivos que são gerados pelo "estado de alerta". 
Isto é facilmente observável se, durante muito tempo, apresentarmos ao sujeito um sinal 
qualquer, por exemplo, um som de determinada altura; neste caso, por força do hábito, todas as 
respostas a esse som serão extintas embora essa "habituação" tenha caráter seletivo e seja 
bastante uma mudança mínima da altura do som para que torne a surgir todo um complexo de 
respostas orientadas. Esse procedimento 
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permitiu ao pesquisador soviético E. N. Sokolov avaliar objetivamente a seletividade que caracteriza as 
reações orientadas (ou "reações de excitação") em relação aos sinais diferenciados e falar de um "modelo 
nervoso de estímulo" que se manifesta através da aplicação desse procedimento. 
Orientação e atenção 
A alta seletividade do reflexo orientado pode manifestar-se também em relação à sua parte efetiva e 
motora. As pesquisas mostraram que, se o homem aguarda eclosão de luz, surge nele uma mudança das 
respostas elétricas ("potenciais gerados") nas áreas visuais (occipitais), e se ele aguarda uma excitação 
dolorosa, surgem-lhe mudanças das respostas elétricas ("potenciais gerados") na área sensomotora do 
córtex. 
Se o sujeito foi alertado para responder ao sinal com um movimento do braço direito, então a espera desse 
sinal provoca mudanças das ocorrências elétricas (eletromiogra-mas) nos músculos do braço direito, sem 
provocar ocorrências idênticas nos músculos do braço esquerdo. Ocorre o contrário quando se alerta o 
sujeito para que ele movimente o braço esquerdo em resposta ao sinal. Esse estado de alerta para 
determinado movimento é denominado orientação para o movimento e seus indícios objetivos têm caráter 
rigorosamente seletivo. 
Esses fatos mostram igualmente que a reação ativadora, incluída no sistema de reflexo orientado, pode ter 
caráter rigorosamente seletivo. 
O caráter seletivo da orientação, provocado no homem pelo alerta para uma atividade qualquer, foi 
minuciosamente estudado pelo notável psicólogo soviético D. N. Uznadze em seus conhecidíssimos 
experimentos com a orientação fixada. 
Depois que o sujeito apalpava várias vezes uma pequena esfera com a mão direita, ele conservava uma 
"orientação fixada", isto ê, o alerta para receber na mão direita uma esfera de volume maior. Por isto, 
quando se colocavam inesperadamente esferas idênticas nas mãos do sujeito, esse estímulo entrava em 
conflito com a esperada desigualdade das esferas e a esfera colocada na mão direita, em contraste com a 
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esperada, era interpretada como menor do que a esfera colocada na mão esquerda. 
Essa orientação, que se manifesta na "ilusão de contraste" que acabamos de descrever, 
mantinha-se durante algum tempo e depois extinguia-se paulatinamente, sendo que, em alguns 
sujeitos, esse processo de extinção da orientação fixada podia apresentar caráter variado: em uns 
a orientação criada se extinguia paulatinamente e apresentava oscilações (a ilusão de contraste 
ora se manifestava, ora desaparecia para, afinal, extinguir-se inteiramente); em outros, ela se 
mantinha apenas por um tempo muito breve e logo desaparecia. As diferenças individuais na 
situação criada se manifestavam também no seu grau de seletividade. Em uns sujeitos, a 
orientação no tamanho variado das esferas, provocada pelo experimento descrito, limitava-se ao 
campo motor e se manifestava apenas nos experimentos de apalpação das esferas tendo, 
conseqüentemente, caráter concentrado. Em outros sujeitos, a orientação se estendia a outros 
campos e depois que a ilusão descrita era gerada no campo motor (apalpação de esferas de 
diferentes tamanhos com as mãos direita e esquerda) ela se manifestava também no campo 
visual, na ilusão de que das duas esferas de diâmetro idêntico, a direita (correspondente à mão 
direita) era menor do que a esquerda; essa ocorrência aponta o caráter irradiado da orientação 
provocada. 
Os testes de orientação, que são um procedimento especial de estudo das ocorrências de 
ativação, indicam o quanto esses fenômenos podem ter caráter seletivo no homem. 
Esses testes abrem novas perspectivas para o estudo dos processos de ativação no homem e para 
a análise dos fatores que a regulam. 
As ocorrências de "reflexo orientado" da "ativação" podem ser geradas por qualquer mudança 
de situação ou pela expectativa de um estímulo novo ou essencial. Elas se extin-guem 
paulatinamente como resultado da "habituação" e tornam a manifestar-se com a mudança do 
caráter habitual dos estímulos que atuam sobre o sujeito. 
Todas essas ocorrências têm caráter natural e servem de base à atenção não involuntária. 
No entanto o homem tem a possibilidade de mudar as leis naturais da ocorrência do reflexo 
orientado, de tornar mais estável o estado de ativação