A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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orientação prévia, armar o cubo grande. Via de regra, à solução prática da tarefa antecede uma fase de 
orientação, que tem o caráter de cálculos prévios, a consideração do número de cubos pequenos com 
números diferentes de faces pintadas; em seguida vem a construção do esquema geral de solução da 
tarefa, na qual os cubos pequenos de três faces pintadas são naturalmente distribuídos pelos ângulos do 
cubo grande; os cubos pequenos de duas faces pintadas e os cubos de uma face pintada são dispostos no 
meio de cada superfície, colocando-se no centro o cubo não pintado. Assim, o processo de solução dessa 
tarefa prática não é nada simples e evidente como se poderia supor. Ele inclui em sua composição 
complexos cálculos prévios, realizados com a participação imediata da linguagem, e somente quando o 
esquema geral de solução da tarefa está pronto, o sujeito começa a concretizá-lo e a concretização desse 
esquema já não tem caráter criativo mas executivo. 
Tem caráter semelhante a solução de outra tarefa com base na atividade intelectual prática direta, 
conhecida em Psicologia pela denominação de "cubos de Kohs". 
Nesta tarefa sugere-se ao sujeito construir um desenho geométrico com cubos de lados branco, amarelo, 
azul e vermelho, sendo que os dois lados restantes são de duas cores (vermelho-branca ou azul-amarelo) 
divididas em diagonais. 
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Em uns casos, figuram os desenhos que se supõem muito simples e são percebidos 
imediatamente. Noutros casos, eles são construídos de tal modo que as suas partes diretamente 
perceptíveis não correspondem aos elementos da construção (em um desenho o sujeito percebe 
um triângulo azul em fundo amarelo ou uma faixa diagonal azul em fundo amarelo (ou um 
losango azul em fundo amarelo ou uma faixa azul quebrada em fundo amarelo). Nestes casos o 
sujeito deve desmembrar mentalmente o desenho imediatamente perceptível em suas partes 
componentes e compreender que as figuras não são formadas por três partes imediatamente 
perceptíveis mas por dois cubos pequenos de duas cores, ou que são constituídas de quatro 
pequenos cubos, separados na diagonal dos cubos de duas cores. 
Essa tarefa, naturalmente, exige que o sujeito se abstenha de tentativas imediatas de execução, 
que se oriente nos modos de solução das tarefas e não subordine o seu programa de solução aos 
contornos imediatamente perceptíveis do desenho mas a um esquema recodificado que ele deve 
criar, fracionando mentalmente os contornos do desenho e substituindo os elementos da 
impressão imediata pelos elementos da construção. 
Compreende-se perfeitamente que também neste caso o programa de solução intelectual da 
tarefa não surge sob a influência da percepção imediata direta mas como resultado da 
superação da impressão imediata e subordinação da ação ao esquema que se cria como 
produto da recodificação do campo perceptível. 
O processo de superação da impressão imediata, que constitui a base do ato intelectual, só pode 
ser realizado no processo de orientação prévia nas condições da tarefa, de cotejo do protótipo 
direto com os meios dados para a sua realização; deste modo, a solução da tarefa construtiva 
direta apresenta um complexo caráter mediato. 
É natural que esse caráter complexo do pensamento prático, que acabamos de descrever, seja 
produto de um longo desenvolvimento e se perturba facilmente nos estados patológicos do 
cérebro. 
O teste mostrou que tanto o retardamento intelectual, como a redução da atividade intelectual 
nos estados patológicos do cérebro levam à desintegração dessa forma estruturalmente 
complexa de atividade intelectual. Os doentes que 
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apresentam semelhante redução do intelecto são incapazes de reter as tentativas de solução da 
tarefa construtiva que surgem imediatamente; desaparece a fase de orientação prévia nas 
condições da tarefa, razão por que levam ao fracasso as tentativas de resolver imediatamente 
uma tarefa complexa evitando a análise de suas condições. 
Procurando resolver a tarefa do "cubo de Linck", os doentes começam logo a tentativa de 
construir o cubo ignorando que a distribuição correta dos cubos pequenos só pode ser 
assegurada por cálculos prévios e, via de regra, terminam rapidamente as suas tentativas 
indicando que os "cubinhos são poucos" ou a "tarefa é irrealizável". 
Começando a resolver a tarefa do "cubo de Kohs", os doentes não fazem uma análise prévia do 
desenho proposto, não desmembram a estrutura imediatamente perceptível nem transformam as 
"unidades da impressão" em "unidades da construção". Por isto esses doentes começam 
imediatamente a fazer tentativas de representar cada elemento isolado do desenho perceptível 
num cubo isolado e não se perturbam se a estrutura a ser construída conservar o número de 
elementos imediatamente perceptíveis mas não tiver nenhuma identidade com o protótipo. 
É natural que se eles conseguem construir sem grande dificuldades protótipos simples que não 
requerem recodificação, resultem inacessíveis quaisquer tentativas de fazer de cubinhos isolados 
protótipos complexos, nos quais a execução correta da tarefa só pode ser acessível como 
resultado da análise do protótipo e transformação das "unidades da impressão" em "unidades da 
construção". 
Dados análogos podem ser obtidos mediante a aplicação do método de estudo do intelecto 
prático (construtivo), conhecido pela denominação de "figura de Roop". 
Neste teste sugere-se ao sujeito reproduzir um protótipo formado por hexágonos contíguos. Para 
resolver corretamente a tarefa, é necessário levar em conta que as figuras contíguas têm paredes 
comuns, razão pela qual se devem representar no desenho não tanto figuras isoladas quanto 
correlações geométricas entre as linhas componentes. 
Esta tarefa resulta inacessível para sujeitos com retardamento intelectual ou com perturbação da 
atividade intelectual, que começam a cumprir a tarefa sem análise prévia e 
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substituem o desenho da correlação geométrica das linhas pela representação de figuras concretas 
isoladas. 
Em todos os casos citados, o mais importante é o fato de que a impossibilidade de cumprimento das 
tarefas sugeridas ao sujeito não se manifesta como resultado de uma falha particular (por exemplo, a 
orientação no espaço), mas da desintegração das formas complexas de atividade intelectual; tal 
desintegração manifesta-se no fato de que desaparece a fase de orientação prévia nas condições da tarefa 
com a "recodificação" das condições, substituindo-se a estrutura complexa da atividade intelectual pelas 
tentativas de cumprimento da tarefa com base nas impressões imediatas. 
Patologia do pensamento direto 
O comportamento intelectual é produto de uma longa evolução e apresenta uma estrutura psicológica 
muito complexa. É natural que qualquer retardamento intelectual, por um lado, e a mudança patológica da 
atividade cerebral, por outro, provoquem fatalmente a desintegração da atividade intelectual de estrutura 
complexa. 
Isto pode ser observado em formas mais nítidas na criança mentalmente atrasada com retardamento 
cerebral e na demência da velhice, relacionada com a atrofia da massa cerebral. 
É sabido que a criança mentalmente retardada pode conservar todas as modalidades mais simples de 
percepção direta e ação, mas é acentuadamente atrasada a sua estrutura de atividade intelectual. Isto se 
manifesta no fato de que a criança, com formas profundas de retardamento mental, é incapaz de analisar 
satisfatoriamente as situações, distinguir nestas as ligações e relações essenciais e substitui a atividade 
intelectual de construção complexa por reações impulsivas imediatas, que são inteiramente determinadas 
por impressões superficiais da situação. 
Nas formas mais profundas de atraso mental, a criança não consegue estabelecer