A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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pode tornar-se dominante e assume a função de órgão 
mais ativo no movimento. Se amputarmos na estrela-do-mar esse raio "dominante", o papel de 
"dominante" passará para outro raio, disposto ao lado dele. 
É natural que essa falta de um órgão dominante permanente, capaz não só de receber mas também de 
processar, codificar a informação recebida e criar programas de comportamento diferenciado, limita 
substancialmente as possibilidades do comportamento nesse nível. Esses defeitos são eliminados nas 
etapas posteriores da evolução, sobretudo com a transição para a vida terrena e com a formação de um 
sistema nervoso ganglionar de construção mais complexa. 
O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas de comportamento mais simples 
A transição para a vida em terra está relacionada com uma considerável complicação das condições de 
vida. A difusão direta de substâncias alimentícias do meio circundante torna-se impossível, tornando-se 
incomparavelmente menor a quantidade de comida sólida (discreta) pronta. Essa alimentação encontra-se 
agora num meio acentuadamente heterogêneo e a orientação necessária para obtê-la se torna bem mais 
difícil. 
Tudo isso gera a necessidade de sucessiva complicação do organismo dos animais, criando antes de tudo 
uma evolução posterior dos órgãos complexos de recepção e movimentos e de formação de aparelhos 
complexos e centralizados de processamento da informação e regulamento dos movimen- 
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tos. É a isto que corresponde a etapa seguinte da evolução do sistema nervoso, que leva ao 
surgimento do sistema nervoso em cadeia ou ganglionar, que aparece pela primeira vez nos 
vermes e adquire a máxima complexidade nos invertebrados superiores, principalmente nos 
insetos. 
Tanto o surgimento do sistema nervoso ganglionar como a formação do comportamento, que se 
processa com a ajuda dele, marca um salto de suma importância na evolução da atividade vital. 
Nos invertebrados mais simples (vermes) já se pode observar um princípio inteiramente novo de 
organização do sistema nervoso em comparação com o estágio anterior. Na extremidade frontal 
do verme, concentram-se filamentos que terminam em receptores químicos e táteis, distribuídos 
de maneira especialmente densa. Esses aparelhos percebem mudanças químicas, térmicas e de 
luz que ocorrem no meio exterior, bem como mudanças de umidade. Os sinais dessas mudanças 
passam pelos filamentos e chegam ao núcleo frontal ou gânglio, onde se concentram no 
primeiro "centro" que surge pela primeira vez nessa fase da evolução. Aqui esses sinais são 
codificados, e os "programas" de comportamento que surgem em forma de impulsos motores se 
difundem pela cadeia dos gânglios nervosos; cada um desses gânglios corresponde a um 
segmento particular do corpo do verme. Os impulsos que chegam a esses gânglios provocam 
movimentos correspondentes cuja direção é programada e regulada pelo gânglio frontal. 
Aqui surge um novo princípio: o da centraiidade do sistema nervoso, que se distingue 
acentuadamente do princípio da construção do sistema nervoso difuso (reticulado). A 
extremidade da cabeça do verme, onde se concentra uma rede especialmente densa de hemo,-
mecano,-termo,-foto e hi-dro-receptores, assume papel principal, ao passo que os gânglios 
segmentares conservam apenas uma autonomia relativa. Isto é facilmente verificável se 
dividirmos ao meio o corpo do verme. Neste caso a parte dianteira se enfiará no chão, 
conservando seus movimentos organizados, enquanto a parte traseira se limitará a simples 
contorções, sem revelar nenhum indício de movimento organizado. 
A complicação da esrtutura do sistema nervoso no estágio dos vermos permite observar entre 
eles tipos mais perfeitos (se bem que ainda muito primitivos) "de formação de no- 
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vos modelos de comportamento individualmente adquiridos. Isso foi demonstrado em seu tempo pelo 
famoso psicólogo americano R. M. Yerkes, que colocou minhocas num tubo em forma de T, labirinto 
extremamente simples. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico, que provocava 
reação defensiva. Com várias repetições desse experimento, a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de 
evitar o choque elétrico e encaminhar-se para o lado direito. A lentidão com que se desenvolveu esse 
processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da 
minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para 
a direita, evitando o choque elétrico. 
Processo de "ensinamento" 
da minhoca no labirinto em forma de T 
Testes N" de t 
1-40 \u2014 
41-80 \u2014 
81-120 \u2014 
121-160 \u2014 
161-200 \u2014 
201-240 \u2014 
Processo de "reensinamento" da minhoca no labirinto em forma de T 
'rro
s 
Testes JV? de erros 
17 Ensinamento repetido 
14 1-40 \u2014. 19 
13 41-80 \u2014 9 
9 81-120 \u2014 4 
4 Reensinamento 
4 161-165 \u2014 4 
 166-175 \u2014 7 
 176-185 \u2014 7 
 186-195 \u2014 7 
 196-205 \u2014 5 
 206-215 \u2014 3 
 216-225 \u2014 2 
Repetindo-se esse mesmo experimento após uma longa pausa, a "aprendizagem" começa a a processar-se 
duas vezes mais rápido e depois de 80 experimentos o número de erros já é mínimo. Foi sintomático, 
ainda, que os experimentos de "reensinamento" da minhoca (nesses testes a minhoca já começava a 
receber choque elétrico da direita e não da esquerda) se desenvolveram de modo consideravelmente mais 
lento e só depois de 200 testes começava a manifestar-se algum efeito do "reensinamento". 
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Isto mostra que o sistema nervoso ganglionar dos vermes permite adquirir não apenas novas 
formas de comportamento como também conservar as "habilidades" adquiridas, noutros termos, 
que a minhoca possui uma forma primitiva de memória. 
Ultimamente têm sido realizados experimentos que per» mitem que nos convençamos da 
possibilidade de transmissão dessa "habilidade" e demos alguns passos no sentido da elucidação 
dos mecanismos bioquímicos que servem de base à memória elementar. Nesses experimentos, o 
pesquisador americano J. V. Mc Connell "ensinou" a um grupo de vermes o comportamento 
necessário num labirinto muito simples. Depois disto, ele triturou os corpos desses vermes, fez 
deles um extrato e com este alimentou outros vermes que nunca haviam sido ensinados. Como 
mostrou o experimento, os vermes que absorveram esse extrato "assimilaram" simultaneamente 
as habilidades adquiridas pelo primeiro grupo de vermes. Ao serem colocados pela primeira vez 
no labirinto, eles cometeram imediatamente bem menos erros do que os vermes comuns não-
ensinados. Esse fato levou Mc Connell ã Supor que a aquisição de "habilidade" nessas etapas da 
evolução está relacionada com profundas mudanças bioquímicas do proto-plasma e que a 
"habilidade" adquirida pode ser "transmitida" por via humoral. 
A ciência não dispõe de uma apreciação definitiva e pela interpretação dos dados obtidos nesse 
experimento pode-se apenas supor que as mudanças, provocadas por semelhante 
"aprendizagem", estão relacionadas com a modificação do ácido ribonucléico (ARN) . Isto foi 
mostrado pelos experimentos nos quais os corpos dos vermes "ensinados" foram previamente 
depositados em solução de ribonuclease (fermento que dissolve o ARN) . Depois disto o extrato 
das partes posteriores do corpo dos vermes "ensinados" não provocou o efeito necessário, ao 
passo que o extrato das partes anteriores dos vermes "ensinados" (incluindo a substância de 
gânglio frontal) continuou provocando o' mesmo efeito. Esses experimentos se referem tanto à 
importância do ácido ribonucléico para a conservação da "habilidade" como à importância que 
para a conservação da "memória" do verme tem o gânglio
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Muito obrigada!
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