A.R.Luria-Curso de Psicologia geral - Vol. 1
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que se esten- 
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dem a outras áreas do córtex e foram denominadas "ondas da expectativa" pelo fisiologista 
inglês Walter Gray. Essas ondas desaparecem quando começa a cessar a expectativa do sinal. O 
trabalho intelectual tenso, que exige elevado tônus do córtex, provoca nos lobos frontais um 
elevado número de pontos de funcionamento conjunto, que se excitam sincronicamente. Como 
mostrou o cientista soviético M. N. Livanov, esses pontos de funcionamento sincrônico se 
conservam durante toda a duração do trabalho intelectual complexo e desaparecem quando este 
cessa. 
O papel dos lobos frontais na manutenção do estado ativo, provocado pela instrução do discurso 
ou uma tarefa intelectual, foi mostrado no exame de pacientes com afecções locais (tumores ou 
traumas) dos lobos frontais do encéfalo. Os experimentos da psicóloga soviética E. D. 
Chomskaya mostraram que se a instrução do discurso, que provoca tensão, leva nos sujeitos 
normais ao surgimento de longos estímulos de ativação (que se expressam em reações 
vasculares ou eletrofisioló-gicas), então esse estado persistente de elevada ativação não surge ou 
desaparece muito rapidamente nos doentes com afec-ção dos lobos frontais do encéfalo 
(especialmente das suas. regiões mediais e basais, dotadas de ligações sobretudo potentes com a 
formação reticular ativante). 
Ao manter o tônus do córtex, indispensável para a realização da tarefa colocada, as regiões 
frontais do encéfalo desempenham papel decisivo na criação de intenções e formulação de 
programas de ação que concretizam essas intenções. 
Neuropsicólogos (Luria e outros) mostraram com suas observações que a afecção bilateral dos 
lobos frontais do encéfalo impede que os pacientes fiquem em condições de conservar 
solidamente as intenções, manter os programas complexos de ação, inibir os impulsos não-
correspondentes aos programas e regular a atividade sujeita a esses programas. Eles não podem 
concentrar a atenção na tarefa que se lhes colocou' e fogem facilmente ao seu cumprimento, 
substituindo as ações necessárias ora por simples respostas a instigadores semelhantes, ora pela 
repetição apática dos estereótipos surgidos, que continuam a reproduzir-se independentemente 
da tarefa colocada, dificultando-lhe o cumprimento adequado. 
É natural que a atividade intelectual organizada, orientada pela tarefa colocada, é 
substancialmente perturbada com a afecção dos lobos frontais do cérebro; aqui os planos com- 
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plexos de solução das tarefas são substituídos por respostas fragmentárias surgidas de modo 
impulsivo ou pela reprodução apática dos estereótipos uma vez assimilados (A. Luria e L. S. 
Tsvetkova). 
É sobretudo importante o fato de que os lobos do encé-falo desempenham papel essencial na 
realização do controle permanente da atividade em processo. Os pacientes com afec-ção dos 
lobos frontais do encéfalo não podem comparar os resultados das suas ações com a intenção 
inicial, perdem a atitude crítica em face das suas próprias ações e ficam sem condições de 
reconhecer seus próprios erros e corrigi-los. Isto dá fundamento para considerar que os lobos 
frontais são importante componente do mecanismo do "aceptor de ação" (P. A. Anokhin) que 
desempenha papel de suma importância na garantia da atividade auto-reguladora do homem. 
O princípio da lateralização no funcionamento dos grandes 
hemisférios 
A descrição dos três blocos principais cujo funcionamento conjunto é assegurado pela atividade 
do cérebro humano não esgota os princípios fundamentais do seu funcionamento. Contudo essa 
descrição deve ser completada com mais um princípio, que serve de base ao funcionamento do 
cérebro humano. 
Se os dois hemisférios dos animais são equivalentes, no homem um deles (via de regra, o 
hemisfério esquerdo) é dominante e o outro, dominado. Ao que parece, o caráter dominante do 
hemisfério esquerdo começou com o surgimento do trabalho e o destaque do braço direito como 
executor do papel principal na atividade de trabalho. Por isto o hemisfério esquerdo desempenha 
papel dominante nos destros, enquanto nos canhotos o papel dominante oblitera-se ou passa 
para o hemisfério direito. 
O indício mais importante do papel dominante do hemisfério esquerdo no destro é o fato de esse 
trabalho estar estreitamente ligado à fala. Apesar de, em termos morfoló-gicos, a diferença entre 
os dois hemisférios ser muito insignificante, só o hemisfério esquerdo é aparelho cerebral da 
fala; as partes inferiores das áreas posteriores do hemisfério esquerdo (regiões temporal e 
panetal) estão relacionadas com 
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o discurso receptor (diferença dos sons da fala, formação de articulações da fala e codificação do discurso 
falado, que chega ao sujeito em complexos sistemas lógico-gramaticais), sendo as áreas inferiores da zona 
pré-motora um aparelho que assegura a transformação dos movimentos da fala em complexas "melodias 
cinéticas" do discurso e em articulação fluente da fala. É por isso mesmo que a afecção das áreas 
posteriores da região temporal superior esquerda leva à perturbação da capacidade de distinguir os 
complexos sons da fala, provocando a desintegração da compreensão da fala (a chamada "afasia seri-
sória"); a afecção das áreas inferiores da região pós-central leva à perturbação das articulações precisas 
("afasia motora aferente"); a afecção das áreas posteriores da circunvolução frontal inferior (ou áreas 
inferiores da zona pré-motora esquerda) leva à perturbação da fala expressiva fluente ("afasia motora 
aferente"). É natural que as afecções de todas as referidas regiões do córtex do hemisfério esquerdo levam 
fatalmente à perturbação de formas complexas da fala como os processos de localização dos nomes 
necessários, da fala independente organizada, da escrita e, em alguns casos, à perturbação da leitura,- do 
cálculo, etc. É característico que a afecção das zonas correspondentes do hemisfério direito (subdominan-
te) não provoca tais distúrbios. 
O caráter dominante do hemisfério esquerdo (nos destros) não se manifesta apenas na ocorrência normal 
dos processos da fala. Como mostraram observações clínicas, a integridade do hemisfério esquerdo é 
importante também para o desenvolvimento de todas as foi mas de atividade consciente relacionada com 
o discurso falado. 
Assim, a afecção das regiões do córtex cerebral, contíguas às zonas do discurso e pertencentes às regiões 
terciárias do córtex, provoca a perturbação das formas complexas de percepção (agnosia), a 
desintegração das formas mais complexas de operações lógico-gramaticais que servem de base aos 
processos intelectuais ("afasia semântica"). De modo diferente, as afecções de áreas análogas do 
hemisfério direito (sub-dominante) não provocam semelhantes distúrbios dos processos cognitivos e se 
refletem em maior medida no distúrbio da percepção direta e do campo emocional do homem. 
Há fundamentos para supor que da íntima ligação dos processos da fala com o córtex do hemisfério 
esquerdo (dominante) resulta que o seu funcionamento transcorre de modo 
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Renata
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