A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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de ruptura do personagem com a sociedade que lhe é hostil. 
Todo o complexo trabalho do diretor com o ator, descrito com tanta profundidade por Konstantin 
Stanislavsky, pode servir de exemplo amplo das transições do conteúdo externo para os sentidos e 
motivos internos que constituem a essência de uma autêntica "aclaração do texto", que lhe descobre o 
sentido interno. 
Se os códigos gramaticais da língua, a que antes nos referimos, são um sistema de meios que permitem 
expressar quaisquer relações lógicas e podem ser aplicados acertada-mente à decodificação de um texto, o 
texto literário quase não tem suportes externos que possam assegurar o mesmo trabalho de decodificação 
do sentido nele latente. São exceção apenas os meios de pontuação na linguagem escrita e os meios de 
entonação na linguagem falada. 
* _ Gore ot umá {A desgraça que a mente nos traz), famosa obra satírica do escritor russo Aleksandr Serguêevitch Griboydov 
(1795-1829) (N. do T.) 
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Basta observar como muda o sentido interno de ma enunciado com a mudança da pontuação para ver 
como fica claro o seu significado enquanto meio de direção do sentido da comunicação. Comparemos, 
por exemplo, três variantes de distribuição dos sinais de pontuação na frase já citada: 1) "isso é pra você, 
mamãe!"; 2) "isso é pra você... mamãe!"; 3) "isso... é pra você, mamãe!" e veremos que ne primeiro caso 
a pontuação não é usada para expressar us sentido interno especial; no segundo caso, ela destaca a relação 
modificada da criança com a mãe e, no terceiro, a timidez da menina ao praticar tal ato. Isto dá plenos 
fundamentos para considerar a pontuação um código de sentidos internos na mesma medida em que os 
recursos sintáticos são um código de relações lógicas externas. 
Os procedimentos de decodificação dos sentidos internos do extrato de um texto literário se manifestam 
com mais nitidez nos meios empregados na linguagem falada, especialmente nas entonações e no 
espaçamento dos fragmentos significantes de um texto através de pausas. O uso desses meios é o que 
constitui a via principal de exploração do discurso expressivo do ator, que deve possuir a habilidade de 
aplicá-los para aprender a levar ao ouvinte não apenas a narração dos acontecimentos externos, mas 
também a descoberta do sentido interno da obra. 
A crítica literária soviética N. G. Morozova apresenta como exemplo um trabalho semelhante de 
exploração do conto aparentemente simples Tchuk e Guek, do escritor infantil soviético Arkady Gaidar 
(1904-1941). 
\u25a0 O texto direto descreve determinados acontecimentos externos. 
"Vivia um homem em um bosque, ao pé de montanhas azuis. Ele sentiu saudade e pediu permissão para 
escrever à sua mulher pedindo que ela viesse visitá-lo junto com os meninos". 
Mas se no trabalho que visa a descobrir o sentido interno desse extrato forem empregados os recursos da 
entonação c da pausa que espaçam as suas partes semânticas, o extrato começará a ter outra apresentação: 
"Vivia um homem em um bosque ao pé de montanhas azuis..." começa a traduzir a sensação de longos 
dias ("vivia um homem...") que se arrastavam na solidão ("em um bosque...). 
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"Ele sentiu saudade e pediu permissão para escrever à sua mulher, pedindo que ela viesse visitá-lo com os 
meninos". Aqui se revela o quadro da saudade, a relação com a mulher e os filhos, a vontade de vê-los 
mesmo que fosse por pouco tempo, etc. 
Os recursos da pausa e da entonação pertencem inteiramente ao discurso falado, embora nos manuscritos 
antigos fossem usados juntamente com a pontuação gramatical os "sinais vermelhos", que serviam de 
meios externos de discriminação da unidade semântica e direção da passagem do significado externo do 
texto para o sentido interno. 
A complexidade do processo de decodificação do sentido interno de um texto literário dá fundamentos 
para se considerar que se deve aprender a decodificar (descobrir) o sentido interno da obra assim como se 
aprendeu a decodificar (interpretar) o seu significado externo (lógico-grama-tical), para considerar que a 
Psicologia deve elaborar as vias mais racionais de semelhante aprendizagem. A Psicologia ainda tem 
pouco conhecimento dos fatores que podem dificultar o processo de decodificação dos sentidos internos, 
devendo a análise destes constituir objeto especial de futuros estudos. . 
Patologia da interpretação da fala 
O processo de decodificação do enunciado verbal (ou informação afluente) pode perturbar-se seriamente 
nos estados patológicos do cérebro e as formas dessa perturbação permitem uma descrição mais 
aproximada da estrutura psicológica do processo de interpretação. 
A perturbação do nível de decodificação de uma comunicação complexa pode ocorrer nos casos de 
retardamento mental ou nas formas de redução da atividade intelectual que se manifestam nos casos de 
demência orgânica. Nestes casos a interpretação do significado de certas palavras pode empobrecer 
acentuadamente, a posição dominante cabe às noções imediatas, concretas ou figurado-diretas do 
significado das palavras, o significado figurado ou abstrato das palavras torna-se inacessível e toda a 
interpretação assume caráter concreto expresso. É natural que em tais casos a decodificação 
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do significado das frases ou construções lógico-gramaticais também se simplifique 
acentuadamente, e se a interpretação das proposições estruturalmente elementares, que 
expressam simples "comunicações de um acontecimento", continua acessível, então a 
descoberta do significado das complexas construções lógico-gramaticais torna-se possível e leva 
o sujeito ao impasse ou é substituída por conjeturas simplificadas. Aqui dificilmente seria 
possível a decodificação do sentido interno da comunicação, embora, como mostra a clínica, 
possam ocorrer nesses casos dissociações consideráveis, nas quais a completa impossibilidade 
de assimilação do significado abstrato das complexas estruturas lógico-gramaticais não seja 
acompanhada de idêntica desintegração da compreensão do sentido emocional do enunciado. 
Um quadro inteiramente diverso (inverso, em muitos sentidos) da perturbação da decodificação 
da comunicação pode ser visto em algumas formas de doenças psíquicas, particularmente na 
esquizofrenia. Como já indicamos a correlação de probabilidades de surgimento dos 
significados mais freqüentes das palavras e a escolha correspondente de determinadas 
alternativas (por exemplo, da concepção de "árvore" como pinheiro, amendoeira, figueira e não 
como "árvore" das alternativas lógicas, que predominam nos lógicos) são perturbadas; as 
palavras começam a suscitar quaisquer nexos que acorrem, com igual medida de probabilidade, 
e perturba-se a interpretação univalente até das comunicações mais simples, que se torna 
polissêmica, sendo que, às vezes, ligações pouco prováveis surgem quer com igual quer com 
maior probabilidade do que as ligações comuns imediatamente derivadas da prática anterior. 
Eis por que em Psicopatologia costuma-se falar de "polissemia", de "ininteligibilidade" das 
ligações que surgem no esquizofrênico, cuja decodificação da comunicação pode assumir 
caráter complexo, requintado e dificilmente previsível. 
Entretanto para uma melhor compreensão da estrutura psicológica do processo de decodificação 
(interpretação) do enunciado verbal, tem importância especial a análise neuropsicológica das 
mudanças que esse processo apresenta nos casos de afecção local do cérebro. 
Como se sabe, o significado da patologia local do cérebro consiste em que a afecção elimina 
aqui fatores psicoló- 
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gicos variados, indispensáveis ao desenvolvimento normal dos processos psicológicos, decorrendo daí 
que a perturbação da respectiva função começa a ter caráter específico perfeitamente definido. 
Assinalemos brevemente