A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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frontal, cujas células são imunss ao 
efeito dis-.solvente do, ribonuclease. 
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Até hoje se discute na ciência se esses experimentos se referem à "transmissão de informação" 
por via humoral ou apenas ao aumento geral da "excitabilídade", verificado na assimilação da 
substância dos corpos dos vermes ensinados, Apesar de não haver uma resposta definitiva a essa 
questão, os resultados dos experimentos mostram que nessa etapa da evolução é possível a 
aquisição de uma "habilidade" estável e que todas as células do corpo do animal parecem 
participar da conservação dessa "habilidade". 
Surgimento das formas complexas de programação hereditária do comportamento 
("instintivo") 
A evolução posterior do comportamento está relacionada com o surgimento de aparelhos 
complexo-diferenciados de recepção, que permitem assimilar uma informação altamente 
especializada que vem do meio exterior. Essa evolução está relacionada, ainda, com o 
desenvolvimento de programas sumamente complexos, que permitem ao animal adaptar-se às 
condições complexas porém permanentes e estáveis do meio. Tudo isso se torna possível nas 
etapas posteriores da evolução do sistema nervoso ganglionar e se manifesta com nitidez 
especial nos articulados. 
As complexas condições de vida tornam necessária a formação de órgãos multiformes de 
sensibilidade, que permitam registrar as diversas influências do meio exterior. Vejamos isto no 
exemplo da evolução dos fotorreceptores. A princípio, as células sensíveis à luz estavam 
simplesmente concentradas na superfície frontal do corpo, dando ao animal a possibilidade de 
assimilar o efeito da luz mas não permitia localizar a fonte da luz no espaço. Na etapa seguinte 
da evolução, as células sensíveis à luz se concentravam em dois discos sensíveis à luz, 
localizados nos dois lados da extremidade frontal do corpo. Isto permitia aos animais orientar-se 
a respeito da posição espacial da fonte de luz e voltar o tronco para a direita ou a esquerda mas 
ainda não permitia distinguir as propriedades do objeto que agia sobre o organismo. Só na 
última etapa da evolução, os discos hipersensíveis se arqueavam, adquirindo a forma de uma 
esfera vazia. Um pequeno orifício, que mais tarde foi preenchido pelo meio refra-tário (o 
cristalino), permitia a refração da luz cadente e o efei- 
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to de objeto luminoso se imprimia na camada sensível dessa esfera vazia. Surgia o órgão do 
complexo receptor fotossensível \u2014 o olho \u2014, que pela primeira vez permitia não apenas reagir 
à existência da luz como também refletir as propriedades do objeto agente. 
A estrutura do olho, o mais importante órgão receptor de luz, é diferente em animais diferentes. 
Nos insetos ela tem o caráter de "olho de faceta", construído, às vezes, de muitos milhares de 
células independentes. Entre os vertebrados assume a forma do olho único tão familiar entre 
nós, que permite perceber o reflexo do objeto e mudar a nitidez do reflexo por meio' de um 
sistema auto-regulável de aparelho refratário. Mas em todos os casos o surgimento de um órgão 
complexo, que permite reconhecer à distância os objetos agentes, continua sendo uma das 
conquistas mais importantes da evolução. 
Os insetos possuem um grande número de receptores altamente diferenciados. A par com o 
complexo "fotorrecep-tor (o olho), eles têm receptores químico-táteis especiais (situados nas 
antenas), receptores de sabor (situados na cavidade bucal, nas pernas), que captam as mínimas 
mudanças de sabor, receptores de vibração (situados nos tímpanos das pernas), que reagem às 
mais ínfimas vibrações ultra-sônicas, às vezes até a 600.000 vibrações por segundo. É possível 
que eles ainda tenham toda uma Série de órgãos receptores por nós desconhecidos, cuja 
especialização foi por eles desenvolvida em um processo de milhões de gerações. 
As excitações, provocadas pelos efeitos que atingem esses aparelhos receptores, difundem-se 
pelos filamentos nervosos e chegam ao gânglio frontal, que é um protótipo do cérebro e um 
aparelho que reúne (codifica) os impulsos que chegam até ele e transferem esses impulsos para 
os sistemas ultracomplexos de programas congênitos de comportamento, que servem de base 
aos movimentos de adaptação dos insetos . 
O gânglio frontal dos insetos superiores, das abelhas, por exemplo, apresenta uma estrutura 
muito complexa. É formado por um acúmulo de células nervosas diferenciadas, às quais chegam 
os impulsos dos receptores periféricos. Na parte frontal desse gânglio se situam principalmente 
as células visuais, na parte média, as células olfativas, na parte posterior, as células sensíveis da 
cavidade bucal. É característi- 
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co que a disposição dessas células tem caráter organizado. Nelas já se pode observar uma 
estrutura plana de "vídeo", que permite que as excitações provocadas se difundam nas estruturas 
neurôniças do gânglio frontal em forma organizada, assegurando com isto o reflexo de 
determinadas influências estruturalmente organizadas. 
Como foi estabelecido pelas últimas pesquisas, é característico que já nessa fase da evolução 
façam parte da composição do gânglio frontal os neurônios altamente especializados, que 
reagem aos mínimos indícios particulares da informação que chega ao organismo, dividindo-a 
em grande número de elementos componentes e permitindo, posteriormente, reuni-los em 
estruturas integrais (adiante falaremos da forma de funcionamento desses neurônios). 
Tudo isso torna o gânglio frontal dos insetos superiores um aparelho central sumamente 
complexo, que permite captar as múltiplas influências do meio e codificar as influências 
captáveis em sistemas integrais. 
Os códigos de excitações, que surgem em determinadas irritações no gânglio frontal dos insetos, 
são transmitidos na forma de programas complexos de comportamento ao gânglio toráxico 
situado abaixo, onde surgem os impulsos dos complexos movimentos de adaptação do inseto, 
impulsos esses que lhe formam o comportamento. 
Os complexíssimos programas de comportamento dos insetos representam um interesse tão 
grande que exigem análise especial e minuciosa. 
A peculiaridade dos programas sumamente complexos, que representam uma parcela de 
absoluto predomínio no comportamento dos insetos, consiste em que tais programas são 
congênitos e transmissíveis por hereditariedade. Esses programas são produzidos por milhões 
de gerações e transmitidos por hereditariedade do mesmo modo que as peculiaridades da 
estrutura do corpo (as formas das asas, as características da tromba, a estrutura dos órgãos 
receptores. Eles estão bem adaptados às condições de existência dos insetos). 
São inúmeros os exemplos de programas congênitos de comportamento, entre os insetos. 
Freqüentemente eles são de tal forma complexos e racionais que alguns autores os consideraram 
exemplo de comportamento racional. 
É sabido que a larva do gorgulho da bétula corta-lhe a folha numa forma geométrica ideal, 
próxima da estrutura 
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ideal matematicamente calculada, para em seguida transformá-la em canudo e utilizá-lo para 
metamorfosear-se em cri-sálida. O mosquito deita as células sobre a superfície da água e nunca 
na terra, onde elas secam fatalmente. A vespa esfecídea deita as células no corpo da lagarta para 
que as larvas que venham a nascer não sintam falta de alimento. Para tanto ela fura previamente 
o gânglio do tronco da lagarta de maneira a que esta não morra mas fique apenas sem 
movimento; isto ela faz com admirável precisão. Não é necessário falar dos programas 
congênitos de comportamento da aranha, que tece uma teia impressionante pela construção, ou 
dos programas congênitos de comportamento da abelha, que constrói favos de forma 
economicamente ideal, enche esses favos de mel e os lacra com cera tão logo eles
Renata
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Muito obrigada!
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