A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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anca no cérebro do porco é muito pequeno, ao passo que a projeção do "focinho" do porco (que 
é para este o mais importante órgão do tato, do faro, etc.) ocupa um território imenso, 
desproporcional ao seu tamanho. É uma peculiaridade que a projeção dos lábios da ovelha \u2014 
principal órgão de orientação desse animal \u2014 ocupa idêntica posição desproporcional nos 
grandes 
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hemisférios desse mamífero. Tudo isso mostra que o córtex dos grandes hemisférios do cérebro, que se 
desenvolve de maneira potente nas etapas tardias da evolução dos vertebrados superiores, forma-se sob a 
ação direta das condições ecológicas e é justamente esse fator que o converte em órgão principal, que 
assegura as formas mais complexas de análise e síntese da informação recebida do meio exterior, bem 
como em órgão fundamental de regulação do comportamento individualmente variável. 
Mecanismos do comportamento individualmente variável 
Se os mecanismos dos programas instintivos de comportamento se reduzissem a que um estímulo 
qualquer, surgido no processo de evolução de uma espécie, acionasse programas complexos de 
comportamento, gerados no processo da evolução, então seria bem mais complexo o mecanismo do 
comportamento individualmente variável, que se realiza através do córtex cerebral. Este se reduz a que, 
como resultado de uma ativa orientação do animal nas condições do meio, o estímulo que tenha sido de 
importância essencial e dê o sinal do surgimento de condições de significado vital (alimento, perigo) 
começa a distinguir-se do meio ambiente e leva ao fechamento de ligações e ao surgimento de novos 
programas de comportamento, por meio dos quais o animal atinge o fim necessário ou evita o perigo que 
o ameaça. 
Os mecanismos fisiológicos, que levam ao surgimento de novas formas de comportamento 
individualmente variáveis, foram estudados em pormenores na escola de Pávlov e constituem a essência 
da doutrina das ligações temporárias e dos reflexos condicionados. 
É de interesse, entretanto, a descrição das condições sob as quais surgem novas formas individualmente 
modificadas de comportamento adaptador do animal e as etapas pelas quais eles passam em sua 
formação. 
As condições e etapas do surgimento de novas formas de comportamento individualmente variáveis 
foram estudadas minuciosamente por um grande número de pesquisadores, mas enfatizou-se a atenção na 
maneira como o animal atinge o fim necessário e os meios pelos quais ele adquire novas modalidades de 
comportamento. 
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Para resolver tais problemas, os estudiosos aplicaram métodos que receberam a denominação de 
"aquisição de habilidades" ou "reflexos condicionados instrumentais ou operativos". Com essa finalidade 
colocou-se o animal numa célula especial (a chamada caixa problemática), separando-o do estímulo (a 
comida) por um obstáculo (por exemplo, uma porta fechada a ferrolho). O animal dedvia mover um pedal 
ou puxar o ferrolho com a pata e então a porta se abria e o objetivo era atingido. 
Outro método de estudo do modo de surgimento de novas formas individualmente variáveis de 
comportamento consistia no seguinte: colocava-se o animal num complicado labirinto, em cujo extremo 
havia um estímulo (objetivo). O pesquisador observava como o animal superava paulatinamente os 
caminhos errados, encontrando o caminho certo para chegar ao objetivo. 
A diferença essencial entre os experimentos de formação de complexas habilidades ou "reflexos 
condicionados instrumentais" e o método dos "reflexos condicionados clássicos", aplicado por Pávlov, 
consistia em que o êxito ou o fracasso do animal dependia do seu desempenho ativo, noutros termos, do 
caráter das tentativas que ele empreendia. Embora o método de estudo da aquisição de novas formas 
individualmente variáveis de comportamento do animal perdesse em precisão fisiológica em relação ao 
método dos "reflexos condicionados clássicos", sem dar as possibilidades de estudo fisiológico dos 
processos nervosos (sua irradiação e concentração e indução mútua) que dava o método de Pávlov, aquele 
método ganhava no estudo dos modos concretos de comportamento que o animal aplicava para resolver 
as tarefas que se lhe colocavam e assim permitia acompanhar as etapas fundamentais de formação de 
novos atos adaptadores, condizentes com as novas condições. O processo de aquisição de novas formas 
individualmente variáveis de comportamento, que levam à solução das tarefas colocadas diante do 
animal, era explicado de modo diferente por diversas pesquisas. Uns explicavam esse processo a partir de 
posições mecanicistas (partilhavam essas posições os insignes pesquisadores americanos Thorndike, 
Watson e muitos representantes do behaviorismo americano), considerando que as novas formas de 
comportamento, que levam o animal a atingir o objetivo, surgem no processo de testes e erros 
desordenados. Nesse processo de testes um dos movimentos do animal le- 
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vava casualmente à abertura da porta e o animal recebia a comida. Posteriormente, o reforço pelo êxito 
desses movimentos casualmente surgidos e sua constante repetição levaram a que os movimentos 
inadequados fossem extintos, reforçadores os bem-sucedidos. 
Essa explicação do processo de aquisição de novas formas de comportamento por meio do reforço de 
movimentos bem-sucedidos casualmente surgidos explicava bem o reforço dessas formas mas deixava à 
margem da análise o próprio processo de seu surgimento. 
Outro grupo d& autores mantinha outras posições, ao tentarem examinar as regras pelas quais se 
formavam as buscas da solução pelo animal e que levavam ao surgimento de procedimentos bem-
sucedidos de solução das tarefas colocadas diante do animal. 
Esse grupo de pesquisadores (ao qual pertenciam os psicólogos americanos E. Tolman, D. Krech, o 
fisiologista soviético V. P. Protopópov e outros) partia da tese segundo a qual os movimentos que o 
animal empreende tentando resolver a tarefa não têm caráter caótico e casual mas surgem no processo de 
um ativo desempenho de orientação. Nesse desempenho o animal tenta atingir o objetivo, analisa a 
situação, escolhe a direção dos movimentos que corresponde à posição do objetivo. Essa situação da 
"tarefa" (que esses psicólogos entendem como objetivo dado em determinadas condições) ou como 
situação "estímulo-obstáculo" leva a que as tentativas do animal, dirigidas pelo objetivo, restringem-se 
paulatinamente e o animal vai chegando pouco a pouco ao ponto em que surgem nele as necessárias 
reações motoras adequadas ao objetivo, que são posteriormente reforçadas. 
A vantagem dessa teoria consiste em que ela tenta explicar o surgimento das necessárias formas de 
solução da tarefa ou surgimento da "habilidade" a partir de uma análise motora da situação, abandonando 
a hipótese de que os movimentos necessários surgem "por acaso". 
Várias observações, realizadas por pesquisadores americanos, confirmaram o fato de que, às vezes, os 
programas bastante complexos de comportamento do animal que tenta atingir os objetivos não são 
adquiridos por acaso mas se formam no processo de uma orientação ativa nas novas condições e são 
dirigidos por essa orientação na situação e por sua análise. 
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Um desses fatos foi estabelecido numa análise minuciosa da maneira pela qual o animal (o rato) 
adquire a habilidade de encontrar o caminho certo nas condições de um labirinto complexo. 
Como mostrou o pesquisador americano Dashnul, os testes feitos pelo animal colocado em 
labirinto não são casuais, via de regra vão sempre em direção ao objetivo; por isto, o animal que 
ao menos uma vez tenha se orientado no labirinto, cria um sistema geral de direção no qual ele 
corre e entra nos becos sem saída do labirinto, situados na direção do caminho dado, com muito 
mais freqüência do que nos becos
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