A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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fragmentos isolados. Somente esse sistema complexo de movimento 
dos olhos, que discrimina e coteja os fragmentos mais importantes da informação produzida 
pelo texto, resulta na interpretação deste. 
No leitor relativamente pouco experiente, os movimentos dos olhos são de caráter complexo; 
diminuem no leitor experiente, quando a discriminação dos pontos mais informativos assume 
caráter generalizado e o processo de confrontação dos fragmentos discriminados é transferido 
cada vez mais para o plano interno, começando a realizar-se na linguagem interna. 
Cabe observar que é justamente da interpretação do texto científico que se manifestam de 
maneira sobretudo patente os diversos processos de decodificação, que distinguem a 
interpretação de um texto novo e desconhecido da interpretação de um texto bem conhecido. 
Sendo muito pequena a probabilidade de interpretação correta do conteúdo geral de um texto 
novo e complexo por simples conjetura, torna-se necessário um grande trabalho de 
discriminação de suas partes mais substanciais (mais informativas) e comparação de umas com 
as outras. Na interpretação de um texto velho e bem conhecido, aumenta a probabilidade de 
abrangência do sentido geral por simples conjetura, tornando-se dispensável um longo trabalho 
de análise e comparação das partes mais informativas. 
Isto pode ser facilmente visto se comparamos duas frases inacabadas; na primeira, a terminação 
única surge, com grande probabilidade, do próprio texto, constituindo na segunda uma 
infinidade de alternativas cuja descoberta requer um trabalho posterior e comparação com os 
dados fornecidos pelo contexto. A pessoa que lê a frase: "chegou o inverno e caiu... azul", 
dificilmente hesitaria em preencher a lacuna com a palavra "neve", complemento único do 
conteúdo da frase; já a pessoa que lê a frase: "depois de muita demora saí finalmente à rua para 
comprar..." não tem solução idêntica e pode escolher o final correto da frase entre muitos com 
igual probabilidade de alternativas que surgem, se o contexto lhe fornece a informação 
complementar necessária à solução. 
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Diferenças análogas surgem na decodificação de um texto científico, que transmite uma 
informação conhecida ou menos conhecida. 
É absolutamente natural que para a interpretação de uma informação menos conhecida seja 
necessário um trabalho de cotejo de muitos detalhes do texto, ao passo que pode ser mais breve 
o caminho do conhecimento de uma informação conhecida. 
Formou-se ultimamente um novo campo da ciência, denominado "teoria da informação", que 
tornou possível a análise quantitativa das dificuldades que surgem no processo de decodificação 
da informação e permitiu que se chegasse mais de perto de um estudo preciso desse processo. 
O processo dei interpretação de um texto artístico não apresenta menor complexidade do que a 
decodificação de um texto científico, embora seja diferente o caráter das dificuldades que ali 
surgem. 
É precisamente na exploração do texto artístico que a interpretação não é uma simples 
decodificação do significado de frases isoladas ou de todo um contexto, mas um complexo 
caminho entre o texto externo amplo e seu sentido interno. 
Cada texto artístico oculta um certo subtexto interno, que exprime o sentido de uma dada obra 
(ou trecho), os motivou de determinados personagens que o leitor deve inferir da descrição do 
comportamento e, por último, a relação do autor com a sua narração, os acontecimentos e atos. 
Daí a tarefa que se coloca ante o leitor de uma obra de arte não consistir, absolutamente, na 
assimilação da narração produzida por essa obra, mas na revelação do subtexto, na interpretação 
do sentido, na elucidação dos motivos dos personagens e na atitude do autor em relação aos 
acontecimentos narrados. 
O trabalho de descoberta do sentido de uma obra de arte não tem nada de simples e pode-se 
afirmar com segurança que a profundidade da descoberta do sentido interno por diferentes 
leitores de um texto artístico difere profundamente da interpretação de um simples texto 
narrativo e descritivo (e talvez até científico, explicativo). A diferença em relação à 
decodificação do texto científico consiste em que, aqui, a finalidade da interpretação deste texto 
é revelar as complexas relações lógicas que constituem a idéia geral e não 
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mostrar o sentido interno ou subtexto, não expresso diretamente no texto, que existe em toda 
obra de arte. 
A estrutura psicológica do texto artístico já se manifesta nos provérbios e fábulas. No provérbio 
"nem tudo o que reluz é ouro" não se trata do valor do ouro, mas das qualidades do homem; 
interpretar literalmente o provérbio, se~ penetrar no seu sentido interno, implica em não 
entendê-lo. O mesmo podemos dizer das fábulas, cujo sentido não se resume à história de algum 
episódio da vida dos animais, mas consiste em revelar aquelas relações que constituem o sentidc 
do significado moral da fábula. Nestes casos a figura ou metáfora é o traço fundamental dessa 
forma de obra de arte. sendo exigência básica da interpretação a passagem do conteúdo externo 
para o sentido interno. 
Essa estrutura se manifesta com idêntica nitidez em outras formas de obras de arte. 
No conto A menina da cidade, L. F. Voronkova* narra o seguinte episódio: crianças que 
tomavam banho em um rio advertiram uma menina para não passear de barco rio abaixo porque 
havia uma barragem e o barco podia virar. A menina não deu atenção aos conselhos, continuou 
remando rio abaixo e não regressou. As crianças saíram rio abaixo à sua procura e do outro lado 
da barragem avistaram um chapeuzinho vermelho flutuando sobre a água. 
O conteúdo externo do conto se reduz à narração do acontecimento, cujo episódio essencial não 
está representado no texto. No entanto a frase "e elas avistaram um chapeuzinho vermelho 
flutuando sobre a água" tem sentido perfeitamente determinado, exprimindo nesse pequeno fato 
a indicação do acontecimento trágico. É natural que a simples transmissão do enredo externo 
não diga absolutamente nada da interpretação do conto e que a autêntica decodificação do 
sentido se manifeste na transição para o subtexto não formulado na narração. 
No referido conto, a tarefa do leitor consiste em penetrar no acontecimento representado apenas 
indiretamente no texto externo. Em outro conto, a tarefa de interpretação do 
\u2022 Lyubov Fèdorovna Voronkova (Moscou, 1906), escritora soviética, muito conhecida por sua literatura infantil e 
pelo alto sentido metafórico c psicológico de suas obras. (N. do T.) 
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texto é ainda mais complexa e consiste em passar do acontecimento externo à descoberta dos motivos 
profundos e relações. 
No conto A menina estranha narra-se a seguinte história: uma mulher adotou uma menina e esta, durante 
muito tempo, não conseguiu acostumar-se à nova família e recebia com muita reserva o tratamento 
caloroso que lhe dispensava a mãe adotiva. Mas certa vez, na primavera, quando floresceram as 
campainhas-brancas, ela fez um buquê, chamou a mãe adotiva e disse: "Isso é pra você... mamãe". Neste 
caso as palavras representam uma profunda mudança na vida emocional da menina, que reconhece pela 
primeira vez a mulher estranha como sua mãe; se o leitor se limitou aqui a assimilar o enredo externo e 
não tirou uma conclusão psicológica, naturalmente não pode considerar que entendeu o conto. 
Essa correlação complexa do conteúdo externo com o sentido interno se manifesta com nitidez ainda 
maior nas grandes obras de arte; a famosa réplica de Gore ot umá*, "já está amanhecendo", não significa 
absolutamente a simples constatação de uma parte do dia, mas sugere uma noite de insônia, assim como a 
réplica de Tchatsky, personagem central da mesma obra, "Carruagem, tragam-me a carruagem", tem um 
profundo sentido