A.R.Luria-Curso de Psicologia Geral -  Vol. 4
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primeira função básica da palavra é denominada representação material ou, 
como dizem alguns lingüistas, função representativa da palavra (do alemão Darstellende Funktiori). 
A existência da função representativa da palavra ou representação material é a função mais importante 
das palavras, constituintes da linguagem. Essa função permite ao homem evocar arbitrariamente as 
imagens dos objetos correspondentes, operar com objetos inclusive quando estes estão ausentes. Como 
dizem alguns psicólogos, a palavra possibilita "multiplicar" o mundo, explorar não apenas imagens 
diretamente perceptíveis dos objetos, mas também com imagens dos objetos, suscitadas na representação 
interna por meio da palavra. 
A capacidade da palavra para significar objetos correspondentes com um sinal convencional, de suscitar 
as suas imagens não é, contudo, a sua única função. 
A palavra tem outra função mais complexa: permite analisar os objetos, distinguir nestes as propriedades 
essenciais e relacioná-los a determinada categoria. Ela é meio de abstração e generalização, reflete as 
profundas ligações e relações que os objetos do mundo exterior encobrem. Essa segunda função da 
palavra costuma ser designada pelo termo significado da palavra. 
Analisemos minuciosamente o significado de uma palavra qualquer, por exemplo, da palavra russa 
tchernünitsa (tinteiro). À primeira vista pode parecer que ela simplesmente designa um determinado 
objeto e suscita a imagem de um tinteiro sobre a mesa. Mas tal coisa está longe da verdade, e a simples 
evocação da imagem do objeto não esgota a função dessa palavra. Examinando atentamente essa palavra 
descobre-se facilmente que ela tem uma estrutura complexa e é constituída por uma série de partes 
componentes. A primeira parte da palavra \u2014 tchern (tint) \u2014 indica que o objeto por ela designado tem 
alguma relação com tintas; indica um indício de cor, que por si mesma está relacionada com outras cores 
(negro, vermelho, &2ul, etc). A segunda parte da palavra é o sufixo il: na língua russa, este designa uma 
qualidade de instrumento, noutros termos, o objeto em ques- 
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tão pode ser usado como meio de um trabalho qualquer (tchemILa 'tinta', belILa 'branco', motovlLo 
'torniquete', gruzILo 'cambulho'). O terceiro componente da palavra tchemílnitsa é o sufixo nits; na língua 
russa, este significa que o objeto em questão serve de recipiente de alguma coisa, associando-a a palavras 
como "sákharnzísa" 'açucarara', "gortchítchratea" 'mostarde/ra', péretchrczísa 'pimeníe/ra', etc. Assim, 
uma palavra que pareceria muito simples revela-se um dispositivo complexo, que analisa a função de um 
dado objeto e indica que temos diante de nós um objeto relacionado com tinta (tchern), que serve de meio 
a alguma coisa 07) e tem propriedade de recipiente {nits). Um exame minucioso da morfologia da palavra 
revela toda a complexidade de sua função. Mostra que temos diante de nós um complexo sistema de 
códigos que se formou na história da humanidade e transmite à pessoa que usa a palavra uma complexa 
informação acerca das propriedades essenciais para um dado. objeto, das suas funções básicas e das 
relações que com outros objetos mantêm as categorias coexistentes que esse objeto possui objetivamente. 
Ao dominar a palavra, o homem domina automaticamente um complexo sistema de associações e 
relações em que um dado objeto se encontra e que se formaram na história mul-tissecular da 
humanidade. 
É a essa capacidade de analisar o objeto, distinguir nele as propriedades essenciais e relacioná-lo a 
determinadas categorias que se chama significado da palavra. 
Na estrutura de cada palavra é fácil observar as duas funções básicas da palavra, ou seja, discriminar o 
traço essencial do objeto e relacionar este objeto a certa categoria ou, noutros termos, observar a função 
de abstração e generalização. 
A palavra stol \u2014\u2022 'mesa' \u2014 (radical stl \u2014 "posti/af " \u2014 'estender, pôr' \u2014, "nasfz7af " \u2014 'cobrir') indica 
uma qualidade essencial da mesa, a existência de "tablado"; a palavra tchasí (radical tchas) indica que a 
função básica dos relógios é indicar o tempo (tchasa, em eslavo); a palavra sutki (radical stk \u2014 ligar) 
mostra que a palavra significa a confluência entre o dia e a noite; a palavra korova \u2014 'vaca' \u2014 (do latim 
cornü) indica que estamos diante de um animal cornífero. 
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Em palavras relativamente novas, essa função de discriminação (abstração) dos traços essenciais aparece 
com nitidez ainda maior: parovoz \u2014 'locomotiva a vapor' \u2014 indica dois traços: par \u2014 'vapor' \u2014 e voz do 
verbo vozií' \u2014\u25a0 'levar', 'transportar': a palavra telefone também tem dois traços: (iele \u2014 'distância' e fone 
'voz'). O mesmo ocorre com a palavra televisor: tele \u2014 'distância' e vídeo \u2014 'ver'. 
A abstração dos traços essenciais é, entretanto, apenas um aspecto do significado da palavra. O segundo 
aspecto é a colocação do objeto em relação com certa categoria, noutros termos, com a função de 
generalização. 
A palavra "relógio" significa igualmente qualquer relógio, independentemente da sua forma ou do 
tamanho; a palavra "mesa" significa mesa de qualquer forma, de qualquer tipo; a palavra "cão" designa 
cão de qualquer raça. Cada palavra, inclusive a concreta, não representa sempre um objeto único mas toda 
uma categoria de objetos e, nas pessoas que a usam, pode suscitar quaisquer imagens individuais, mas 
apenas imagens de objetos pertencentes a essa categoria. É essencial que isto se refere igualmente a 
palavras concretas (como "mesa", "relógio", "cão") bem como a palavras que designam conceitos gerais 
("país", "cidade", "desenvolvimento", "substância"). 
A lingüística sabe perfeitamente que a correlação dos componentes figurados diretos da palavra com os 
abstratos, generalizadores, não é sempre a mesma; cada grupo de palavras apresenta diferenças essenciais. 
Assim, em uns substantivos ("pinheiro", "cão pastor", "samovar") os componentes figurados concretos 
são muito fortes, ao passo que em outros ("animal", "país", "pensamento") eles são afastados pelo 
significado abstrato generalizador. Sabe-se ainda que nos adjetivos ("amarelo", "seco", "alto") e nos 
verbos ("andar", "pensar", "empenhar-se") que, como se sabe, surgiram muitos anos depois que os 
substantivos, esses componentes materiais são colocados em segundo plano e a discriminação da 
qualidade ou ação, abstraída do objeto lemanescente, constitui o significado básico dessas palavras. 
Por último, nas línguas evoluídas existem "palavras acessórias" especiais (preposições, conjunções etc.) 
sem qualquer significado material, que não expressam objetos concretos mas as relações entre eles ("sob", 
"sobre", "com", "de", "conjuntamente",, "em conseqüência de"). 
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Deste modo, cada palavra tem um significado complexo, formado tanto pelos componentes figurado-
diretos, quanto pelos abstratos e generalizadores; é justamente isto que permite a quem usa tais palavras 
escolher um dos possíveis significados e em uns casos empregar uma dada palavra em seu sentido 
concreto, figurado e, em outros, empregá-la em seu sentido abstrato e generalizado. 
Tanto a análise da estrutura morfológica da palavra, como o seu emprego prático do cotidiano mostram 
que a palavra não é, em hipótese alguma, uma associação simples e unívoca entre o sinal sonoro 
condicional e a noção direta, bem como que ela tem uma infinidade de significados potenciais. 
Assim, a palavra "carvão" pode designar um pedaço de carvão-de-lenha, carvão-de-pedra, um pertence de 
um pintor que desenha com carvão, o mineral "C", etc. Por isto, em cada situação prática o homem 
escolhe entre todos os possíveis significados dessa palavra aquele que mais se adequa a ela. É natural que, 
para o pintor, o "carvão" é um instrumento para rascunhos, para a dona-de-casa, algo que serve para