A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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(visual) há neurônios que só reagem ao movimento do 
ponto que ilumina do centro à periferia ou da periferia ao centro, só às linhas curvas harmoniosas, às 
linhas quebradas agudas, etc. Essas mesmas células, com elevadíssima especialização, existem no córtex 
temporal (auditivo) e tátil (parietal). Isto permite dividir a excitação em mínimos elementos isolados e os 
transforma num mosaico funcional das instigações, acessível à organização posterior. 
Sobre cada zona primária ou de projeção do córtex estão edifiçadas zonas secundárias ou de projeto e 
associação. Os tecidos que aqui chegam não são diretamente originários, via de regra, do receptor 
periférico; eles ou mudam nos respectivos núcleos subcorticais e já veiculam impulsos generalizados ou 
chegam das zonas primárias às zonas secundárias do córtex. 
À diferença das zonas primárias do córtex, essas zonas se constituem basicamente das seções celulares II 
e III (de associação) poderosamente desenvolvidas. A maioria esmagadora dos neurônios componentes 
dessas zonas não se distingue por uma especialização tão sutil como os neurônios das zonas primárias (de 
associação). Eles não reagem a indícios isolados divididos, porém, mais amiúde, a todo um complexo de 
instigadores específico-modais (visuais, auditivos, táteis), sendo que alguns deles têm inclusive caráter 
multimodal, reagindo a instigações de diversas modalidades. A importância dessas zonas secundárias 
parece consistir em reunir as irritações que lhes chegam dos núcleos subcorticais subjacentes ou das 
zonas primárias do córtex e codificá-las em determinadas estruturas dinâmicas móveis. 
Esse fato é demonstrado por uma série de experimentos fisiológicos e psicofisiológicos. 
Como mostraram as pesquisas de Mc Culloch, a irritação das zonas primárias com estricnina, depositada 
num pedaço de papel, surte efeito somente nas áreas corticais imediatamente próximas; ao contrário, a 
irritação das zonas secundárias com estricnina provoca excitação, que se espalha a fundo nas zonas 
contíguas. Isto mostra que as zonas secundárias das áreas corticais de cada analisador difundem realmente 
a exci- 
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tação a áreas consideráveis e deste modo incorpora ao processo de excitaçâo sistemas complexos inteiros 
de neurônios, garantindo o funcionamento conjunto de grandes zonas do córtex. 
A importância psicológica das zonas primárias e secundárias do córtex da sensibilidade tornou-se clara 
graças aos experimentos em pacientes submetidos a cirurgia cerebral. É sabido que o córtex do cérebro, 
esse órgão superior da sensibilidade, é por si mesmo indolor, razão por que as cirurgias cerebrais podem 
ser feitas sem anestesia; irritando partes isoladas do córtex, podem-se observar as reações do doente. 
For isto que permitiu aos pesquisadores (O. Foerster, O. Poetzl e W. Penfield) chegarem a uma 
conclusão sobre as funções originais das áreas primárias e secundárias do córtex. Como mostraram as 
pesquisas, a irritação do córtex visual ou auditivo faz surgirem no sujeito sensações correspondentes 
(alucinações). 
No entanto varia inteiramente o caráter dessas alucinações com a irritação das zonas primárias e 
secundárias do córtex. 
Assim, as irritações das zonas primárias do córtex visual (campo 17) provocam no sujeito sensações 
visuais sem forma definida (o homem vê "luz colorida", "chama", "bolas luminosas", etc). Diferentemente 
disto, a irritação das zonas secundárias do córtex visual faz o homem começar a ver objetos de forma 
definida (borboletas, feras, rostos conhecidos, etc.). Resultados análogos são obtidos com a irritação do 
córtex auditivo: com a irritação das zonas primárias do córtex auditivo o homem começa a ouvir tons ou 
sons isolados, passando a ouvir melodias inteiras com a irritação das zonas secundárias desse córtex, etc. 
Tudo isso indica que as zonas primárias do córtex da sensibilidade têm as funções de distinguir esses e 
aqueles indícios específico-modais (visuais, auditivos, táteis), noutros termos, exercem a função de 
fracionar (analisar) em partes componentes a informação recebida, ao passo que as zonas visuais dessas 
mesmas áreas corticais implicam a função de unificar (sintetizar) ou proceder a uma elaboração 
complexa da informação que chega ao sujeito. 
Cabe observar mais uma peculiaridade importante do funcionamento das zortas primárias (de projeção) e 
secundárias (de projeção e associação) do córtex. 
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As' zonas primárias do córtex, aonde os tecidos de projeção chegam dos respectivos receptores 
periféricos, apresentam uma rigorosa estrutura somatotópica. Isto significa que as fibras nervosas, que 
chegam das regiões receptoras ao córtex dessas zonas, não estão distribuídas por acaso mas dispostas em 
ordem rigorosa, estando cada ponto da superfície receptora representado num ponto absolutamente 
determinado do córtex de projeção. Assim, os tecidos que vão das superfícies cutâneas das zonas 
inferiores do corpo, cruzando-se no tronco do encé-falo, chegam às zonas superiores da circunvolução 
anterior central do hemisfério oposto, ao passo que os tecidos que conduzem os impulsos da sensibilidade 
cutânea das mãos se situam na parte intermediária e os tecidos que levam os impulsos sensíveis da pele 
do rosto e da cabeça se situam nas partes inferiores da circunvolução central anterior do hemisfério 
oposto; é de importância especial o fato de que a área, ocupada pela projeção dessas ou daquelas partes do 
corpo, é proporcional à importância que essas regiões do corpo realmente têm. Deste modo, a área 
ocupada pela projeção do quadril ou da perna no córtex cerebral é muito insignificante, ao passo que as 
projeções da mão (especialmente do polegar e do indicador), da boca e dos lábios, são muito grandes. Isto 
garante maior direção para os órgãos que devem sujeitar-se com precisão especial a uma regulação 
central. É característico que a destruição de determinados trechos das áreas cor-ticais da região parietal 
(póstero-central) leva à queda da sensibilidade nas áreas rigorosamente limitadas do lado oposto do corpo, 
sendo que a queda da sensibilidade na pele da perna, do braço ou do rosto dá fundamentos para avaliar o 
lugar no córtex de projeção e sensibilidade ou em suas vias condutoras, destruídas por processo 
patológico. Ao contrário, a irritação das zonas primárias (de projeção) do córtex leva ao aparecimento de 
sensações visuais ou auditivas, que surgem na ausência das respectivas influências exteriores. O típico 
para esses casos é a "aura" (fase inicial) dos acessos epilépticos, que surgem como resultado da influência 
irritante de cicatriz localizada na zona correspondente do córtex cerebral. Assim, uma cicatriz localizada 
nas áreas superiores da circunvolução póstero-central provoca sensação de "choque" ou "formiga-mento" 
na extremidade inferior do lado oposto, a cicatriz localizada nas zonas intermediárias dessa região 
provoca as mesmas sensações no braço oposto, e a situada nas partes inferiores 
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do córtex dessa região provoca as mesmas sensações na face oposta do rosto. 
O princípio análogo da projeção somatotópica ocorre em outras áreas do córtex. Assim, as fibras que vão 
de áreas isoladas da retina, que constituem partes do campo visual, projetam-se em trechos absolutamente 
determinados da zorja de projeção do córtex occipital (visual), resultando que a afec-ção de determinadas 
áreas do córtex visual leva à eliminação de áreas perfeitamente determinadas do campo visual; a irritação 
de áreas isoladas da região occipital leva ao surgimento de sensações visuais ("fosfenos") em 
determinadas áreas do campo visual. 
O mesmo ocorre nas áreas de projeção do córtex temporal (auditivo): os tecidos que implicam 
excitação, que corresponde a tônus elevados, projetam-se nas áreas internas
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Muito obrigada!
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