A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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plásticas do que as formas que se observavam nos vertebrados inferiores. Mas essas formas de 
comportamento, que já adquirem traços de variedade individual, a^nda estão estreitamente vinculadas a 
formas congênitas mais elementares de comportamento e apresentam traços dos tipos de atividade 
adaptadora que são congênitas no animal e refletem as peculiaridades da sua ecologia (i. e., das formas 
biológicas estáveis de sua existência). 
Uma análise atenta mostra que esses programas congênitos de comportamento, às vezes muito 
complexos, podem ser gerados por estímulos relativamente simples, que refletem as formas de vida do 
animal. 
Como mostraram as observações de diversos autores, entre elas as do fisiologista soviético A. D. Slônim, 
os complexos movimentos de sucção do animal recém-nascido são efetivamente provocados por 
diferentes sinais que refletem as condições biológicas de sua vida: os movimentos de sucção do filhote de 
cão são provocados pela maciez do pêlo (indício principal da fêmea lactante); no cordeiro, esses 
movimentos são provocados pelo escurecimento da teta (que reflete o fato biológico de que o cordeiro 
que começa a mamar aproxima-se da ovelha e mama sacudindo a cabeça). 
Esse mesmo condicionamento ecológico das reações seletivas caracteriza muitos animais e depende mais 
do seu modo de vida do que da classe zoológica a que eles pertencem. 
Assim, o pato doméstico (que se alimenta de comidas vegetais) é indiferente aos cheiros de podre mas 
tem o: olfato apurado para os cheiros de vetegais, ao passo que o esmeri-lhão, que se alimenta de carniça, 
tem o olfato apurado para os cheiros de podre mas é indiferente aos cheiros de vegetais. 
É sintomático que as peculiaridades ecológicas se refletem também em formas mais complexas de 
comportamento animal. É fato bem conhecido que o cão começa a salivar 
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ao ver uma ave. No entanto, o que é menos conhecido, a raposa que se prepara para obter alimento-sofre 
inibição ao vê-lo e retém a saliva. 
Todos esses exemplos mostram que as formas complexas de comportamento natural, realizado pelos 
órgãos das áreas mais elevadas do cérebro, mantêm a mais estreita ligação com os programas congênitos 
de comportamento, que se formam no processo da evolução sob a influência das condições de existência 
(ecologia) dos animais. 
Sobre os órgãos que acabamos de descrever, edificam-se os órgãos do nível seguinte e mais elevado do 
sistema nervoso dos grandes hemisférios, particularmente do novo córtex cerebral cujo peso, como 
mostram os dados que abaixo citamos, começam a ocupar posição cada vez maior em relação ao peso do 
corpo. 
baleia leão cão macaco homem 
1/10.000 1/540 1/250 1/100 1/40 
Os grandes hemisférios cerebrais começam a adquirir não apenas um grande peso relativo no processo da 
evolução dos vertebrados superiores como ainda assumem grande importância. Se nos mamíferos 
inferiores o córtex ainda não tem papel dominante e a regulação dos processos de comportamento pode 
ser realizada com êxito mesmo que o córtex seja destruído, já nos mamíferos superiores ele adquire 
importância de maior peso e os processos de comportamento, por mais insignificante que seja a sua 
complexidade, já não podem ser realizados com a destruição do córtex. 
Os fatos que sugerem uma grande dependência das funções em relação ao córtex cerebral, em outros 
termos, que sugerem uma verticalização progressiva das junções podem ser vistos nos resultados das 
observações do pesquisador alemão Schafer, que mostram que processos de percepção e que movimentos 
podem permanecer em diferentes etapas da evolução dos mamíferos depois da extinção do córtex. 
Colocamos num quadro sinóptico os resultados das observações. 
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Influência da extirpação do córtex cerebral sobre os processos visuais e motores nas fases sucessivas da 
evolução (segundo Schafer) 
Funções visuais Funções motoras 
A ave, depois da extirpação do A ave, depois da extirpação do córtex dos grandes hemisférios,continua a voar; 
córtex dos grandes hemisférios, mantendo os seus movimentos. 
Continua a ver, a pousar no lu- 
Gar marcado 
 O rato, depois da extirpação do O gato, depois da extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemis- 
córtex dos hemisférios, não dis- férios,recupera seus movimentos algumas horas depois. 
Tingue os formas e só reage à luz. 
O macaco fica cego após a extir- O cão, 24 horas após a extirpação das áreas correspondentes do córtex dos 
pação das ares correspondentes grandes hemisférios, pode manter-se em pé mas se desorganizam os seus movimen 
dos grandes hemisférios, tos independentes. 
O macaco, após a extirpação das áreas correspondentes dos grandes hemisférios, pode manter-se em pé somente 
ajudado. 
Tudo isso mostra que os grandes hemisférios não apenas começam a ocupar posição de grande destaque 
em relação ao restante do cérebro como ainda desempenham papel dominante na regulação da formas 
complexas de comportamento animal. 
A função principal dos grandes hemisférios e do seu componente fundamental \u2014 o córtex cerebral \u2014 
consiste em que este é um órgão que não só recebe os sinais e põe em ação os programas alicerçados de 
comportamento da espécie como ainda permite analisar a informação recebida do meio exterior, 
orientar-se nas suas mudanças, fechar novas ligações e formar novos programas de comportamento 
individualmente variáveis, correspondentes a essas mudanças. 
A essa nova tarefa corresponde a estrutura do córtex dos grandes hemisférios cerebrais, cuja massa é 
constituída de um imenso número de células (neurônios) nervosas isoladas, distribuídas em seis camadas 
principais; a quarta destas 
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é o ponto onde terminam os tecidos que levam a irritação dos órgãos, dos sentidos e das 
superfícies receptoras do corpo e onde as irritações se transferem para outros neurônios. A 
quinta camada é o lugar de onde os impulsos motores se dirigem aos músculos e, finalmente, o 
último grupo de camadas (a segunda e a terceira) concentra um imenso número de neurônios, 
que reelaboram (recodificam) os impulsos que chegam ao córtex cerebral e fecham novas 
ligações, que asseguram a formação de novos programas de comportamento individualmente 
variáveis (no IV capítulo faremos uma descrição minuciosa da estrutura do córtex dos grandes 
hemisférios, incluindo aí as camadas restantes) . 
O traço característico do córtex dos grandes hemisférios consiste em que as suas diversas 
regiões estão ocupadas com a projeção dos diferentes órgãos dos sentidos (tato, visão, olfato, 
audição e sensibilidade neuromuscular). O princípio ecológico de construção e funcionamento 
do aparelho nervoso central se manifesta também aqui, e quanto maior é a importância desse ou 
daquele tipo de sensibilidade na vida do animal, tanto mais importante é o seu lugar no córtex 
cerebral. 
Deste modo, no córtex cerebral do ouriço (este animal se orienta predominantemente pelo 
olfato) as regiões olfativas do cérebro ocupam quase um terço dos hemisférios, ao passo que no 
homem as regiões olfativas do cérebro são acentuadamente reduzidas. 
No macaco, a orientação no mundo exterior é altamente relevante porque as áreas visuais do 
córtex ocupam posição de grande destaque, ao passo que no cão (animal predominantemente 
olfativo) as áreas dos grandes hemisférios ocupam posição bem inferior. 
O mesmo podemos dizer da posição relativa que ocupam no córtex cerebral as projeções dos 
órgãos do corpo. Isto ficou evidenciado nos experimentos do fisiologista inglês Adrian, que 
estabeleceu por um método eletro fisiológico especial que o território ocupado pela projeção da
Renata
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Brenda
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Muito obrigada!
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