A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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suas réplicas, gestos e entonações para obter um exemplo de 
linguagem monológica "dramatizante". 
A segunda forma de linguagem monológica verbal é freqüentemente apresentada como 
linguagem épica. Esta não é acompanhada de gestos e entonações, não usa formas do discurso 
direto nem recorre a meios extralingüísticos de expressão tão ricamente empregados pela 
linguagem "dramatizadora". A linguagem "épica", sem se basear em meios extralingüísticos, 
pode expressar os mais complexos conteúdos, no entanto deve usar inteiramente os códigos 
lógico-gramaticais da língua que nela contenham os meios fundamentais senão os únicos de 
transmissão de informação. Pode servir de protótipo à forma de linguagem monológica verbal a 
epopéia dos narradores, que, a acreditar-se na lenda, pôde ser transmitida pelo cego Homero 
sem o uso de quaisquer meios suplementares externos de expressão. 
É natural que a forma "épica" de monólogo deva basear-se numa forma gramatical máxima e 
todos os códigos lingüísticos (lexicais e sintáticos) devam ser nela usados com a máxima 
plenitude. 
A última e mais complexa modalidade de enunciado é i linguagem monológica escrita. 
À diferença da linguagem falada, a linguagem monológica escrita »é uma linguagem sem 
interlocutor ou com ausência deste, às vezes com interlocutor imaginário. Este fato lhe 
determina a estrutura psicológica. 
A linguagem monológica escrita deve parte de determinado motivo e tem uma idéia bastante 
precisa. O pensamento, suscetível de codificação no enunciado amplo da linguagem, nunca se 
dá aqui em forma acabada em que a formula 
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o interlocutor, participante do diálogo. Nos casos em que aquele que recorre à narrativa 
monológica escrita transmite um conteúdo já acabado, o esquema geral de pensamento deve ser 
extraído de sua experiência anterior, conservada em sua memória. Neste caso esse esquema é 
decodificado segundo as leis de memorização lógica que acima abordamos. Nos casos em que a 
linguagem monológica escrita formula uma idéia nova, elaborada de modo ainda insuficiente e 
cujos detalhes ainda não estão bastante claros para o próprio sujeito, a preparação do enunciado 
pode assumir formas complexas. Por isto a idéia geral deve ser recodificada num complexo 
programa semântico de enunciado amplo, devendo elos isolados desse programa ser precisados 
e sua ordem estabelecida. A atividade preparatória, que parcialmente pode ter caráter externo, 
emprega vários suportes, registros ou notações fragmentárias, mas sempre se apoia amplamente 
nos mecanismos da linguagem interna, assume caráter especialmente complexo. Basta 
examinarmos atentamente protótipos de preparação da exposição escrita ampla como aqueles 
empregados por Tols-tói, Flaubert, para vermos toda a complexidade da codificação prévia do 
pensamento; uma parte considerável deste recai sobre trechos da linguagem interna e constitui a 
essência daquelas tentativas angustiantes de "concretização da idéia na palavra" que 
caracterizam toda criação. 
A linguagem monológica escrita apresenta como peculiaridade essencial o fato de não ter 
possibilidade de apoiar-se em quaisquer meios extrcãingüísticos \u2014 conhecimento da situação, 
gestos, mímica e entonação (esta última é substituída apenas parcialmente pelos recursos da 
pontuação e discriminação de palavras e frases isoladas de que dispõe a linguagem escrita). 
A linguagem monológica escrita é forçada a apoiar-se num amplo sistema de códigos lógico-
gramaticais da língua, que se tornam o único meio de transmissão da informação complexa, 
tornando-se, assim, inadmissíveis quaisquer abreviaturas ou elipses. Basta comparar a estrutura 
gramatical do enunciado verbal (com sua imperfeição e suas elipses, que são compensadas por 
gestos e entonação) com a estrutura ampla e gramaticalmente plena da linguagem escrita, para 
ver isto com bastante clareza; se nas primeiras etapas de assimilação da linguagem escrita a 
pessoa continua a inserir nela locuções 
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da linguagem falada (basta lembrar o estilo de escrita da pessoa que não está habituada à exposição 
escrita), sucessivamente a influência da estrutura da linguagem falada na formação da exposição 
monológica escrita desaparece e a linguagem escrita se forma como forma autônoma especial d; 
linguagem, que requer a máxima preparação e o mais completo emprego dos códigos lógico-gramaticais 
da língua. 
Até agora falamos de enunciado verbal como forma de comunicação entre as pessoas, ou seja, como meio 
de transmissão de informação. 
No entanto as linguagens falada e escrita têm outra importante função: são um meio de retoque do 
pensamento e desempenham importante papel no aprimoramento da atividade propriamente intelectual 
do sujeito. 
O fato de o pensamento codificar-se na linguagem pare adquirir clareza^ autêntica foi expresso por 
Vigotsky na fórmula "o pensamento se realiza na palavra". Isto indica o significado que a formulação da 
idéia na linguagem tem par: precisar o pensamento, para que o seu esquema geral se torne um programa 
amplo, se inclua num sistema de ligações t relações que se manifestam nos amplos códigos lógico-
gramaticais da língua. 
Por isto a codificação do pensamento no enunciado verbal tem importância decisiva tanto para a 
transmissão da informação a outra pessoa, quanto para precisar a idéia para c próprio falante. Eis por que 
a linguagem ampla não i apenas um meio de comunicação, mas também um veícide do pensamento. 
Esse fato sugere nitidamente a segunda função da linguagem: seu papel na elaboração da idéia, na sua 
prepara: a: para a atividade intelectual. Ao mesmo tempo, tal função indica ainda a natureza social da 
atividade intelectual do homem, que o distingue radicalmente do animal. 
Patologia do enunciado verbal 
A estrutura psicológica do enunciado verbal se torna-a nítida se observarmos as formas das perturbações 
que se manifestam em estados patológicos particulares do cérebro, especialmente nas afecções locais. 
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Abordaremos apenas os aspectos da patologia do enunciado verbal, que mostram a natureza psicológica 
normal, omitindo o problema dos mecanismos fisiopatológicos desse enunciado. 
As formas mais maciças de perturbação do enunciado verbal surgem com a perturbação dos motivos que 
lhe servem de base. Isto surge com a afecção das áreas cerebrais profundamente localizadas, que levam à 
redução geral do tônus do córtex e suscitam ocorrência de acinesia e bloqueio dos processos psíquicos. 
Semelhantes perturbações se verificam no período inicial de saída dos estados de inibição patológica, em 
conseqüência de traumas latentes do crânio e inchações do cérebro situadas em profundidade e que 
influem no hemisfério esquerdo. Esses estados apresentam como peculiaridades características o fato de 
que o doente não faz quaisquer tentativas para produzir enunciados verbais ativos e depois do 
desaparecimento do fator patológico primário os enunciados verbais podem tornar a manifestar-se na 
forma anterior. 
Semelhantes fatos são observados também nos casos de afecção grave dos lobos frontais do cérebro 
(especialmente DOS casos de ocorrência de tumores localizados em profundidade no lobo frontal, que 
exercem influência sobre as funções normais do hemisfério esquerdo). Nestes casos a espontaneidade 
geral do doente provoca tanto perturbação profunda dos motivos, quanto destruição profunda da idéia do 
enunciado. Os doentes manifestam "acinesia verbal" típica, com a única diferença de que tanto a fala 
ecolálica (imitação da fala do pesquisador), quanto as respostas monossílabas simples ou estereótipos 
podem permanecer intactas, ao passo que o discurso ativo, que é exprimido por desejos e exigências ou 
tem caráter narrativo, aqui desaparece. Cabe observar que a estrutura gramatical do discurso permanece