A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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Vê-se facilmente como é rico o sistema de recursos sintáticos objetivos, que o homem recebe em forma 
pronta na língua e que lhe permitem refletir independentemente, se\u2014 apelar para recursos estranhos, 
extralingüísticos, acontecimentos altamente complexos e formular a própria atitude do f lante em relação 
ao fato. 
Principais tipos de enunciados 
O psicólogo, que estuda a língua como um sistema códigos que permitem refletir a realidade exterior e 
formular pensamentos, deve estudar atentamente não só os meios at~ vés dos quais se formula um 
enunciado, mas também os ti de comunicações básicas que podem ser transmitidas pel recursos da 
língua. 
Em lingüística costumam-se distinguir dois tipos básicas de comunicação, que costumam ser expressos 
nos termos COMUNICAÇÃO do evento e comunicação da relação. Esses d tipos de comunicação usam os 
mesmos recursos gramaticais externos, mas se distinguem profundamente entre si. 
Entende-se por comunicação do evento a comunica acerca de algum fato externo, expresso na oração. 
A simples 
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combinação do sujeito com o predicado ("a casa arde", "o menino come"), assim como as 
combinações complexas em que se manifesta a relação evidente do sujeito com o objeto ("o 
garoto espancou o cão", "o homem racha lenha") são um exemplo típico de "comunicação do 
evento". Um traço característico desse tipo de comunicação é o fato de que aquilo que é 
representado por um sistema de palavras pode ser muito bem expresso num quadro direto, por 
outras palavras, o conteúdo figurado-direto predomina nitidamente nesse tipo de comunicação 
sobre o conteúdo lógico-verbal. Neste tipo de comunicações desempenham importantíssimo 
papel os meios extralingüísticos diretos em forma de conhecimento da situação, os gestos 
indicadores ou descritivos, as entonações complementares, etc. 
É totalmente distinto o caráter da "comunicação da relação". Existem enunciados que não 
significam qualquer evento, mas formulam certas relações. Situam-se entre estes as construções 
do tipo "Sócrates é um homem", "o cão é um animal" ou construções gramaticais como "o 
irmão do colega", "o cão do patrão", etc. 
O significado dessas construções não pode ser transmitido em quadros diretos. Estes não 
expressam os eventos reais que os objetos integram, mas a relação lógica entre as coisas e são 
empregados como meios de formalização de um pensamento não tão figurado-direto quanto 
lógico verbal mais complexo. É natural que uma situação direta, um gesto indicador ou 
descritivo, a mímica ou a entonação não possam ajudar a revelar o significado dessas 
construções; toda a plenitude das relações por elas expressas deve ser traduzida somente pela 
estrutura gramatical das palavras que as compõem. 
Em alguns casos, que constituem interesse especial, o verdadeiro significado da "comunicação 
da relação" pode entrar em conflito com a sua percepção imediata direta. Servem de exemplo as 
construções com uma das variantes do genitivo ("atributo paterno"): a expressão "irmão do pai", 
que externamente cria a impressão de tratar-se de duas pessoas, não significa, em hipótese 
alguma, "irmão" ou "pai", mas uma terceira pessoa \u2014 "tio": a referência "pai" não tem aqui 
significado de substantivo, mas de atributo, adjetivo, razão por que a expressão pode ser 
facilmente substituída por "irmão paterno", sendo que, em algumas línguas como a russa, a 
primeira palavra é expressa por um adjetivo e se coloca 
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no primeiro lugar como todos os outros adjetivos da língua russa ("paterno irmão", "bom tio", 
"alta árvore", etc). 
Peculiaridades análogas distinguem também as complexas construções gramaticais, onde a 
ordem das palavras não coincide com a ordem dos fatos significados na frase como, por 
exemplo, "eu desjejuei depois de ter lido o jornal", onde uma "subversão" mental da ordem das 
palavras se faz necessária para compreender o significado dessa oração. 
O verdadeiro significado da construção gramatical, expresso pelos recursos especiais da 
subordinação gramatical de uma palavra a outra, entra aqui em conflito com a referência 
material direta de cada palavra e requer operações mentais especialmente complexas, que 
dificultam as impressões imediatas e transferem totalmente o processo do plano direto para o 
plano das operações lógico-verbais abstratas. 
Semelhantes construções gramaticais complexas, nas que a representação de uma determinada 
relação lógica transfere-se inteiramente para os recursos da língua, constituem par.i considerável 
daquelas matrizes lógico-verbais que servem de base às formas complexas de pensamento, 
revestindo-^ de grande interesse, por isto, a análise psicológica dos processos intelectuais 
indispensáveis às operações bem-sucedidas 
Evolução das estruturas lógico-gramaticais do enunciado: 
A descrição dos métodos básicos e dos tipos de estruturas lógico-gramaticais do enunciado 
verbal permite ve: quanto é complexo o caráter das matrizes da linguagem : \u2014 formam o 
pensamento, o quanto o processo de reflexão : acontecimentos e de reflexos na fala pode 
separar-se das ±i da percepção direto-figurada imediata. 
Impõe-se uma pergunta natural: como surgiram os dos lógico-gramaticais de formação do 
pensamento e mudanças eles sofreram no processo de desenvolvimento-histórico? 
Seria incorreto pensar que semelhantes formas 1' gramaticais da língua surgiram de imediato 
e que esta, as primeiras etapas de sua formação, tornou-se o mesmo de formação do pensamento 
abstrato que hoje conhecemos. 
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A língua nem sempre possuiu recursos complexos de expressão das relações, razão por que a formação da 
língua, como sistema de códigos que se bastam por si mesmos para formular qualquer vínculo ou relação, 
é produto de dezenas de milhares _ de anos de desenvolvimento histórico. 
Já dissemos que a protolíngua, cuja existência os estudiosos situam entre os primórdios da história da 
humanidade, não se baseia no sistema de palavras de significado sólido permanente; dissemos que as 
"palavras" da protolíngua eram antes exclamações entrelaçadas na ação prática imediata e seu sentido 
tornou-se inteligível somente a partir da situação prática em que elas surgiram e dos gestos e entonações 
que as acompanharam. 
Nos primórdios da paleontologia da fala, a língua ainda não era um sistema de códigos permanentes, 
capazes de transmitir informação, e o papel decisivo na transmissão desta era desempenhado por fatores 
extralingüísticos como o conhecimento da situação, os gestos indicadores, a mímica e a entonação. Esta 
fase do desenvolvimento da língua pode ser denominada, por isto, de fase não diferenciada da fala 
inteiramente simprática. 
A contínua evolução da língua é um processo de emancipação gradual em relação aos meios 
extralingüísticos (sim-práticos) e ao desenvolvimento dos códigos complexos através dos quais a língua 
se torna gradualmente um sistema capaz de formular por si mesmo quaisquer conexões e relações. 
Um exemplo disto podemos encontrar nas línguas mais antigas, que até recentemente não tinham escrita 
própria e cuja estrutura ainda apresenta traços de um relativo primitivismo. Entre estas situam-se muitas 
línguas paleoasiáticas (do norte), nas línguas polinésias e as línguas dos índios americanos. 
Estas línguas apresentam como traço característico o fato de que, possuindo um conjunto bastante rico de 
significados verbais, elas não possuem um sistema de códigos gramaticais que se bastem por si mesmos 
para expressar quaisquer conexões e relações. 
Assim sendo, na língua dos aleútes existem dois casos: um caso direto, que representa o sujeito-agente 
(sujeito), e um caso indireto, que representa qualquer objeto ao qual se destina a ação; isto não significa, 
porém (como costuma ocorrer nas