A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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sem os quais a escrita harmoniosa se torna impossível. Por último, o 
processo da escrita deve sempre estar sujeito a uma tarefa geral (escrever uma frase, uma carta, 
expor 
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uma idéia, etc.) e só com a sólida manutenção desse programa correspondente a necessária 
tarefa pode ser cumprida. 
Cabe observar que em diferentes línguas a escrita pode apresentar estrutura diferente. Se na 
grande maioria das línguas (indo-européias, turcas) a escrita apresenta a estrutura que acabamos 
de descrever, há línguas (o chinês, por exemplo) em que a escrita não é um processo de 
transferência das unidades sonoras ("fonemas") para as respectivas letras ("grafemas"); nelas o 
escrevente representa imediatamente os conceitos com determinados sinais convencionais 
(hieróglifos). É natural que para semelhante escrita a primeira fase (a análise sonora da palavra) 
se torna desnecessária e o processo da escrita adquire inteiramente outro caráter. 
O que acaba de ser dito mostra de modo bastante convincente que deve ser abandonada em seus 
primórdios a própria idéia de que um processo tão complexo tenha sido "localizado" em 
determinada área limitada do cérebro e realizado por um grupo relativamente insignificante de 
células. Por isto a tarefa de "localização" das funções psíquicas nas áreas limitadas do cérebro 
pode ser substituída por outra tarefa: a análise do sistema de zonas cerebrais que funcionam em 
conjunto, que põem em ação dado "sistema funcional", noutros termos, a análise da maneira 
pela qual esse sistema funcional se distribui pelos aparelhos do córtex cerebral segundo as 
respectivas estruturas cerebrais. 
Esse enfoque torna compreensível também o fato de que a afecção de determinada área limitada 
do cérebro pode levar à desintegração todo um sistema funcional, e sempre que haja afecção 
limitada do cérebro não será afetada um "função" mas todos os sistemas funcionais cuja 
realização tem a participação da área cerebral afetada. Torna-se compreensível que a mesma 
afecção do cérebro pode provocar a perturbação dos mais diversos sistemas funcionais (só se 
forem integrados por determinado elo geral ou "fator" geral cujo funcionamento esteja 
diretamente relacionado com a afecção da área) e que um mesmo sistema funcional (o ato da 
escrita ou da fala, por exemplo) pode ser afetado com a afecção de diferentes áreas do cérebro, 
que asseguram elos diversos, integrantes da composição de dada função. 
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Assim, se um movimento arbitrário inclui em sua composição elementos sensórios 
(cinestésicos) espaço-visuais, que que criam a base "aferente" do movimento e os impulsos efe-
rentes propriamente ditos, então é perfeitamente natural que esse movimento possa ser afetado 
tanto com a afeccção das áreas sensórias e espaço-visuais como com a afecção das áreas 
corticais propriamente motoras. 
Se o processo da escrita inclui em sua composição a análise auditiva, cinestésica (articular) da 
estrutura da letra, a realização do respectivo programa motor será naturalmente perturbado tanto 
com a afecção das áreas auditivas, cinestésicas ou visuais como das áreas motoras do cérebro e 
essa perturbação será cada vez diferente. 
A análise do caráter das perturbações dos complexos sistemas funcionais nos casos de afecções 
locais limitadas do cérebro constitui o objeto de um campo especial da Psicologia \u2014 a 
neuropsicologia. Os dados desta ciência são de grande, importância tanto para o campo prático 
da neurologia \u2014 definição do diagnóstico local (tópico) das afecções cerebrais \u2014 como para 
uma compreensão mais profunda da estrutra fisiológica dos complexos processos psicológicos. 
Para entender a organização cerebral dos complexos processos psíquicos, é necessário, antes de 
tudo, ter uma noção precisa dos dados atuais atinentes à organização funcional do cérebro 
humano. 
Princípios da organização funcional do cérebro humano 
Como já foi dito (cap. II), o cérebro humano, sendo produto de uma longa evolução, é um 
complexo sistema construído por hierarquia, que se distingue pelo fato de que, aos aparelhos do 
tronco e do córtex primitivo \u2014 bastante desenvolvido já nos vertebrados superiores \u2014 
sobrepõem-se os grandes hemisférios, que no homem chegam a um nível especialmente alto de 
desenvolvimento 
Se os aparelhos do tronco e de suas áreas superiores são aquelas partes do cérebro que incluem 
em sua composição os núcleos (grupos de células que regulam 'os processos de respiração, 
circulação sangüínea e do metabolismo bioquímico, que executa os mais importantes processos 
vitais), já os apa- 
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relhos do corpo quadrigêmeo e dos nós subcorticais (tálamo ótico e sistema palium estriado) são 
as primeiras instâncias que asseguram a obtenção das instigações do mundo exterior que 
chegam através dos órgãos superiores dos sentidos (receptores de contato e distância), a 
inclusão delas nos aparelhos motores (corpo quadrigêmeo) e sua integração primária com a 
execução de complexas sinergias (sistema talâmico-estriado). Esses últimos aparelhos 
desempenham papel dominante nos vertebrados inferiores (anfíbios, peixes, aves) mas são 
paulatinamente afastados pelas áreas superiores do cérebro anterior \u2014 os grandes hemisférios. 
Estes são os dispositivos mais complexos, que asseguram a análise e a síntese das excitações 
que chegam do mundo exterior, a assimilação e elaboração da informação recebida, o 
fechamento de novas ligações, o processamento de programas de atividade complexa e 
regulação da realização das formas superiores de comportamento. As áreas superiores do 
sistema nervoso central são os grandes hemisférios: o córtex cerebral e a substância branca 
subjacente, constituída de fibras de projeção, que ligam o córtex às formações subcorticais 
subjacentes, e de fibras de associação, que ligam regiões corticais isoladas. Os grandes 
hemisférios começam a ocupar posição dominante nos vertebrados superiores, tornando-se o 
aparelho fundamental, o mais importante da atividade psíquica do homem. 
Pesquisas realizadas nos últimos decênios deram certa clareza não apenas à característica 
morfológica dos aparelhos cerebrais como também aos princípios fundamentais de sua 
organização funcional. É isto que se reveste de importância essencial para a Psicologia. 
Os três "blocos" principais do cérebro 
Como já indicamos, o cérebro humano, que assegura o recebimento e a elaboração da 
informação e a criação de programas de suas próprias ações bem como o controle da execução 
destes, trabalha sempre como um todo único. Contudo o cérebro é um aparelho complexo e 
altamente diferençado, composto de várias partes; a perturbação do funcionamento normal de 
cada parte se reflete fatalmente no seu trabalho. 
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No cérebro humano podemos distinguir ao menos três "blocos" principais, cada um desempenhando 
papel especial na atividade psíquica. 
O primeiro mantém o necessário tônus do córtex, indispensável para o bom andamento dos processos de 
recebimento e elaboração da informação, bem como dos processos de formação de programas e controle 
da execução destes. O segundo bloco assegura o próprio processo de recebimento, elaboração e 
conservação da informação que chega ao homem do mundo exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo). 
O terceiro bloco elabora programas de comportamento, assegura e regula sua realização e participa do 
controle do seu cumprimento. 
Todos os três blocos se instalam em órgãos isolados do cérebro e só o trabalho bem organizado leva a 
uma acertada organização da atividade consciente do homem. 
O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro 
Para que o homem possa realizar normalmente o recebimento, a elaboração e conservação da informação, 
criar e executar os complexos programas de comportamento, acompanhar o êxito das ações executadas
Renata
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