A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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(conhecimento da situação, gestos, mímica, entonação), 
o que não se verifica no enunciado escrito. Por isto é absolutamente natural que a interpretação do 
enunciado verbal, baseada não só na decodificação das estruturas lógico-gramaticais da linguagem, mas 
também na consideração de todos os meios extralingüísticos de comunicação, processe-se de maneira 
inteiramente diversa da decodificação do texto escrito, pois este carece de todos aqueles suportes 
suplementares e requer uma decodificação especialmente minuciosa das estruturas gramaticais que a 
compõem. 
É dispensável dizer que a interpretação da linguagem do interlocutor no diálogo permite basear-se nos 
contextos extralingüísticos, simpráticos, de maneira bem mais ampla do que a interpretação da linguagem 
verbal monológica e que a decodificação de ambas as formas de linguagem processar-se-á segundo leis 
inteiramente diversas. 
A interpretação de um texto descritivo, narrativo, explicativo e artístico (psicológico) coloca o 
interpretar
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^ diante de tarefas completamente diferentes e requer uma profundidade de análise 
inteiramente distinta: para interpretar uma linguagem descritiva é bastante entender o significado direto 
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das frases (às vezes dificultado pela compreensão do contexto comum); no discurso narrativo, a 
interpretação do contexto geral é muito mais importante; no texto explicativo (científico), a 
compreensão do contexto geral é apenas um; etapa inicial que deve passar à comparação dos 
componente; isolados, ao cotejo destes entre si e à decodificação do sentido geral ou da lei 
geral, cuja argumentação ou ilustração t constituída pelos fatos apresentados na comunicação. 
Pc: último, a interpretação de um texto artístico (que à primeira vista pode parecer 
insignificante) pressupõe um processo mais complexo de decodificação com a passagem 
subseqüente d: texto ao contexto, do conteúdo externo ou da idéia geral ; uma análise profunda 
do sentido e dos motivos que às vezes devem basear-se não no simples processo de 
decodificação lógica, mas nos fatores de decodificação emocional chamados de conhecimentos 
"intuitivos". 
O grau de conhecimento contido do material comunicável quase chega a ser o fator mais 
importante que determina a estrutura psicológica do processo.de decodificação da comunicação 
interpretável. 
É sabido que a interpretação ,de uma informação bem conhecida não requer uma decodificação 
minuciosa das estruturas lógico-gramaticais do texto interpretado, que pode realizar-se "por 
conjeturas", com base na interpretação ás apenas alguns fragmentos (às vezes insignificantes) 
que fazem surgir situações conhecidas na consciência do interpretador. Por isto todo o processo 
de decodificação de uma informação conhecida esgota-se freqüentemente com a simples 
discriminação das' referências a uma situação determinada e DO cotejo subseqüente da hipótese 
que vem à cabeça do homens com os detalhes posteriores da informação. Por isto a 
decodificação de uma informação bem conhecida não requer um trabalho minucioso sobre o 
texto sendo antes um processo de identificação do sentido que a sua dedução posterior de uma 
decodificação longa da informação. 
É inteiramente diversa a estrutura psicológica que caracteriza o processo de interpretação de um 
texto desconheci:' Aqui não pode haver quaisquer conjeturas extra contextuais pois estas não 
levam a uma decodificação bem-sucedida :: conteúdo da informação. A pessoa que se vê diante 
da tare:. de decodificar uma informação que lhe é desconhecida p::: 
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basear-se somente na estrutura lógico-gramatical dessa informação e deve percorrer todo o caminho 
complexo, partindo da decodificação de frases isoladas, comparando-as em seguida entre si e tentando 
discriminar o sentido original que elas desenvolvem e terminando na análise do sentido geral latente em 
toda a comunicação e às vezes naqueles motivos que servem de base a esse enunciado. 
Vê-se facilmente que este caminho é muito complexo e, dependendo da experiência do analisador do 
texto, pode apresentar como traço /distintivo um grau variado de desenvolvimento; este grau, em alguns 
casos, aproxima-se pela complexidade do processo de decodificação de informação desconhecida através 
dos meios aplicados e, em outros casos (nos leitores bastante experientes), limita-se a discriminar os 
elementos mais informativos do texto e a cotejá-los entre si. 
Decodificação (interpretação) do sentido das palavras 
Muitos lingüistas afirmam com todo fundamento que a palavra é sempre polissêmica, que cada palavra se 
constitui de fato em uma metáfora, como ocorre com a palavra mão. A palavra "mãozinha" significa antes 
de tudo a mão pequena ("a mãozinha da criança"), mas podç significar ao mesmo tempo um objeto ou até 
uma circunstância ("mão de direção, mão de ferro, mão de Unho, mão única, contramão"). O mesmo 
podemos dizer em relação à palavra pé ("pezinho da criança; pé de mesa, pé-de-moleque, etc"); até 
palavras como "água", "toupeira", podem ser empregadas com sentidos diferentes ("água do balde", 
"fulano pediu água"). "A toupeira vive no bosque", ou "este homem é uma toupeira". É preciso ressaltar 
que muitas preposições apresentam polisse-mia ainda maior, como podemos ver nas seguintes frases: 
""ele fez isto no peito e na raça", "as cartas estão na mesa", "creio na força das idéias"; "o cesto está sob a 
mesa"; "sob esse pretexto assim agiram", "sob esse ponto de vista as coisas parecem realmente 
maravilhosas". 
A decodificação da comunicação exige antes de tudo que se proceda à seleção semântica dentre os muitos 
significados da palavra empregada em dado texto. 
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 A escolha adequada se baseia numa série de fatores e encontra algumas dificuldades. 
Um dos fatores que permite fazer a escolha do sentido adequado da palavra é a entonação com a 
qual tal palavra é pronunciada. A entonação atribui automaticamente maior significado a uma 
das alternativas e a expressão "que cacete!", pronunciada com desdém, logo dá a entender que 
se trata da qualidade de uma pessoa. 
O fator segundo e mais importante que determina a escolha do sentido adequado da palavra é o 
contexto. É natural que a palavra dez, pronunciada numa fila de ônibus, vai indicar que se trata 
do ônibus esperado pelos passageiros, porém pronunciada num exame estará se referindo à nota 
obtida por um aluno. Tem efeito análogo o contexto verbal, que determina justamente em que 
sentido se emprega determinada palavra. Quem lê a frase "ele lhe beijou a mão"' nunca 
interpretará a palavra "mão" como, por exemplo, mão de pilão, e quem lê a frase "ele recebeu 
como presente a mão dela" nunca vai interpretar "mão dela" como se tratando, por exemplo, de 
mão de uma criança. Cria-se um paradoxo sui generis, no qual o sentido da frase só pode tornar-
se inteligível conhecendo-se o sentido de certas palavras, enquanto o sentido de uma palavra 
isolada se torna compreensível apenas conhecendo-se todo o contexto. No entanto é justamente 
o paradoxo aparente que caracteriza o complexo processo de decodificação da comunicação; 
esse duplo caráter do processo pode ser visto em forma ampla, por exemplo, no registro do 
movimento dos olhos da pessoa que lê um texto. 
O processo de escolha correta do sentido de uma palavra pode encontrar uma série de 
dificuldades que devem ser levadas em conta pela Psicologia do processo real de decodificação 
da comunicação. 
A primeira dessas dificuldades, que se manifesta com clareza especial no estudo- de uma língua 
estrangeira e na assimilação de um novo objeto, é o conhecimento deficiente do léxico. É 
justamente desse fator que decorre a confusão de palavras semelhantes pelo som (ou pela 
escrita), confusão essa que se torna perigosa uma vez que o leitor prefere, às