A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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de se terem sugerido à criança tarefas lógicas estranhas a ela, limitando-se aqui ao campo puramente 
verbal as possibilidades de orientação nos meios de solução dessas tarefas. 
Outros resultados poderão ser obtidos se na orientação de uma dada tarefa for incluída a experiência 
direta-eficaz da criança. Nestes casos, como mostraram as observações do conhecido psicólogo soviético 
A. V. Zaporojets, a criança que recebe a sugestão de tirar uma conclusão de um silogismo com análise 
eficiente-direta prévia do conteúdo da premissa maior e, em seguida, da menor, tem condições de 
dominar tanto o juízo genérico quanto a correlação das premissas maior e menor bem antes da criança a 
quem esse silogismo é sugerido em forma puramente verbal. Os experimentos com a orientação prévia 
racionalmente organizada da atividade da criança, com verificação eficiente, por etapas, do juízo geral e 
sua transferência posterior do plano eficaz-direto para o plano lógico-verbal, permitiram mostrar que a 
criança de 5-6 anos pode chegar ao pleno domínio de operações lógicas e que as normas etárias, 
determinadas por Piaget, não são, em hipótese alguma, limites absolutos que não podem ser ultrapassados 
nas condições de uma aprendizagem cientificamente organizada da criança. 
Processo de solução das tarefas 
Nos casos que acabamos de examinar, a operação de pensamento consiste em atingir o domínio de um 
sistema lógico que estava implícito numa comunicação verbal ou num silogismo, e tirar uma conclusão 
científica lógica a partir das relações formuladas no silogismo. A única condição de cumprimento da 
respectiva operação lógica consistia em assimilar uma dada estrutura de relações lógicas e jazer uma 
certa conclusão ou inferência, que é determinada de maneira unívoca pelo algoritmo {sistema de 
operações) encerrado no silogismo. 
Nem de longe o processo de pensamento é determinado em todos os casos por um algoritmo acabado, 
encerrado na condição lógica. 
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A maioria esmagadora das operações de pensamento não é determinada por um algoritmo 
unívoco, e o homem que se ache diante de uma tarefa complexa deve encontrar sozinho o 
caminho de sua solução, abandonando os procedimentos lógicos incorretos e discriminando os 
corretos. Ê esse o caráter do pensamento criativo; no processo de solução de qualquer tarefa 
complexa surge a necessidade desse pensamento criativo. 
O exemplo mais patente de semelhante pensamento produtivo pode ser visto na solução dos 
habituais problemas de aritmética, que, com pleno fundamento, podem ser considerados modelo 
de ação intelectual lógico-verbal. 
O problema sempre coloca diante do sujeito um fim, que está formulado na pergunta que encerra 
cada tarefa. O fim é dado em determinadas condições e o sujeito que resolve a tarefa deve, antes 
de tudo, orientar-se em suas condições, discriminando do conteúdo o mais importante, 
comparando as partes componentes. Somente esse trabalho, que serve de base orientadora à 
ação intelectual, permite criar a hipótese da via pela qual deve seguir a solução, por outras 
palavras, a estratégia da solução, seu esquema geral. Após determinar a estratégia, aquele que 
resolve a tarefa pode passar à discriminação das operações particulares que sempre devem 
manter-se nos limites da estratégia geral, devendo observar rigorosamente a ordem de tais 
operações. Estas podem, às vezes, permanecer relativamente simples e, às vezes, adquirem 
caráter complexo e são constituídas de toda uma cadeia de elos ordenados (que o sujeito deve 
conservar em sua "memória operativa"), levam a determinado resultado; quem resolve a tarefa 
deve cotejar esse resultado com a condição inicial, só concluindo a ação se o resultado 
corresponder à condição; caso não haja essa correspondência, deve reiniciar a ação até atingir a 
necessária combinação do resultado com a condição inicial. 
É natural que todo o processo que descrevemos deva ser sempre determinado pela tarefa básica 
e não ir além dos limites de sua condição; qualquer perda do nexo de operações isoladas com a 
condição inicial redunda fatalmente na impossibilidade da tarefa e transforma o ato intelectual 
numa cadeia de associações carentes de sentido. 
Tudo isto cria exigências especiais sob as quais o processo de solução da tarefa pode conservar 
o caráter válido. 
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'' Quem resolve uma tarefa deve lembrá-la e não perder o nexo da pergunta com a condição da 
tarefa; deve orientar-se ( nas condições da tarefa e inibir qualquer tentativa de operações 
imediatas que surgem impulsivamente, não subordinadas ao esquema semântico geral da tarefa. 
Ele deve criar certo "campo interno" em cujos limites devem processar-se todas as suas Buscas 
e operações, não ultrapassando, em hipótese alguma, os limites do campo lógico interno; deve 
executar as necessárias operações de cálculo, sem esquecer o lugar que cada operação ocupa na 
estratégia geral da solução da tarefa. Por último, ele deve, como já dissemos, comparar o 
resultado obtido com a condição inicial. 
O descumprimento de cada uma dessas exigências leva fatalmente à desintegração do ato 
intelectual. 
A complexidade do processo intelectual exigido é diferente em casos distintos e varia 
dependendo da estrutura da tarefa. 
Em tarefas simples (do tipo: "Catarina tinha três maçãs e Sônia duas. Quantas maçãs as duas 
meninas tinham?"), o desenvolvimento das operações (algoritmo de solução da tarefa) é 
determinado de maneira unívoca por sua condição; não pode vir à cabeça nenhuma operação 
estranha e a solução da tarefa não costuma provocar quaisquer dificuldades. 
A grande complexidade do processo surge em outra variante dessa tarefa. "Olga tinha três 
maçãs, Sônia tinha duas a mais; quantas maçãs as duas meninas tinham?". Aqui o algoritmo da 
solução da tarefa (a -f- (a+b) = X) é de caráter consideravelmente mais complexo e a adição 
direta dos dois números referidos na condição leva a resultado falso. Quem resolve a tarefa deve 
impedir a' solução direta e formular uma pergunta complementar, não indicada na condição 
("Quantas maçãs Sônia tinha?"), somente realizando uma operação intermediária (3 + 2 = 5) e 
aproveitando os seus resultados como uma das parcelas (3 + 5 = 8), pode obter o resultado 
necessário. 
Apresentam solução ainda mais complexa as tarefas que requerem a formulação de perguntas 
suplementares e o cumprimento de várias operações intermediárias; entre estas, algumas têm 
caráter específico e adquirem sentido próprio quando quem resolve tais tarefas retém 
sòlidamente na memória o objetivo final e o sistema de procedimentos que levam à realização 
das mesmas. Pode servir de exemplo 
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típico uma tarefa complexa como: o filho tem cinco anos, daqui a quinze anos o pai será três vezes mais 
velho do que o filho. Quantos anos o pai tem agora? 
Vê-se facilmente que a condição dessa tarefa cria desde o início a impressão de insuficiência lógica; não 
fixa a idade do pai, e somente depois que o sujeito formula a pergunta intermediária ("quantos anos terá o 
filho daqui a quinze anos?) e, por último ("quantos anos tem o pai agora?"), desaparece essa aparente 
insuficiência lógica, obtendo-se a resposta cujo algoritmo se torna complexo: (a -J- 15 = = n; X 3 = m; m 
\u2014 15 = X). 
É complexo o processo de solução da tarefa se esta compreende atos acessórios que não fazem parte de 
sua condição concreta e são de caráter puramente auxiliar. São as "tarefas padronizadas" como: "em duas 
estantes havia 18 livros, tendo uma 2 vezes mais do que a outra; quantos livros havia em cada estante?" 
Neste caso quem a resolve deve inibir os atos diretos que decorrem dos fragmentos da condição (por 
exemplo, 18:2 = 9 ou 18 X 2 = 36) e antes de passar às operações com os livros referidos na tarefa deve 
fazer as