A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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sem saída do labirinto, situados na direção oposta ao esquema 
do movimento. 
Deste modo, pode-se ver claramente que os movimentos do animal no labirinto não têm caráter 
casual mas são subordinados a uma direção que o pesquisador americano Crich caracterizou 
como surgimento de uma "hipótese motora", que orienta o sentido geral das tentativas dos ratos 
que adquirem "habilidade" no labirinto. Os testes com a chamada "aprendizagem latente" 
confirmam o fato de que as tentativas que o animal empreende no processo de aquisição de 
novos programas de comportamento não são casuais mas constituem o resultado da orientação 
ativa do animal nas condições do meio. 
Nesses testes de "aprendizagem latente", compara-se a rapidez da aquisição da habilidade nos 
animais, que são imediatamente colocados no labirinto para percorrê-lo, com a rapidez dos 
animais do segundo grupo, aos quais se permite simplesmente correr pelo labirinto, dandose-
lhes a possibilidade de se orientarem previamente nas condições do labirinto. 
Como mostraram esses testes realizados por pesquisadores americanos, o segundo grupo de 
animais adquiria a habilidade bem mais rapidamente do que o primeiro. Foi característico o fato 
de que a aquisição da habilidade eficiente era especialmente significativa quando se permitia ao 
animal orientar-se ativamente nas condições do labirinto. Esse experimento foi realizado pelo 
pesquisador americano Hald, que permitiu ao animal movimentar-se ativamente pela caixa 
problema, enquanto outro animal observava passiva- 
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mente essa caixa do carrinho que havia levado o primeiro animal. Também neste caso o primeiro animal, 
que se orientara ativamente na situação, adquiriu a habilidade motora com rapidez bem maior do que o 
segundo. Esse fato mostra o papel desempenhado na aquisição do novo programa de ação pela orientação 
prévia do animal nas condições do teste. 
O complexo caráter dinâmico da habilidade motora adquirida, que não é mera finalidade dos movimentos 
mecanicamente adquiridos, é confirmado, finalmente, por uma série especial de testes, que mostram que 
essa "habilidade" readquirida pode conservar-se inclusive nos casos em que um conjunto inteiramente 
novo de movimentos se faz necessário para colocá-la em prática. 
Uma dessas pesquisas foi realizada pelo pesquisador americano Hunter, em cujo teste o rato adquiriu a 
habilidade de encontrar o caminho necessário no labirinto. Depois que essa habilidade foi adquirida, uma 
parte do labirinto foi excluída, colocando-se em seu lugar uma bacia com água. Neste caso o rato devia 
atravessar a bacia a nado, i. e., fazendo movimentos inteiramente novos; mas com isto não perdeu a 
habilidade adquirida. 
Fatos análogos foram registrados por outros meios por Lashley. Após formar no rato a habilidade de 
encontrar os caminhos no labirinto, destruiu-lhe em seguida o cerebelo. Como resultado dessa operação, o 
rato perdeu o equilíbrio e todos os movimentos anteriores se desorganizaram. Movendo-se, porém, por 
cambaleios (i. e., por meio de movimentos inteiramente novos), o rato acabou se colocando no rumo certo 
e atingindo o objetivo. 
Tudo isso mostra que os programas motores, adquiridos em condições de tarefas especiais, não são, em 
hipótese alguma, um fim mecânico dos reflexos; são, antes, esquemas dinâmicos complexos, que se 
formam no animal no processo de \u2022sua atividade orientada. \u2022. J 
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Dois traços são característicos da aquisição dessas novas formas de atividade adaptadora entre 
os vertebrados. Um deles consiste em que o processo de orientação ou busca é inseparável dos 
movimentos ativos e o descobrimento da solução necessária não antecede a execução do 
programa motor mas se forma no processo dos testes motores. 
O segundo traço característico consiste em que o caráter dos atos de orientação do animal e o 
caráter das novas formas adquiridas de comportamento dependem ao máximo das formas 
naturais de comportamento, que se constituíram em estreito contato com a peculiaridade da vida 
(com a ecologia) do animal. Nos herbívoros, principalmente nos animais que ingerem 
alimentação pronta (por exemplo a galinha, a ovelha, a vaca), a atividade dirigida tem caráter 
passivo, limitado, os programas naturais de comportamento predominam e a aquisição de novas 
fomas de comportamento individualmente variáveis é um processo lento. Ocorre o.contrário 
com os carnívoros, que em condições naturais são obrigados a procurar a comida, a caçar a 
presa (as aves de rapina, a raposa); nestes a atividade dirigida se processa na forma de buscas 
ativas, sendo bem mais rápida a aquisição de novas formas de comportamento, que 
correspondem a uma situação variável. 
É um dado essencial o fato de que o caráter das formas adquiridas de um novo comportamento 
individualmente variável conserva nesses animais uma estreita ligação com as suas formas 
congênitas ("instintivas") de atividade ou "reflexos naturais". Deste modo, o leão-marinho, no 
qual o mergulho e a perseguição à presa fazem parte dos programas congênitos de 
comportamento, aprende com especial facilidade a fazer malabarismos com a bola ou agarrá-la. 
O guaxinim ou o urso, que se erguem freqüentemente sobre as patas traseiras, deixando livres as 
dianteiras, podem aprender facilmente a executar movimentos que imitam uma "lavagem de 
roupa", etc. 
Essa estreitíssima ligação dos programas congênitos de comportamento (ou "reflexos naturais") 
com a aquisição de novas formas de atividade individualmente variáveis continua sendo 
característica do comportamento dos vertebrados superiores em dada etapa da evolução. 
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O comportamento "intelectual" dos animais 
A descrição da forma de surgimento do comportamento individualmente variável não representa o limite 
supremo da evolução do comportamento no mundo animal. 
Nos vertebrados, que se encontram no topo da escada da evolução, particularmente os primatas, surgem 
novas formas de comportamento individualmente variável, que, com pleno fundamento, podemos 
denominar comportamento "intelectual". 
A peculiaridade do comportamento "intelectual" dos animais consiste em que o processo de orientação 
nas condições da tarefa não ocorre nas condições dos testes motores mas começa a antecedê-los, 
distinguindo-se como forma especial de atividade prévia de orientação. No processo dessa atividade 
começa a formar-se o esquema (programa) de solução sucessiva da tarefa, ao passo que os movimentos se 
tornam um simples elo executor nessa atividade de construção complexa. Assim, nas etapas superiores da 
evolução começam a formar-se tipos especialmente complexos de comportamento de complexa estrutura 
desmembrada, da qual fazem parte: 
\u2014 a atividade de procura c orientação, que leva à formação do esquema de solução da tarefa;» 
\u2014 a formação de programas plasticamente variáveis de movimentos voltados para a obtenção do 
objetivo; 
\u2014 a comparação das ações executadas com a intenção inicial. 
Essa estrutura da atividade complexa se caracteriza pelo caráter auto-regu'ador. Se a ação leva ao efeito 
necessário, ela cessa; se não leva a esse efeito, o cérebro do animal recebe sinais da "discordância" dos 
resultados da ação com a intenção inicial e reiniciam-se as tentativas de solução da tarefa. Esse 
mecanismo de "aceptor da ação" (P. K. Anokhin), i. e., de controle dinâmico da ação é o elo mais 
importante de todo comportamento individualmente variável do animal mas se manifesta com nitidez 
especial na fase mais complexa da evolução do comportamento: no comportamento intelectual. 
Dois fenômenos essenciais, cujos embriões já podem ser vistos nas fases primordiais da evolução dos 
vertebrados, antecedem a formação dessa modalidade mais elevada de compor- 
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tamento dos animais. O
1
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