A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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operações com as seções não mencionadas no problema, perguntando-se inicialmente quantas 
seções havia em cada estante e unicamente após uma operação abstrata complementar (2 seções + 1 seção 
= 3 seções) passar à solução do problema (18 : 3 = 6; 6 X 2 = 12), através da qual obtém a resposta 
incógnita. 
Vê-se facilmente que as tarefas descritas pressupõem processos lógico-verbais de dificuldade crescente e 
se a tarefa básica de não sair do contexto da condição em todas as operações permanece a mesma, então a 
complexidade da análise das condições e da "estratégia" que 'deve servir de base à solução será cada vez 
maior. 
A análise psicológica pode discriminar facilmente os fatores que foram inseridos no processo de solução 
das tarefas, por serem as condições fundamentais de uma atividade intelectual plenamente válida e cuja 
exclusão levaria à perturbação do seu desenrolar normal. 
O primeiro desses fatores é o estabelecimento de uma sólida relação lógica entre a condição e a pergunta 
final, que conservam o significado dominante da pergunta no problema; sem essa condição, o lugar do 
sistema seletivo de operações, subordinadas à pergunta, pode ser ocupado pelas associações 
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\u2022seletivas, a escolha entre muitas alternativas possíveis torna-se impossível e a atividade intelectual, 
perdendo o sentido, desintegra-se. 
O segundo fator que determina a conservação da atividade intelectual é a orientação prévia nas condições 
da tarefa, que prevê a possibilidade de observação simultânea de todos os elementos constituintes da 
condição e permite criar um esquema geral de solução da tarefa. A eliminação desse fator leva 
inevitavelmente a que todo o sistema lógico, incluído na condição da tarefa, se desintegre em fragmentos 
isolados e o sujeito seja influenciado pelos nexos que surgem impulsivamente desses fragmentos. 
O terceiro fator, que pode ser condicionalmente chamado "fator dinâmico", consiste na inibição das 
operações prematuras que surgem impulsivamente; essa inibição é absolutamente necessária à 
concretização bem-sucedida de toda a estratégia de solução da tarefa. 
Por último, o derradeiro fator é o mecanismo de comparação dos resultados da ação com a condição 
inicial, mecanismo esse que pode ser considerado^ como equilíbrio do mecanismo do "aceptor da ação" a 
que já nos referimos. 
O processo de solução das tarefas é indiscutivelmente um modelo que reflete com a maior plenitude a 
estrutura da atividade intelectual, podendo o estudo das peculiaridades desse processo fornecer material 
importante para a Psicologia dos processos cognitivos do homem. 
Métodos de estudo do pensamento produtivo 
Os métodos de estudo do pensamento verbal produtivo dividem-se em dois grupos. O primeiro visa ao 
estudo das premissas ão complexo pensamento verbal discursivo e tem como tarefa estabelecer em que 
medida o sujeito domina as principais relações lógico-verbais e até que ponto ele pode partir justamente 
delas em seus raciocínios e não dos nexos circunstanciais figurado-diretas. O segundo está voltado para as 
operações propriamente ditas do pensamento produtivo discursivo. 
Ao primeiro grupo pertencem antes de tudo todos os métodos que já mencionamos quando 
descrevemos as vias 
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de estudo do processo de assimilação dos conceitos e os processos de decodificação 
(interpretação) das complexas estruturas verbais. 
Juntam-se a eles mais dois grupos de procedimentos, nos quais nos 
:
deteremos em termos 
apenas muito breves. 
Os primeiros deles são constituídos pelos procedimentos pelos quais se estuda até que ponto o 
sujeito domina o sistema de conexões lógicas que surgem no enunciado e o grau de clareza com 
que nele se formam as "conclusões lógicas" a que antes já nos referimos. 
Para esclarecer este ponto, aplica-se com ótimos resultados o procedimento de complementação 
da frase até atingir o todo, proposto por Ebbinghaus. Esse procedimento consiste em sugerir ao 
sujeito frases ou textos isolados, omitindo-se em cada frase uma palavra que o sujeito deve 
completar. 
Em uns casos a palavra em falta eclode com grande probabilidade, em outros, como alternativa 
única. Por exemplo, em frases como: "Chegou o inverno e as ruas ficaram cobertas de densa... 
(neve)" ou "Soou o apito do maquinista e o trem lentamente... (partiu)" naturalmente não se 
pode falar de nenhum processo de escolha entre várias alternativas. Em outros casos, a palavra 
que prenche a lacuna não surge como única e o sujeito pode escolher uma das várias 
alternativas, às vezes comparando uma frase com o contexto anterior. Pode servir de exemplo o 
seguinte texto: "O homem voltou para casa e notou que havia perdido o boné. Na manhã 
seguinte saiu de casa e como estivesse chovendo não tinha com que cobrir... (a cabeça)" ou "Um 
homem, encomendou a uma fiandeira ... fina (linha). Ela fiou linha fina mas o homem disse que 
a linha era... (grossa) e ele precisava de linha fina", etc. Neste caso, naturalmente, o processo de 
escolha de alternativas é mais complexo e só pode ser assegurado por uma orientação prévia no 
contexto. Vê-se facilmente que a falta dessa orientação prévia pode levar a lacuna a ser 
preenchida apenas com base em conjetura surgida durante a leitura da última palavra, sendo a 
tarefa resolvida de maneira incorreta. 
No terceiro caso, a lacuna pode não recair sobre palavras concretas omitidas (substantivos, 
verbos), mas sobre palavras acessórias omitidas e para a correta solução da tarefa é necessário 
tomar consciência da relação lógica em que se en- 
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contram alguns componentes da frase. Tomemos como exemplo as frases: "Fui ao cinema... (embora) 
estivesse chovendo torrencialmente" ou "Consegui chegar a tempo ao trabalho... (apesar de que) o 
percurso era muito longo", etc. Vemos facilmente que, no último caso, o objeto de estudo consiste em 
estabelecer se o sujeito é capaz de operar conscientemente não com a conexão dos acontecimentos, mas 
com o caráter das relações lógicas; nessas possibilidades, toda falha refletir-se-á na tarefa sugerida. 
Uma variante desse método é o conhecido método de extrapolação no qual o sujeito recebe vários 
números com um grupo de números omitido; ele deve inseri-los, após tomar consciência da base da série. 
Em alguns casos essa tarefa não apresenta dificuldades e tem solução única; podemos tomar como 
exemplo a série 
1 2 3 4 5 6 ... 9 10 etc. 
Em outros casos essa tarefa é resolvida de maneira bem mais complexa e o sujeito deve analisar a lógica 
da construção da série, lógica essa que sempre é fácil de descobrir. Podemos tomar como exemplo a série 
1 2 4 5 6 8 ... 13 14 16 etc, ou 1 2 4 7 ... 21 28 etc. 
A orientação insuficiente nas condições de composição da série, bem como a impossibilidade de assimilar 
a lógica de sua construção refletem-se seriamente na solução dessa tarefa. 
Um método amplamente difundido de estudo é a análise da execução de várias operações lógicas pelo 
sujeito, por exemplo, a localização das relações espécie-gênero ou gênero-espé-cie, a descoberta de 
relações análogas. Para esse fim, sugere-se ao sujeito o protótipo de uma relação que ele deve transferir 
para outra relação dupla. Pode servir de exemplo: 
cão \u2014 animal; rouxinol......? pinheiro......? 
louça \u2014 prato; arma......? verdura......? 
ou relações mais complexas e mutáveis: 
regimento \u2014 soldados; biblioteca \u2014 ......? 
rua \u2014 praça; rio \u2014......? 
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O procedimento aqui descrito pode ser aplicado em duas variantes. Numa delas, dá-se ao sujeito a 
oportunidade d& escolher por si mesmo a resposta incógnita; em outra, sugere-se-lhe escolher a resposta 
necessária entre três alternativas-possíveis, sendo que uma das palavras sugeridas encontra-se