A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 3
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manutenção da atenção por determinada tarefa durante longo tempo, a ver se neste caso se 
observam certas oscilações na 
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estabilidade da atenção e quando surgem ocorrências de fadiga nas quais a atenção do sujeito 
começa a ser desviada por estímulos estranhos. 
Para medir a estabilidade da atenção costuma-se empregar as tabelas de Burdon, que consistem 
numa alternância desordenada de letras isoladas que se repetem, uma por uma, num mesmo 
número de vezes em cada linha. Propõe-se ao sujeito desenhar durante 3-5-10 minutos as letras 
dadas (nos casos simples, uma ou duas letras, nos complexos a letra dada somente se ela estiver 
diante de outra, por exemplo, de umi vogai). O experimentador observa o número de letras 
desenhadas durante cada minuto e o número de omissões encontradas. As oscilações da atenção 
se manifestam na queda da produtividade do trabalho e no aumento do número de omissões. 
São de importância análoga as tabelas de Kraepelin, formadas por colunas de números que o 
sujeito deve ordenar durante um longo período. A produtividade do trabalho e o número de 
erros podem servir de índice de oscilações da atenção. 
Para aumentar as exigências diante da organização arbitrária da atenção, a realização dos 
referidos testes é dificultada pela discriminação dos fatores de abstração. Deste modo, dá-se ao 
sujeito a tarefa de traçar determinadas letras não numa coletânea desordenada como ocorre nas 
tabelas de Burdon mas num texto de conteúdo interessante. Neste caso a influência abstraente 
do texto interessante pode levar ao aumento do número de omissões e a queda da produtividade 
do trabalho; ao contrário, a estabilidade da atenção arbitrária se manifesta no fato de que o 
cumprimento da tarefa exigida continua inalterável mesmo nas condições de introdução de 
influências que abstraem a atenção. 
Reveste-se de grande importância o estudo da distribuição da atenção. Os primeiros 
experimentos de Wundt já mostraram que o homem não pode concentrar a atenção em dois 
estímulos simultaneamente apresentados e que » chamada "distribuição da atenção" entre dois 
estímulos representa de fato uma substituição da atenção, que se transfere rapidamente de um 
estímulo a outro. Isto foi demonstrado com o auxílio do chamado aparelho de complicação, que 
permitia apresentar um estímulo visual (por exem- 
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pio, o ponteiro de um relógio na posição "I" simultaneamente como um estímulo sonoro: um 
som. Os testes mostraram que se os sujeitos prestam atenção ao ponteiro em movimento, têm a 
impressão de que o sinal sonoro que acompanha a passagem do ponteiro ao lado do ponto 
correspondente se atrasa e aparece algumas frações de segundo após; se eles prestam atenção ao 
som, a percepção do ponteiro em movimento se atrasa e os sujeitos relacionam o surgimento do 
som com um momento anterior. 
Tem grande importância prática o estudo da distribuição da atenção num trabalho demorado; 
para este fim, aplicam-se as chamadas "tabelas de Schullt". Nestas apresentam-se duas séries de 
números vermelhos e negros dispostos desordenadamente. O sujeito deve indicar em ordem 
sucessiva uma série de números, alternando cada vez o número vermelho e um negro ou indicar, 
em condições dificultadas, os números vermelhos em ordem direta e os negros em ordem 
inversa. 
A possibilidade de distribuição demorada da atenção é expressa por uma curva, que indica o 
tempo gasto para descobrir cada um dos números que fazem parte de ambas as séries. 
Como mostraram as pesquisas, aparece com a mesma nitidez as diferenças individuais em 
sujeitos isolados; tais diferenças podem refletir com segurança algumas variações de intensidade 
e mobilidade dos processos nervosos, podendo ser empregadas com êxito para fins diagnósticos. 
Desenvolvimento da atenção 
Os indícios do desenvolvimento da atenção involuntária estável manifestam-se nitidamente nas 
primeiras semanas de vida da criança. Podem ser observado nos primeiros sintomas de 
manifestação do reflexo orientado: a fixação do objeto pelo olhar e a interrupção dos 
movimentos de sucção à primeira vista dos objetos ou com a manipulação destes. Pode-se 
afirmar com todo fundamento que os primeiros reflexos condicionados começam a formar-se 
no recém-nascido com base no reflexo orientado, noutros termos, somente se a criança presta 
atenção ao estímulo, discrimina-o e se concentra nele. 
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A princípio a atenção involuntária da criança dos primeiros meses de vida tem caráter de um 
simples reflexo orientado de estímulos fortes ou novos, de acompanhamento destes estímulos 
com o olhar, de "reflexos de concentração" nestes. Só mais tarde a atenção involuntária da 
criança adquire formas mais complexas e à base dela começa a formar-se a atividade orientada 
de pesquisa em forma de manipulação dos objetos; nos primeiros tempos, porém, essa atividade 
orientada de pesquisa é muito instável, bastando aparecer outro objeto para cessar a 
manipulação do primeiro objeto. Isto mostra que no primeiro ano de vida da criança o reflexo 
orientado da busca já tem caráter rapidamente esgotante, é facilmente inibido por influências de 
fora e ao mesmo tempo já apresenta os traços de "habituação" que conhecemos, podendo 
extinguir-se com repetições longas. No entanto, o problema mais importante é o 
desenvolvimento das formas superiores de atenção arbitrariamente reguláveis. Essas formas de 
atenção se manifestam antes de tudo no surgimento de formas estáveis de subordinação do 
comportamento de instruções verbais do adulto que regulam a atenção e, bem mais tarde, na 
formação das formas estáveis da atenção arbitrária auto-reguladora da criança. 
Seria incorreto pensar que essa atenção orientadora, que regula a influência da fala, surge 
imediatamente na criança. Os fatos mostram que a instrução verbal "dá a boneca!" provoca na 
criança apenas uma reação orientada genérica e só atua sobre ela se for acompanhada pela ação 
real do adulto. É característico que, nas primeiras etapas, a fala do adulto que nomeia o objeto 
atrai a atenção da criança se a nomeação do objeto coincide com a percepção imediata da 
criança. Nos casos em que não há o objeto nomeado no campo de visão imediato da criança, a 
fala provoca nela apenas uma reação orientada genérica que logo se extingue. 
Só ao término do primeiro ano de vida e ao início do segundo é que a nomeação do objeto ou a 
ordem verbal começa a ter influência orientadora e reguladora; a criança dirige o olhar para o 
objeto nomeado, distingue-o entre outros ou procura caso o objeto não esteja aos seus olhos. 
Mas nessa etapa a influência da fala do adulto, que orienta a atenção da criança, é ainda muito 
instável e a reação orientada por ele provocada dá rapidamente lugar a uma reação mediata 
orientada para o objeto mais nítido, novo ou interessante para a 
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criança. Isto pode ser nitidamente observado se transmitirmos à criança dessa idade a instrução 
de dar um objeto situado a alguma distância dela. Neste caso a vista da criança se dirige para o 
objeto mas se desvia rapidamente para outros objetos mais próximos e a criança começa a 
estender o braço não para o objeto mencionado mas para o estímulo mais próximo ou mais 
nítido. 
Apenas em meados do segundo ano de vida, o cumprimento da instrução verbal do adulto, que 
orienta a atenção seletiva da criança, torna-se mais estável embora uma complicação 
relativamente significativa da experiência elimine facilmente a sua influência. Deste modo, é 
bastante adiar por algum tempo (às vezes por 15-30 segundos) o cumprimento de uma instrução 
verbal para que esta perca a sua influência orientadora e a criança, que a cumpria facilmente e 
sem demora, comece a voltar-se para objetos estranhos que lhe atraem imediatamente a atenção. 
A mesma frustração