A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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deles é o surgimento de uma forma especial de atividade orientada, à 
qual o pesquisador soviético L. V. Krushinsky chamou "reflexo extrapolativo". O segundo é o fato das 
formas de desenvolvimento da memória dos animais, que se tornam mais complexas. 
Nas observações, efetuadas nos últimos anos por Krushinsky, foi estabelecido que alguns animais 
mostram em seu comportamento a não-capacidade de sujeitar-se à percepção imediata do objeto mas de 
acompanhar-lhe os movimentos e orientar-se em relação ao deslocamento esperado do objeto. Sabe-se 
que o cão que atravessa uma rua não corre diretamente na frente dos carros em movimento mas dá voltas, 
considerando o movimento dos carros e inclusive a velocidade deles. Foi esse reflexo, que "extrapola" o 
movimento observado e leva em conta o deslocamento, que Krushinsky observou em vários testes. 
Nesses testes, colocava-se diante do animal um tubo com um furo no centro. À vista do animal, prendia-
se um estimulante a um arame que passava por dentro do tubo. O estimulante aparecia aos olhos do 
animal no furo do tubo e continuava em movimento, tornando a aparecer no final do tubo. O animal se 
colocava diante do furo e observava o movimento do estimulante. 
Essas observações mostraram que os animais, que se encontram numa fase inferior de evolução, 
sobretudo os animais que tinham apenas a propriedade de apanhar comida pronta (a galinha, por 
exemplo), reagiam imediatamente ao lugar onde o alimento aparecia e não se afastava dele. Ao contrário, 
os animais que se encontram em fase mais elevada de evolução, especialmente aqueles que levam modo 
de vida carnívoro, observam a presa e a perseguem (o corvo, o cão), observavam os movimentos do 
alimento e, "extrapolando" esse movimento (ao que parece, orientando seu comportamento pelo 
movimento dos olhos), contornavam o tubo e esperavam o alimento no lugar em que ele aparecia. 
O "reflexo extrapolativo", que tem a forma especial de comportamento "antecipante", representa uma das 
importantes fontes para a formação dos tipos "intelectuais" mais elevados de comportamento 
individualmente variável nos vertebrados superiores. 
O segundo fato, que cria condições essenciais para a formação do comportamento "intelectual" dos 
vertebrados supe- 
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riores, é a crescente complexidade do processo de percepção e a grande estabilidade da memória nas 
fases subseqüentes da evolução dos animais. 
É sabido que se os vertebrados inferiores reagem apenas a certos indícios de influências provenientes do 
meio exterior, já os vertebrados superiores reagem mais a complexos inteiros de indícios ou às imagens 
dos objetos circundantes. Essa reação dos animais foi estudada minuciosamente pelo fisiologista e 
acadêmico soviético I. S. Beritov e constitui a condição mais importante para a evolução das formas mais 
complexas de comportamento. 
Simultaneamente com a formação da percepção por imagem, nas etapas superiores da evolução dos 
vertebrados observa-se uma crescente estabilidade da memória visual. Esse fato foi observado 
minuciosamente nos testes com as chamadas "reações retardadas" dos animais. 
Os testes com "reações retardadas' foram efetuados por muitos pesquisadores americanos, pelo psicólogo 
soviético N. Y. Voitonis e o fisiologista polonês Y. Konorsky. A essência do teste consistia no seguinte: 
Postava-se o animal diante de uma caixa hermetica-mente fechada, na qual se colocava o estimulante à 
vista do animal. Este se mantinha algum tempo amarrado a um pau por um cabresto, sendo depois 
libertado. Se o animal retinha na memória algum vestígio do estimulante colocado na caixa, corria 
imediatamente para esta, não o fazendo se o vestígio desaparecia. 
Em testes mais complexos, cuja tarefa consistia em verificar a precisão do vestígio conservado no animal, 
substituía-se o estimulante na caixa sem que o animal o percebesse. Se o animal conservava o vestígio do 
primeiro estimulante e ao correr para a caixa encontrava outro, ele o apanhava. Isto era indício de que o 
animal conservava a imagem seletiva do estimulante que havia visto. 
Noutros testes, colocava-se o animal entre duas caixas, numa das quais colocava-se um estimulante aos 
olhos do animal. Percorrido certo tempo, libertava-se o animal do cabresto. Se o vestígio do estimulante 
colocado numa das caixas se mantinha, o animal corria para essa caixa; se o vestígio não se mantinha, o 
animal não apresentava movimento dirigido. 
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Os testes de "reações retardadas" mostram que, nas fases posteriores da evolução dos vertebrados, 
aumenta a duração da conservação das respectivas imagens. 
Duração da conservação dos vestígios de memória visual provocada uma só vez em animais diferentes 
o rato conserva o vestígio da imagem de 10 a 20 segunãos o cão " " " 
até 10 minutos 
o macaco " " " de 16 a 48 horas. 
É natural que a conservação das imagens por longo tempo aumenta na medida em que se tornam 
complexas as estruturas cerebrais e cria uma segunda condição importante para o surgimento de formas 
"intelectuais" superiores de comportamento do animal. 
O conhecido psicólogo alemão Wolfgang Kiihler inciou, no início da década de 20 do corrente século, 
pesquisas sistemáticas do comportamento "intelectual" dos animais superiores (os macacos). Para estudar 
essa forma de comportamento, Kõhler colocou macacos (chimpanzés) em condições sob as quais a 
obtenção imediata do objetivo era inacessível e o macaco devia orientar-se em situações complexas nas 
quais lhe era dado o objetivo, usando o rodeio a fim de conseguir o chamariz ou aplicando para isto 
instrumentos especiais. 
Descrevamos três situações típicas nas quais Kõhler fez suas pesquisas do comportamento "intelectual" 
dos macacos. A primeira situação exigia "caminho em rodeio" . Colocava-se o macaco numa grande 
jaula, ao lado da qual havia sido colocado o estimulante que se encontrava a uma distância que não 
permitia que a mão do macaco o alcançasse. Para atingir o objetivo, o macaco devia desistir das tentativas 
de obtenção imediata do objetivo, usando um contorno por uma porta situada na parede traseira da jaula. 
A segunda situação era idêntica à que acabamos de descrever; colocava-se o macaco numa jaula fechada, 
desta feita com portas. O estimulante continuava distante e o animal não conseguia alcançá-lo. 
Diferentemente da 
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primeira situação, porém, em frente à jaula havia uma vara a uma distância equivalente a um braço 
estirado. O macaco podia obter o estimulante se conseguisse a vara e com esta alcançasse o objetivo. Em 
testes mais complexos, o estimulante se encontrava a uma distância ainda maior, mas no campo de visão 
do macaco havia duas varas: uma curta, ao alcance do braço, e outra comprida, um pouco adiante. Para 
resolver a tarefa, o macaco devia realizar um programa de comportamento mais complexo. A princípio, 
devia alcançar a vara mais próxima \u2014 a curta \u2014 e, com o auxílio desta, obter em seguida a vara 
comprida, situada mais adiante e, já com ajuda desta, obter o estimulante. Por último, na terceira variante 
dos testes, pendurava-se o estimulante de tal modo que o macaco não conseguia alcançá-lo. Mas na 
mesma área foram colocados caixotes; para alcançar o estimulante, o animal devia arrastá-los para perto 
deste, colocá-los uns sobre os outros e trepar. 
As pesquisas de Kõhler permitiram-lhe observar o seguinte quadro. A princípio o macaco tentava sem 
êxito obter o estimulante por via direta, estirando-se ou saltando em sua direção. Essas tentativas inúteis 
podiam durar muito, até o macaco ficar exausto e abandoná-las. Em seguida vinha o segundo período, no 
qual o animal permanecia sentado, imóvel, limitando-se a examinar a situação; neste caso a orientação na
Renata
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Brenda
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