A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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e 
fazer a necessária auto-regulação do comportamento, é necessária uma permanente manutenção do tônus 
otimal do córtex. Só esse tônus pode assegurar a escolha acertada dos sinais essenciais, a conservação dos 
seus vestígios, a elaboração dos necessários programas de comportamento e um controle permanente da 
execução destes. 
Coube a Pávlov apresentar uma característica fisiológica desse tônus otimal do córtex, indicando que os 
processos que ocorrem no córtex normal obedecem à "lei da força", segundo a qual um instigador forte 
(ou mais significativo) provoca uma reação forte, que deixa o vestígio mais estável, ao passo que o 
instigador fraco (ou menos significativo) provoca uma reação mais fraca cujo vestígio se extingue ou se 
inibe mais facilmente. 
A existência dessa "lei da força", que caracteriza a exci-tabilidade otimal do córtex, é necessária para a 
realização de atividade seletiva organizada, para a criação de sistemas domi- 
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nantes de exeitação, para a conservação de sistemas de informação organizados e programas 
estáveis de comportamento. É bem conhecido que com a redução do tônus do córtex este pode 
passar ao estado inibido ou "fásico": os instigadores fracos começam a provocar reações 
idênticas às que provocam os instigadores fortes ("fase niveladora") ou até reações mais fortes 
do que as dos instigadores fortes ("fase paradoxal"). Essa peculiaridade do trabalho surge, por 
exemplo, no estado de sono ou sonolência. 
É natural que em tais condições a atividade consciente organizada se torna impossível e o fluxo 
seletivo organizado de idéias é substituído pelo aparecimento de associações "casuais" (ou 
secundárias). 
Uma importante descoberta da fisiologia nos últimos vinte anos consiste em que inúmeras 
observações e experimentos de vários pesquisadores célebres (Magoun K. W., Moruzzi G. Jas-
per H. H.) mostraram que nesse processo desempenham papel substancial as formações das 
áreas superiores do tronco cerebral, particularmente as formações do hipotálamo, do tá-lamo 
ótico e do sistema de fibras reticulares ("formação re-ticular"), que une essas formações por uma 
ligação bilateral com o córtex cerebral. Essas formações são as componentes principais do 
"primeiro bloco" do cérebro-bloco humano, que assegura o tônus geral ou estado de vigília do 
córtex. 
A esses órgãos devemos incorporar os órgãos do córtex primitivo ou límbico, que está situado 
nas áreas internas (médias) dos grandes hemisférios e é estreitamente ligado aos órgãos recém-
referidos do tronco superior. Eles compreendem em sua composição formações anliquíssimas 
do grande cérebro como o hipocampo, o núcleo do tálamo ótico, os antimuros e os corpos 
mamilares; o movimento da excitação nesse sistema, que recebeu a denominação de "ciclo do 
hipocampo" é uma das condições mais importantes de manutenção do tônus corti-cal, de 
garantia do estado emocional normal e cria condições para a sólida manutenção dos indícios 
surgidos. 
Todo o complexo aparelho que integra o bloco desempenha importante papel no funcionamento 
normal do córtex cerebral e merece abordagem minuciosa. 
A manutenção do tônus permanente do córtex tem basicamente duas fontes (às quais só mais 
tarde acrescenta-se uma terceira, mais complexa) . 
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Por um lado, para manter o estado de vigília do córtex é necessário um afluxo permanente de 
informação do mundo exterior; privado dessa afluência de excitações do mundo exterior, o 
animal adormece. Sabe-se, ainda, o efeito provocado pela "fome de informação", que surge no 
homem após um longo período de isolamento numa cela escura à prova de som. As observações 
efetuadas nos últimos anos mostram que? nesses casos, começam facilmente a surgir alucinações 
no homem, qué compensam em parte essa insuficiência de afluência permanente de instigações 
exteriores. Por isto, para manter o tônus ideal do córtex, tem importância decisiva o estado de 
conservação do tronco superior e do tálamo ótico que são a primeira instância do recebimento 
das instigações afluentes de fora. O corte das vias que levam do tronco superior ao córtex na 
composição da "formação reticular ativa ascendente" leva inevitavelmente ao adormecimento; 
esse mesmo efeito pode ser provocado pela irritação das paredes do terceiro ven-trículo (que 
tem como componentes os órgãos do tálamo ótico): a irritação das paredes do terceiro ventrículo 
durante operações cerebrais realizadas pelo famoso cirurgião soviético N. N. Burdenko, levou 
freqüentemente o paciente a adormecer. 
Deste modo, a primeira fonte do estado de vigília do córtex é a afluência constante de irritações 
da periferia, no qual os órgãos do tronco, superior e a formação reticular ascendente 
desempenham papel principal. 
A segunda fonte igualmente importante do tônus permanente do córtex é constituída pelos 
impulsos que a este chegam dos processos internos de metabolismo do organismo, que formam 
a base das inclinações biológicas do organismo. 
É sabido que o estado do organismo (o nível de açúcar no sangue, por exemplo, que é um índice 
do estado de fome ou saciação, o nível de oxigênio no sangue, que, caindo para um nível 
inferior ao necessário, é um índice da "fome de oxigênio") é regulado pelos órgãos do tronco 
superior e do hipo-tálamo. Sabe-se, ainda, que o tronco superior e o encéfalo primitivo são 
compostos também por aparelhos especiais, que regulam processos como os reflexos sexuais, os 
reflexos da agressão, etc. 
Irritando as respectivas áreas do tronco superior e do encéfalo primitivo, os pesquisadores (N. 
Miller, J. Olds, Mc Lean, Delgado e outros) provocaram no animal formas expressas de 
comportamento sexual instintivo, atos de agressão, 
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fome constante e sede, etc. A existência, nas referidas zonas do encéfalo, de formações nervosas que 
regulam as inclinações citadas, foi utilizada por alguns pesquisadores (Olds e Delgado) para provocar nos 
animais reações duradouras de "auto-estimulação". Ao fechar a corrente que se dirigia aos eletrodos 
introduzidos nessas áreas do encéfalo, o animal provocava sozinho e demoradamente a excitação desses 
aparelhos, considerados pelos referidos autores como "centros" sui generís, reguladores do estado 
emocional do animal. 
Os impulsos que partem dessas formações do hipotálamo e do tálamo ótico, que são transmitidos ao 
córtex através da formação reticular ascendente, constituem a segunda fonte de manutenção do tônus 
cortical e seu estado de vigília. A afecção desses aparelhos do hipotálamo e dos núcleos do tálamo ótico 
no homem pode mudar substancialmente o tônus do córtex. Exemplos de mudança do tônus podemos ver 
nos casos de distúrbio das funções da hipófise, por um lado, e de tumores das paredes do terceiro 
ventrículo, por outro. 
Aos aparelhos do tronco superior da formação reticular, que asseguram a manutenção do tônus do córtex, 
devemos incorporar os aparelhos do córtex primitivo ("límbico"), situados nas áreas internas (mediais) 
dos grandes hemisférios e participantes do trabalho do bloco "energético" do encéfalo. 
O córtex primitivo "límbico" foi, durante muito tempo, considerado parte essencial do "corpo olfativo". 
Essa hipótese se baseava no fato de que esse córtex é especialmente desenvolvido nos animais nos quais o 
olfato desempenha papel dominante no comportamento. Mas a existência dessa área nos animais sem 
olfato (delfins), bem como várias observações fisiológicas levaram à mudança desse ponto de vista; 
levaram a incluir na região o hipocampo e os órgãos componentes, de funções bem mais complexas, e a 
considerar o córtex primitivo e a região límbica como "encéfalo-vegetativos", tendo participação 
essencial na regulação da ocorrência dos processos vegetativos e afetivos cujo papel é importante para a 
conservação dos
Renata
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H
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Brenda
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Muito obrigada!
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