A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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entre eles Külpe, Messer, Bühler, Ach) achavam que o "pensamento puro" nada tem em comum 
com as imagens nem com as palavras. Ele se reduz aos esquemas espirituais internos ou 
"estados emocionais lógicos" que só posteriormente se revestem de palavras como o homem 
veste sua roupa. Outros psicólogos, adeptos do campo materialista, tiveram todo fundamento 
para duvidar de que o pensamento seja uma formação psíquica acabada, que precisa apenas 
"materializar-se" nas palavras. Estes psicólogos externaram a hipótese de que o "pensamento" é 
apenas uma etapa situada entre o motivo básico e a linguagem externa definitiva e ampla, 
permanecendo impreciso e difuso enquanto não adquire seus contornos nítidos na linguagem. 
Seguindo Vigotsky, esses pesquisadores afirmavam que o pensamento não se materializa mas se 
realiza, se forma na palavra. Entenderemos por pensamento ou idéia o esquema geral do 
conteúdo que deve materializar-se no enunciado, considerando que antes dessa materialização o 
pensamento tem o caráter mais genérico, vago e difuso e amiúde dificilmente se presta à 
formulação e à consciência. 
A etapa seguinte no caminho da preparação do enunciado tem importância especial. Durante 
muito tempo ela perma- 
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neceu inteiramente desconhecida e só depois das pesquisas de Vigotsky foi demonstrada a importância 
decisiva dela para a recodificação da idéia numa linguagem ampla e para a criação do esquema gerativo 
do enunciado verbal amplo. Temos em vista o mecanismo que em Psicologia é denominado linguagem 
interna. 
A Psicologia moderna é a que menos entende por linguagem interna a simples pronúncia das palavras e 
frases do falante para si e não acha que a linguagem interna tenha a mesma estrutura e as mesmas funções 
que apresenta a linguagem externa ampla. 
A Psicologia subentende por linguagem interna uma etapa transitória essencial entre a idéia 
("pensamento") e a linguagem externa desenvolvida. O mecanismo que permite recodificar o sentido 
geral em enunciado verbal dá a essa idéia uma forma verbal. Neste sentido a linguagem interna é um 
processo que gera o enunciado verbal desenvolvido, que insere a idéia inicial no sistema de códigos 
gramaticais da língua. 
A posição transitória que a linguagem interna ocupa na trajetória entre o pensamento e o enunciado amplo 
determina os traços fundamentais tanto da função quanto de sua estrutura psicológica. 
A linguagem interna é, acima de tudo, não um enunciado verbal desenvolvido, mas tão-somente um 
estágio preparatório anterior a esse enunciado; ela não se destina ao ouvinte mas a si mesma, à passagem, 
para o plano da linguagem, do esquema que antes era apenas o conteúdo geral da idéia. Esse conteúdo o 
falante já conhece em linhas gerais, pois já sabe justamente o que quer dizer embora ainda não saiba em 
que forma e em que estruturas de linguagem pode formular o seu enunciado. Ocupando posição 
intermediária entre a idéia e a linguagem desenvolvida (ampla), a linguagem interna tem caráter sucinto, 
reduzido, que derivou geneticamente da redução paulatina, da redução da linguagem sucinta da criança, 
passando pela fala murmurada que se transforma em linguagem interna, sendo esta antes a indicação do 
tema geral ou do esquema geral do sucessivo enunciado desenvolvido, mas nunca a sua completa 
reprodução. 
A linguagem interna, que formula o conteúdo do pensamento, é conhecida pelo homem e tem caráter não 
apenas conciso mas também predicativo. Ela realiza o esquema ver- 
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bal do enunciado posterior e gera as formas desenvolvidas deste; por isto encontramos na 
linguagem interna as indicações gerais do tema do enunciado posterior, expressas às vezes por 
apenas uma palavra inteligível somente ao próprio sujeito e que apresenta, às vezes, a forma de 
fragmento de linguagem que indica os elementos mais importantes do enunciado posterior; este 
formula, em termos concisos, embrionários, justamente aquilo que deve constituir o conteúdo da 
linguagem desenvolvida posterior. 
A Psicologia ainda não estudou adequadamente a estrutura e os mecanismos funcionais da 
linguagem interna. Ela ainda sabe muito pouco a respeito de como esses esquemas predicativos 
concisos, situados entre o pensamento e o enunciado verbal, efetuam a transformação do 
pensamento num sistema de códigos desenvolvidos da língua. É sabido que os processos da 
linguagem interna se formam na infância a partir da fala "egocêntrica" desenvolvida, reduzindo-
se gradualmente e transformando-se em linguagem interna através da fala sussurrada. Ao que 
parece, é justamente a origem da linguagem interna derivada da externa que lhe permite realizar 
um processo inverso, gerar o esquema gramatical do enunciado desenvolvido, levando ao 
surgimento das matrizes lógico-gramaticais que permitem realizar posteriormente a linguagem 
desenvolvida externa. Os fragmentos ativos da linguagem interna surgem a cada dificuldade e 
desaparecem quando o processo de pensamento se automatiza e perde o ativo caráter criativo; é 
justamente isto que sugere a grande importância da linguagem interna para os processos de 
pensamento discursivo. 
Este último fato é mostrado com êxito por testes especiais de registro eletromiográfico de 
movimentos agudos do aparelho fonador (língua, lábios, laringe) que surgem sempre que há 
preparação para o enunciado desenvolvido ou em cada ato de pensar. 
Como mostraram as pesquisas de alguns autores (particularmente as de A. N. Sokolov), cada 
proposta de resolver uma tarefa complexa provoca no sujeito um grupo de nítidas descargas 
elétricas nos músculos do aparelho fonador e elas não se manifestam em forma de linguagem 
externa, mas sempre antecedem à solução da tarefa. 
É característico que os componentes da linguagem interna, descritos por esse autor, surgem em 
qualquer atividade 
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intelectual (até mesmo naquela que antes não se considerava verbal) e essas descargas 
eletromiográficas, que são sintomas da linguagem interna, só desaparecem nos casos em que a 
atividade intelectual assume caráter habitual, bem automatizado. O papel gerador da linguagem 
interna, que leva à reanimação das estruturas gramaticais da linguagem desenvolvida 
anteriormente assimiladas, leva à última etapa do processo que nos interessa \u2014 ao surgimento 
de um enunciado verbal desenvolvido, no qual a linguagem começa a basear-se em todos os 
esquemas lógico-gramaticais e sintáticos da língua. A estrutura do enunciado desenvolvido 
pode, em diversos casos, apresentar caráter diferente e variar dependendo do caráter do 
enunciado verbal. 
Cabe um exame especial dos tipos básicos de enunciado verbal, altamente importantes para a 
Psicologia. 
Tipos de enunciado verbal e sua estrutura 
Abordamos a estrutura do enunciado verbal e seus componentes isolados. Cabe agora examinar 
os diversos tipos de enunciado verbal que apresentam estrutura inteiramente diversa e nos quais 
a correlação dos elementos que acabamos de descrever pode ser totalmente distinta. 
O enunciado verbal pode apresentar duas modalidades básicas: uma de linguagem falada e outra 
de linguagem escrita. A diferença entre elas consiste em que cada uma usa diferentes meios de 
expressão da linguagem bem como na estrutura psicológica; simultaneamente, cada uma 
apresenta as suas variedades. 
Uma estrutura mais simples distingue a linguagem emotiva verbal, que só pode ser denominada 
linguagem em ternos condicionais. A ela pertencem exclamações como oh!, f*-mas também 
chavões de linguagem como vá para o inferno!, etc. 
Nessa forma a linguagem não tem nem um motivo preciso (pedido, ordem, informação); seu 
lugar é ocupado pelo tensão emocional que tem a sua descarga na exclamação Nela não há etapa 
da idéia ou pensamento, que inclui o esquema geral do enunciado posterior;