A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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coincide com a intenção inicial caso esse efeito não conduza ao 
resultado necessário e entre a intenção inicial e o efeito da ação continue a existir certa 
"divergência", incorporando-se automaticamente novas buscas da solução necessária, que 
continuam até que a solução seja encontrada. 
O comportamento "intelectual" tem um expresso caráter direto, pois até as suas formas mais 
elevadas continuam mantendo a mais estreita ligação com a percepção e ocorrem nos limites do 
campo imediatamente perceptivo. Somente no homem, que inaugura a fase de transição para o 
trabalho social, com o surgimento das ferramentas e da linguagem, esse caráter direto do 
comportamento intelectual cede o lugar a novas formas. A assimilação de formas novas 
historicamente surgidas de atividade material, o domínio da linguagem, que permite uma 
codificação abstrata da informação, levam o homem a modalidades inteiramente novas de 
atividade de pesquisa e orientação. Esta deixa de ocorrer no campo direto, separa-se da situação 
imediatamente perceptível. O homem está em condições de formular em palavras a sua tarefa, 
de 
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assimilar os princípios abstratos de sua solução; ele se torna capaz de transmitir a estratégia de sua 
atividade, apoiando-se não em imagens diretas mas em esquemas abstratos de linguagem, e seus planos e 
programas de ação assumem caráter livre, tornando-se independentes da situação imediata. Surgem-lhe 
novas formas de comportamento autenticamente intelectual, no qual as tarefas complexas se resolvem 
inicialmente no "plano mental", concretizando-se posteriormente em ações exteriores. Muda a correlação 
dos processos psíquicos fundamentais. Se antes a atividade intelectual subordinava-se inteiramente à 
percepção direta, agora a percepção muda sob a influência dos esquemas abstratos que se formam com 
base na assimilação da experiência histórica e do domínio dos códigos abstratos da linguagem. 
Produz-se um salto do sensorial ao racional, modificando de tal modo as leis básicas da atividade 
psíquica, que os clássicos da filosofia materialista tiveram fundamento para considerá-lo um 
acontecimento tão importante quanto o salto que ocorre na transição do inanimado para o animado ou na 
passagem do mundo vegetal para o animal. 
Agora passaremos à análise das formas básicas de atividade intelectual do homem, e começaremos pela 
análise das formas mais simples de atividade intelectual direta. 
A atividade intelectual direta 
A atividade intelectual dos animais superiores, sobretudo dos macacos, estudados minuciosamente por 
Kõhler, apresenta grande ligação com as condições do campo visual imediatamente perceptível. O 
macaco relaciona os objetos no campo visual imediato com relativa facilidade e sente dificuldades se tiver 
de operar com elementos de uma situação que não façam parte de um campo de visão, pois ele não tem 
condições de ir além dos limites de uma situação direta e subordinar o seu comportamento a princípios 
abstratos. 
É totalmente diferente o caráter da atividade intelectual prática do homem. Vários estudiosos não-
soviéticos costumam separar a atividade intelectual prática da atividade intelectual teórica e considerar 
que ela ocorre no plano intei- 
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ramente direto, sem qualquer participação considerável do discurso. 
Esse ponto de vista revelou-se profundamente errôneo. Como mostraram as pesquisas, a 
atividade prática concreta ocorre nos limites do campo direto e subordina-se inteiramente às leis 
da percepção direta imediata da criança pequena. Nesta, não obstante, ela logo passa a ser 
determinada pela comunicação com os adultos, assumindo posteriormente caráter complexo 
especificamente humano, abrangendo novas formas de análise verbal e planejamento verbal da 
atividade intelectual. 
Somente na criança de 2-2,5 anos podemos observar a completa dependência do ato 
"intelectual" em relação à percepção visual direta. 
Se estendermos diante da criança três linhas, fixando a uma delas um objeto que lhe chame a 
atenção, ela agarra facilmente a linha necessária e a puxa para si. Se afastarmos para um lado a 
linha a que está fixado o objeto, a criança não tem condições de distinguir o devido extremo e 
costuma puxar a linha situada num espaço mais próximo do objetivo. 
O mesmo ocorre se apresentarmos à criança uma alavanca com um objeto que lhe chame a 
atenção, fixado num extremo e, no outro, uma caneta. Neste caso a criança de 2-2,5 anos ou 
começa a estender o braço diretamente para o objeto, ou a puxar a caneta em sua direção, 
afastando, assim, o objeto que o atrai. A criança não pode reagir às "regras" da alavanca em vez 
do campo diretamente perceptível e as inúmeras repetições do teste não surtem o efeito 
necessário. 
Com a evolução da criança, muda o caráter motor sensorial das ações, distingue-se uma fase 
especial de orientação prévia numa situação. A criança começa a resolver a tarefa prática que» 
lhe foi sugerida, examina inicialmente a situação para posteriormente subordinar suas ações a 
um plano elaborado no processo de orientação prévia. 
Essa distinção do estágio de orientação prévia na tarefa aumenta substancialmente a 
possibilidade de êxito de sua solução. 
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Psicólogos soviéticos examinaram como se forma gradualmente na criança a solução organizada 
da tarefa de encontrar o caminho necessário num labirinto muito simples. Com a transição da 
idade pré-escolar inicial à final, um maior número de crianças começa a orientar-se previamente 
nas condições do labirinto. Nos testes em que a criança recebe a tarefa de examinar previamente 
o necessário caminho em um labirinto e apenas depois disto começar a agir, uma criança de 4-5 
anos cumpre tal tarefa com bastante liberdade, a criança de 5-7 anos a resolve com absoluta 
correção, ao passo que continua cometendo muitos erros nas tentativas de solução imediata da 
tarefa (sem orientação prévia nas condições). 
Por conseguinte, nas crianças de 4-5 anos forma-se um novo tipo de comportamento, no qual se 
separa uma fase de orientação prévia nas condições da tarefa e do esquema de sua sucessiva 
solução. 
Estudos posteriores mostraram que a discriminação da orientação prévia nas condições da tarefa 
ocorre paulatinamente, tendo inicialmente caráter de testes eficientes prévios e só mais tarde 
esses testes eficientes são substituídos pela análise direta da situação que ocorre no processo de 
exame das condições da tarefa. Esse processo se manifesta nitidamente nos testes especiais, nos 
quais a criança deve resolver a tarefa manipulando corretamente a alavanca; em alguns casos, 
dava-se-lhe oportunidade de fazer testes eficientes prévios, permitindo-lhe, noutros casos, 
apenas examinar previamente o quadro que representasse o esquema desse teste. 
A orientação por meio de testes eficientes produz um índice de soluções acertadas das tarefas 
consideravelmente maior do que um simples exame direto do esquema da tarefa sugerida à 
criança. ' 
Nas fases posteriores de desenvolvimento da criança (de 6-7 em diante), através dos testes 
eficientes diretos, a orientação desenvolvida se torna acessível e o processo de orientação prévia 
assume o caráter de ação intelectual interna. Mas seria errôneo pensar que o desenvolvimento 
das formas complexas de comportamento intelectual da criança ocorre pela via simples de 
transição paulatina de testes amplos diretos para a discriminação da fase de orientação prévia 
nas condições da tarefa, graças à análise interna' desta. Em suas primeiras observações em torno 
do comportamento do recém- 
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nascido, Kurt Lewin e seus colaboradores observaram o seguinte: ao tentar inutilmente alcançar 
um objeto que lhe atrai a atenção, a criança, no segundo ano de vida, interrompe amiúde as suas 
tentativas diretas e