A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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congênitos 
deixem de ser racionais e percam seu caráter "racional". 
Essa tese pode ser ilustrada com dois exemplos. Sabe-se que uma espécie de vespas formou um 
comportamento muito "racional". Ao chegar com a presa ao buraco onde a guada, ela deixa a 
presa junto do buraco, entra nele e depois de encontrá-lo vazio sai, traz a presa para dentro e se 
retira. 
Mas a questão muda substancialmente quando num experimento especial, aproveitando o 
momento em que a vespa faz seu reconhecimento no buraco, pega-se a presa que está na boca 
do buraco, afastando-a alguns centímetros. Neste caso, ao sair do buraco e não encontrar a presa 
no lugar anterior, a vespa torna a arrastá-la para a posição anterior e. .. volta a entrar no buraco 
que acaba de inspecionar. A 
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vespa pode repetir esse comportamento muitas vezes consecutivas, e sempre que a presa se desloca 
alguns centímetros ela continua a repetir mecanicamente o reconhecimento do buraco, perdendo nessas 
condições a sua racionalidade. 
Observações análogas foram feitas com abelhas. É sabido que a abelha enche os favos com mel e, após 
depositar a quantidade suficiente de mel, lacra os favos. Mas se em condições de um experimento 
especial corta-se todo o fundo dos favos, derramando-se o mel neles depositados pela abelha, esta 
continua a lacrar os favos vazios durante o períoSo fixado em seu programa instintivo. E aqui o 
comportamento, que fora racional em condições padronizadas e permanentes de vida, perde sua 
racionalidade quando essas condições se modificam. 
Tudo isso mostra que os programas congênitos "instintivos" de comportamento, predominantes na 
atividade dos insetos, são programas rotineiros, mecânicos, conservando sua aparente "racionalidade" 
apenas sob condições padronizadas permanentes segundo as quais eles foram adquiridos no processo da 
evolução. 
A racionalidade desse predomínio de programas específicos de comportamento corresponde ao princípio 
biológico fundamental de vida dos insetos. Via de regra, estes depositam um imenso número de células, 
que se distingue por um grande excesso. £ó um pequeno número de vespas que nasce dessas células 
consegue sobreviver, más esse número já é o suficiente para a preservação da espécie. Por isto, apesar de 
que grande número de vespas morre quando as mudanças das condições tornam os programas congênitos 
inadequados, assim mesmo conserva-se a espécie e os programas congênitos de comportamento 
"instintivo" são suficientes para a preservação da espécie. 
Esse tipo de adaptação dos programas congênitos de comportamento, com uma mutabilidade lenta e 
difícil, é bio-logicamente racional sob as condições de grande excesso de reprodução que se verifica no 
mundo dos insetos. No entanto ele se torna biologicamente insuficiente para outro ramo da evolução \u2014 
os vertebrados. Entre estes não se verifica esse excesso de reprodução, criando-se condições, que tornam 
racional outro tipo de comportamento: o comportamento individualmente mutável" no nível mais 
elevado. 
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O sistema nervoso central e o comportamento individualmente variável dos vertebrados 
Tudo o que sabemos acerca dos modos de vida e do comportamento dos vertebrados mostra que 
tanto as formas de vida como as formas de comportamento dessa espécie obedecem a um 
princípio inteiramente distinto. 
Só os vertebrados inferiores, que habitam o meio aquo-so, apresentam um excesso de 
reprodução tão grande que os aproxima da classe dos insetos, pois sobrevive apenas um número 
relativamente pequeno de indivíduos que nascem de ovas fecundas. Por isto só entre os peixes a 
prevalência de formas de comportamento pouco variáveis e hereditariamen-te programadas é 
suficiente para a preservação da espécie. 
Diferente é o quadro que observamos com a passagem dos vertebrados à vida em terra. As 
condições de alimentação se tornam mais complexas, o meio mais mutável, aumentando 
infinitamente as necessidades de orientação nesse meio em constante mudança. Muda 
simultaneamente também o tipo de reprodução: cada indivíduo reproduz apenas 2-3 e mais 
raramente 5-6 semelhantes, e a sobrevivência dos indivíduos isolados se torna uma condição 
para a preservação da espécie. 
Tudo isso cria uma necessidade biológica para que, paralelamente ao comportamento 
"instintivo" (ou de espécie) congênito e pouco mutável, surja um novo comportamento 
individualmente variável. Essa nova forma de comportamento existe em embrião nos 
vertebrados inferiores mas nas fases posteriores da evolução começam a ocupar posição cada 
vez mais destacada para nos mamíferos superiores (macacos) e, em seguida, no homem, afastar 
definitivamente as formas congênitas ("instintivas") inferiores de comportamento. 
A necessidade da complicação das formas de orientação na realidade ambiente e aquisição de 
novas possibilidades de orientação individual nas condições mutáveis do meio e a criação de 
novas formas individualmente mutáveis de adaptação levam, no processo de evolução, à criação 
de órgãos nervosos basicamente novos, que seriam capazes não apenas de receber os sinais do 
meio e pôr em ação os programas de comportamento "instintivo", transmissíveis pors; 
hereditarieda-de, como também de analisar a informação recebida e fechar as novas ligações, 
assegurando novas formas individualmente 
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variáveis de comportamento. Esse órgão é o cérebro, cuja estrutura reflete o longo caminho 
percorrido pela evolução. 
A formação do cérebro do animal obedece ao tipo de série de níveis ou camadas sobrepostas 
umas às outras. 
Os níveis inferiores, situados no tronco cerebral, garantem os processos de regulagem do estado 
interno do organismo \u2014 metabolismo (hipófise), respiração e circulação sangüínea (tronco) e 
respostas reflexas aos instigadores elementares qué do meio exterior chegam ao animal (corpo 
qua-drigêmeo). Esses órgãos, construídos segundo o tipo de conjuntos nervoso-secretórios ou de 
núcleos nervosos (gânglios), predominam entre os vertebrados inferiores e permitem-lhes 
realizar programas congênitos mais elementares de atividade adaptadora, que por pouca coisa 
diferem dos tipos de atividade intensiva acima descritos. 
Exemplo típico dessa construção de cérebro é o cérebro da rã, que é constituído de formações 
do tronco superior com um corpo quadrigêmeo poderosamente desenvolvido e estruturas mais 
elevadas apenas esboçadas, assegurando acima de tudo o cumprimento dos programas 
"instintivos" e pouco mutáveis de comportamento que se formaram no processo da evolução. 
Esses programas de comportamento apresentam estrutura semelhante à acima descrita. Ao 
perceber uma mosca, a rã salta de mandíbulas abertas e a apanha com sua língua viscosa. Esse 
comportamento complexo é determinado por um estímulo relativamente elementar \u2014 uma 
cinti-iaçâo visualmente perceptível \u2014, não sendo, absolutamente, resposta a um sinal 
previamente analisado. Isto pode ser facilmente visto se pendurarmos uma pequena nesga de 
papel num fio de cabelo e a pusermos em movimento torcendo esse fio. Neste caso a cintilaçjío 
aciona os programas congênitos de comportamento e a rã se lança automaticamente contra o 
papel cintilante como o faz contra a mosca. 
Sobre o órgão do tronco constituem-se formações mais elevadas, que incluem inicialmente o 
sistema talâmico-estria-do (regiões subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo), incluindo 
posteriormente, nos vertebrados superiores, formações de uma nova camada de grandes 
hemisférios, que se desenvolvem cada vez mais e aos poucos vão começando a dominar 
inteiramente as formações de nível inferior. 
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Os órgãos do sistema talâmico-estriado, que começam a predominar nos répteis e nas aves e, 
posteriormente, os órgãos da camada antiga, asseguram formas de comportamento individual
Renata
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Muito obrigada!
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