A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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depende das influências procedentes do espírito 
livre. 
É fácil perceber que todas essas observações descreviam fatos realmente existentes; não 
obstante, a explicação desses fatos dos limites da tradicional Psicologia naturalista era 
impossível, sendo justamente isto o que abria amplamente as portas a hipóteses idealistas 
anticientíficas, atinentes à influência do "livre arbítrio" sobre a ocorrência dos processos 
psíquicos do homem. 
O impasse a que levaram as tentativas de explicar os fenômenos da atenção arbitrária na 
Psicologia naturalista clássica pode ser superado se mudarmos as concepções tradicionais dos 
processos conscientes, se deixarmos de considerá-los primários, particularidades primárias 
sempre existentes da vida espiritual e abordá-los como produto de um complexo 
desenvolvimento histórico-social. Só após darmos esse passo e examinarmos o problema da 
gênese da atenção arbitrária é que poderemos ver as suas raízes autênticas e dar-lhe uma 
explicação científica. 
Como já tivemos oportunidade de salientar (Vol. I \u2014 Cap. III), a criança vive num ambiente de 
adultos e se desenvolve num processo vivo de comunicação com eles. 
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Essa comunicação, que se realiza através da fala, de atos e gestos do adulto, influencia 
essencialmente a organização dos processos psíquicos da criança. 
A criança de idade tenra contempla o ambiente costumeiro que a cerca e seu olhar corre pelos 
objetos presentes sem se deter em nenhum deles nem distinguir esse ou aquele objeto dos 
demais. A mãe diz para a criança: "isto aqui é uma xícara!" e aponta o dedo para ela. A palavra 
e o gesto indicador da mãe distinguem incontinenti esse objeto dos demais, a criança fixa a 
xícara com o olhar e estende o braço para pegá-la. Neste caso, a atenção da criança continua a 
ter caráter involuntário e exteriormente determinado, com a única diferença de que aos fatores 
naturais do meio exterior incorporam-se os fatores da organização social do seu comportamento 
e o controle da atenção da criança por meio de um gesto indicador e da palavra. Neste caso, a 
organização da atenção está dividida entre duas pessoas: a mãe orienta a atenção e a criança se 
subordina ao seu gesto indicador e à palavra. 
No entanto isto constitui apenas a primeira etapa de formação da atenção arbitrária: trata-se de 
uma etapa exterior pela fonte e social por natureza. No processo de sucessivo desenvolvimento, 
a criança domina a linguagem e torna-se capaz de indicar sozinha os objetos e nomeá-los. A 
evolução da linguagem da criança introduz uma transformação radical na orientação da sua 
atenção. Agora ela já é capaz de deslocar com autonomia a sua atenção, indicando esse ou 
aquele objeto com um gesto ou nomeando-o com a palavra correspondente. A organização da 
atenção, que antes estava dividida entre duas pessoas, a mãe e a criança, torna-se agora uma 
nova forma de organização interior da atenção, social pela -origem mas interiormente mediata 
pela estrutura. É esta etapa a que deve-se considerar etapa do nascimento de uma nova jorma de 
atenção arbitrária, que não é uma forma de manifestação do "espírito livre" primariamente 
própria do homem mas um produto de um complexo desenvolvimento histórico-social. 
Nas etapas posteriores a linguagem da criança se desenvolve; criam-se estruturas intelectuais 
(discursivas) internas cada vez mais complexas e elásticas e a atenção do homem adquire logo 
os traços, convertendo-se em esquemas intelec- 
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tuais internos dirigíveis que são, por si mesmos, um produto da complexa formação social dos 
processos psíquicos. 
Tudo isto mostra que a atenção arbitrária do homens realmente existe com seu caráter elástico 
e independente dai ações exteriores imediatas mas tem caráter determinado expl: cável por ser 
social por origem e mediada por processos :'; linguagem internos por estrutura. 
Na medida em que se desenvolve, os processos de linguagem internos e intelectuais da criança 
vão-se tornando tão complexos e automatizados que a transferência da sua atenção de um objeto 
para outro passa a dispensar esforços especiais e assume o caráter da facilidade e, pareceria da 
"invo-luntariedade" que todos nós sentimos quando em pensamento passamos facilmente de um 
objeto a outro ou quando somos capazes de manter por muito tempo a atenção tensa numa 
atividade que nos interessa. 
Ainda examinaremos os mecanismos das modalidades superiores de atenção depois de 
esclarecermos os problemas da formação dos processos intelectuais complexos. 
Métodos de estudo da atenção 
Os estudos psicológicos da atenção costumam coloco, como tarefa o exame da atenção 
arbitrária: do volume, da estabilidade e distribuição. O estudo das formas mais complexas de 
atenção representa interesse maior do que o estud da atenção involuntária que, em determinado 
grau se revel mediante a aplicação dos procedimentos antes descritos de es tudo do reflexo 
orientado e pode sofrer distúrbio substanci somente nos casos de afecções maciças do cérebro, 
que conduzem a uma redução geral da atividade. 
O estudo do volume da atenção se faz habitualmente po meio da análise do número de 
elementos simultaneament apresentáveis, que podem ser aceitos com clareza pelo sujeito Para 
estes fins usa-se um dispositivo que permite sugerir deter minado número de estímulos num 
espaço de tempo tão curt que o sujeito não consegue transferir o olhar de um objeto a outro, 
excluindo o movimento dos olhos, permite medir o número de unidades acessíveis à percepção 
simultânea. 
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O aparelho empregado para esse fim é chamado taquis-toscópio (do grego taquisto = rápido, 
skopeo = olho). Este aparelho é constituído por uma janelinha, separada do objeto a ser 
examinado por uma tela cadente cujo corte pode mudar arbitrariamente de maneira que o objeto 
em exame aparece no espaço muito breve de tempo de número 10 a 50-100 m/seg. 
Às vezes, para uma exposição rápida do objeto emprega-se o flash, que permite examinar o 
objeto numa fração muito pequena de tempo (até 1-5m/seg.). 
O número de objetos nitidamente percebidos é o que constitui o índice do volume da atenção. 
Se as figuras sugeridas são bastante simples e dispersas desordenadamente num campo 
demonstrativo, o volume da atenção não costuma ir além de 5-7 objetos simultaneamente 
perceptíveis com nitidez. 
Para evitar a influência da imagem consecutiva, costuma-se fazer a exposição breve dos objetos 
sugeríveis ser acompanhada de uma "obliteração da imagem", para que no fundo escuro que 
continua visível se trace para o sujeito um conjunto desordenado de linhas sem mudar a imagem 
dos objetos sugeríveis que se manteve depois de todas as apresentações e é aparentemente 
"obliterante". 
Ultimamente têm sido feitas tentativas de exprimir o volume da atenção em números, adotados 
na teoria da comunicação para medir a "capacidade receptora dos canais" através da aplicação 
da teoria da informação. Mas essas tentativas de mudança do volume da informação em "bits" 
(unidades empregadas pela teoria da informação) têm importância apenas limitada e são 
aplicadas somente àqueles casos em que o sujeito opera com um número final de possíveis 
figuras que conhece bem, das quais apenas algumas lhe são sugeridas para um pequeno espaço 
de tempo. 
O conceito "volume de atenção" é bastante próximo ao conceito "volume de percepção", e os 
conceitos de "campos de atenção nítida" e "campos de atenção confusa", amplamente 
empregado na literatura, são muito próximos aos conceitos de "centro" e "periferia" da 
percepção visual para a qual foram minuciosamente elaborados. 
Paralelamente ao estudo do volume da atenção, é de grande importância o estudo da 
estabilidade da atenção: ele se propõe a estabelecer até que ponto é sólida e estável a