A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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do campo espiritual, que podia ser abordado 
somente por meio da descrição subjetiva dos fenômenos que nele ocorrem. Essa tese levou à divisão real 
da Psicologia em dois campos no final do século XIX: a Psicologia naturalista científica ou Psicologia 
fisiologista, que tentava estudar com precisão e explicar pela causalidade os processos psicológicos 
elementares e definir-lhes as leis objetivas, e a Psicologia descritiva ou subjetiva, que estudava as formas 
superiores do campo consciente do homem, enfocando-as como manifestações do espírito. O enfoque 
dualista aos fenômenos do campo psicológico refletiu-se nos trabalhos dos clássicos da psicologia como 
os psicólogos alemães Wilhelm Wundt (1832^1920), Hermann Ebbinghaus (1856-1909), o psicólogo 
americano "William James (1842-1910) e o representante da filosofia idealista Wilhelm Dilthey (1833-
1911) e outros. 
A influência do enfoque dualista dos fenômenos psicológicos levou a Psicologia ao impasse e provocou 
tentativas naturais de superar a estagnação surgida nessa ciência, de aplicar métodos das ciências naturais 
ao estudo dos processos psicológicos e fazer destes a mesma análise que se fazia de todos os outros 
fenômenos da natureza. 
Essa tendência, que já surgira com os materialistas franceses e ganhara formulação nítida com os 
democratas revolucionários russos em meados do século XIX, teve sua patente mani festação na obra do 
célebre fisiologista russo Ivan Mikháylo-vitch Sétchenov (1829-1905). 
Em sua famosa obra, Os reflexos do cérebro, Sétchenov expôs a idéia segundo a qual até os processos 
mais complexos do campo psíquico devem receber tratamento materialista e ser 
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abordados como reflexos complexos; segundo essa idéia, o pensamento é um reflexo igualmente 
complexo porém inibido, carente de fim motor externo. Para ele, os fenômenos dg mundo psíquico devem 
ser estudados pelo naturalista com os mesmos meios empregados no estudo de outros fenômenos da 
natureza. Essa linha de pensamento foi seguida por outro notável fisiologista russo, Ivan Petrov Pávlov 
(1849-1936), criador do estudo objetivo da atividade nervosa (psíquica) superior com a aplicação dos 
reflexos condicionados. Outros notáveis representantes da ciência russa, como M. D. Bekhteryev (1857-
1927), A. A. Ukhtomsky (1857-1942) e outros tentaram formalizar um enfoque das bases objetivas e 
fisiológicas da atividade psíquica e fundamentar a possibilidade de uma Psicologia objetiva e naturalista. 
São essas as razões pelas quais o mundo psicológico do homem e sua consciência foram tratados, durante 
séculos, como fenômenos de tipo especial, isolados de todos os outros processos naturais. 
A doutrina dos reflexos condicionados de Pávlov, que ele mesmo via como base fisiológica da ciência 
psicológica, exerceu influência marcante na evolução da Psicologia americana. Em fins do século XIX, o 
psicólogo americano Edward Lee Thorn-dike começou a estudar o comportamento dos animais, aplicando 
métodos que permitiam observar como os animais adquiriam novas habilidades em laboratório. Essas 
pesquisas serviram de base a uma nova corrente na Psicologia, denominada behavio-rismo (ciência do 
comportamento) pelo psicólogo americano J. B. Watson. Nessa corrente, Watson via a forma científica 
natural da ciência psicológica, que devia substituir a Psicologia. Partindo da tese segundo a qual a 
"consciência" não passa de um conceito subjetivo, inacessível à pesquisa objetiva, os beha-vioristas 
americanos propuseram que se considerasse objeto da pesquisa científica apenas o comportamento 
externo do animal, comportamento esse que eles consideravam resultado das inclinações (necessidades) 
biológicas dos animais e dos reflexos condicionados a eles sobrepostos. Assim surgiu uma nova corrente 
na ciência, que abandonava todo o estudo do mundo subjetivo e limitava-se à descrição das formas 
exteriores de comportamento, cujas leis eram tratadas como sistema de habilidades mecanicamente 
constituído, inteiramente suscetíveis de análise naturalista. 
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A tentativa de substituir a Psicologia pelo estudo do comportamento exterior e das leis da aquisição de 
habilidades complexas era reflexo da luta por uma Psicologia científica objetiva e teve importância 
progressista em sua época. 
Mas o behaviorismo americano, como exemplo de um enfoque excessivamente mecanicista da atividade 
psíquica, iria revelar muito breve as suas limitações e levar a Psicologia a uma crise não menos patente do 
que a crise do enfoque dualista dos fenômenos psíquicos. 
Por outro lado, o que ficou evidente alguns anos após a tempestuosa evolução do behaviorismo 
americano, a explicação mecanicista nele dominante de processos como a formação de habilidades não 
mostrava os autênticos mecanismos fisiológicos destas e substituía sua pesquisa fisiológica científica por 
uma descrição exterior e uma interpretação mecanicista desses fenômenos. Por outro lado, a imensa 
parcela de formas complexas da atividade psíquica do homem, que se manifesta na atividade consciente 
dos modos e procedimentos superiores de comportamento especificamente humanos, de atenção ativa, da 
memorização arbitrária e do pensamento lógico era geralmente mantida à margem do campo da pesquisa 
científica. 
Era por isso que nos limites do próprio behaviorismo já começava a surgir a necessidade de ultrapassar os 
limites das descrições mecanicistas simplificadas das habilidades elementares e passar a uma análise 
científica das formas mais complexas da. atividade psíquica do homem. 
Foi essa necessidade de criação de uma Psicologia autenticamente científica, capaz de abordar com 
métodos científicos objetivos as formas mais complexas da vida psíquica do homem, que se converteu na 
questão fundamental que a década de 30 -do nosso século assimilou como condição que podia tirar a 
Psicologia do estado de crise. 
As vias para superar a crise na Psicologia foram formuladas pela primeira vez pelo notável psicólogo 
soviético Lyev Semiônovitch Vigotsky (1896-1934); elas se converteram na base para a posterior 
evolução da Psicologia como ciência, a princípio na URSS e em seguida além de suas fronteiras. 
Como já tivemos oportunidade de salientar, o sentido histórico da crise da Psicologia deveu-se ao fato da 
evolução desta ciência ter assumido duas direções. A primeira, que dava continuidade às tradições do 
enfoque científico-natural dos fenômenos, propunha-se a tarefa de explicar os processos psí- 
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quicos limitando-se de fato aos processos psicofisiológicas mais elementares e recusando-se a examinar 
os fenômenos complexos e especificamente humanos da atividade consciente. A segunda orientação 
tomou como objeto de sua análise justamente esses fenômenos exteriores da atividade consciente 
especificamente humanos, limitando-se, porém, à descrição das manifestações subjetivas de tais 
fenômenos, considerando-os manifestação do espírito e recusando-se a dar aos mesmos um enfoque 
científico causai. 
Para Vigotsky, a tarefa principal para superar essa crise consistia em converter em objeto da pesquisa as 
formas superiores e especificamente humanas de atividade consciente e enfocá-las da ótica da análise 
científica, explicar por via causai a sua origem e definir as leis objetivas a que elas se subordinam. 
Mas a execução dessa tarefa exigia uma revisão radical das teses básicas da Psicologia. 
Como observou Vigotsky, a tentativa de enfocar o psiquismo como função imediata do cérebro e procurar 
a sua fonte no recôndito do cérebro é tão inútil quanto a tentativa de considerar o psiquismo como forma 
de existência do espírito. A vida psíquica dos animais surge no processo de sua atividade e é uma forma 
de representação da realidade, é realizada pelo cérebro mas pode ser explicada somente pelas leis 
objetivas dessa atividade
Renata
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Brenda
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Muito obrigada!
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