A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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dos seus movimentos positivos ou negativos 
(movimento no sentido de uns objetos ou o movimento a partir de outros objetos, 
respectivamente). 
Sabe-se que o protoplasma, que compõe o corpo do animal protozoário (unicelular), é 
constituído de uma camada exterior mais sólida (plasma-gel) e de uma camada interior mais 
líquida (plasma-sol). Sabe-se também que as camadas externas do protoplasma do 
unicelular são mais 
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excitáveis do que as camadas internas, e cada ação externa provoca intenso metabolismo, que se estende 
paulatinamente das camadas externas às internas, extinguindo-se conforme o tipo de.gradiente de 
excitação paulatinamente decrescente. Esses gradientes de excitação, ao que parece, servem de base aos 
movimentos do unicelular, que surgem tão logo a influência externa provoca intenso metabolismo no 
ponto correspondente de sua superfície ou quando os processos internos levam à necessidade de procurar 
ativamente as substâncias necessárias para assegurar semelhante metabolismo. 
Alguns autores supõem que influências adequadas de força moderada provocam reação positiva do 
unicelular e levam a um movimento no sentido da respectiva influência, ao passo que influências 
inadequadas (ultrafortes ou nocivas) provocam movimento negativo, dirigido a partir do objeto influente. 
O movimento positivo leva a que o ohjeto que provoca irritação é inicialmente envolvido pelos filetes do 
protoplasma, que, entre os unicelulares mais simples (amebas), é depositado no lugar de metabolismo 
mais intensivo e fecha-se em torno desse objeto, incíuindo-o na composição do corpo do unicelular. Se 
esse objeto é alimentício, ele é absorvido pelo corpo do unicelular, segregando-se para o meio o produto 
da desintegração. Não sendo aliníen-tício, ele é rejeitado para o meio ambiente pelo mesmo caminho que 
foi apanhado. 
Seria, entretanto, incorreto supor que todos os movimentos dos unicelulares se processam por um 
esquema tão simples. Uma peculiaridade do comportamento dos unicelulares é o fato de que as 
influências que chegam até eles podem, elas mesmas, sofrer as mais complexas modificações. O próprio 
protoplasma do unicelular nunca se encontra em estado de tranqüilidade, mas se caracteriza por sistemas 
altamente diferenciados e seletivos de excitação, que mudam segundo o processo de metabolismo que 
nele se opera e leva ao surgimento de formas dominantes de excitação. 
Como mostraram os experimentos de Fogler, a influência mecânica de certa força provoca apenas reações 
relativamente fracas do protozoário, sendo que a excitação pela luz pode não provocar nenhuma reação. 
Mas se sobre o protozoário agem simultaneamente a instigação mecânica de determinada força e a 
excitação por luz, esses dois estímulos se somam e levam a intensivas reações do protozoário. 
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Sabe-se que a capacidade de reação da ameba faminta é maior do que a mesma capacidade da 
ameba saciada, e ela cria elevada disposição de responder aos estímulos positivos 
correspondentes ou às instigações que sinalizam o surgimento destes. 
Por último, o unicelular pode "acostumar-se" aos estímulos correspondentes, reduzindo a 
resposta a eles na medida do seu prenuncio repetido e longo. 
Os mecanismos que servem de base a esse fenômeno ainda são pouco conhecidos e só as 
observações ultimamente feitas levam a pensar que o surgimento e a manutenção desses 
estímulos são o resultado de certas modificações e do ácido ribonucléico, que é um dos 
componentes básicos do seu plasma. 
Cabe observar que o corpo dos protozoários é relativamente homogêneo e que o processo do 
metabolismo mais intensivo pode surgir nele no lugar da excitação que surge imediatamente, 
formando com isto o extremo "cerebral" provisório do seu corpo. 
Os unicelulares mais complexos têm estrutura incomparavelmente mais complexa. Neles 
podemos distinguir "órgãos" permanentes em forma de áreas sensíveis do protoplas-ma, que 
formam, por exemplo, os "flagelos" das bactérias. Esses "flagelos" estão em movimento 
permanente e são agentes das funções mais importantes de orientação no meio exterior; é neles 
que surgem os gradientes de excitação constante, que, espalhando-se pelo resto do corpo do 
unicelular, coloca-o em movimento. 
A riqueza de comportamento dos unicelulares é muito grande e ainda será objeto de estudo 
especial, assim como os mecanismos que lhe servem de base. Mas' o que já sabemos a seu 
respeito nos leva a pensar que, aqui, estão lançadas as bases da complexa atividade da 
orientação ativa no meio, que mais tarde constituirão traço importantíssimo da atividade 
psíquica. 
Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples 
Os processos descritos de irritação em face das influências bióticas, de sensibilidade às 
influências neutras que 
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anunciam o surgimento de influências de importância vital e de conservação elementar dos 
vestígios são suficientes para a conservação da vida dos animais unicelulares. 
Mas eles se tornam insuficientes com a transição aos plu-ricelulares. 
A transição para os multicelulares complica substancialmente as condições de vida. A 
alimentação por meio da difusão direta de substâncias alimentícias, que ocupou posição central 
no nível dos protozoários, agora é substituída pelo consumo de comida discreta (concentrada); 
eleva-se o papel da orientação ativa no meio externo. Torna-se necessário assegurar 
movimentos bem mais diferenciais e uma con-dutibilidade da excitação bem mais rápida do que 
aquela que se obteve por meio da difusão paulatina dos gradientes de excitação no protoplasma 
dos unicelulares. É isto que leva a uma considerável complicação da estrutura do corpo do plu-
ricelular, à separação das células de uma recepção especial de irritações que chegaram ao corpo 
do animal, e ao surgimento das primeiras células contrativas, agentes da função que nas etapas 
posteriores da evolução será assumida pelas células musculares. Isto leva, por último, a que nos 
lugares dos antigos gradientes de excitação comecem a formar-se passagens do protoplasma 
mais excitável e se constitua a forma mais elementar do sistema nervoso, qué entre esses 
animais tem o caráter de sistema nervoso difuso e com forma de rede. 
Tudo isto pode ser visto com nitidez especial na estrutura dos pluricelulares relativamente 
simples, pertencentes à classe dos celenterados, por exemplo, na estrutura do corpo da medusa, 
anêmona-do-mar e estrela-do-mar. 
Esse estágio da evolução dos pluricelulares se caracteriza pelo fato de que a condutibilidade da 
excitação se acelera muitas vezes graças ao surgimento do sistema nervoso reti-cular. Se o 
processo da excitação pelo protoplasma não vai além da velocidade de 1-2 mícrons por 
segundo, com o surgimento do sistema nervoso mais simples (reticular) a velocidade do 
processo é igual a 0,5m por segundo (observemos que com a contínua evolução do sistema 
nervoso e a passagem para as etapas seguintes de sua complicação, a velocidade do processo de 
excitação aumenta ainda mais, chegando nos sapos a 35 metros por segundo e a 125 metros por 
segundo nos vertebrados superiores). 
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No entanto as vantagens consideráveis, que surgem com o aparecimento do sistema nervoso difuso 
primário (reticu-lar), têm também os seus limites. Como nas etapas da evolução já descritas, os animais 
com sistema nervoso reticular ainda não têm extremidade cerebral permanente que dirija o seu 
comportamento. A excitação se difunde de maneira igual pelo sistema nervoso reticular em todo o corpo 
do animal, e o lugar da aplicação da instigação exterior se torna c ponto principal provisório. Só entre os 
celenterados mais complexos, uma parte do corpo (por exemplo, um raio da estrela-do-mar) não difere 
pela estrutura de outras partes do corpo (raios),
Renata
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Muito obrigada!
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